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Cegonhas e abelhas

O meu filho está a chegar à idade em que temos que ter "a" conversa. O meu pai morreu quando eu era novo, o que fez com que a minha aprendizagem sobre sexualidade se tenha resumido ao que descobria em livros e em conversas com amigos. Gostava de dar alguma orientação ao meu filho mas sinto-me completamente confuso e envergonhado. O que aconselha?

Não refere a idade do seu filho, mas, se for como a maioria dos pais, provavelmente subestimou a altura apropriada para terem “a" conversa. As crianças são bombardeadas com imagens sexuais desde muito cedo, razão pela qual os pais devem controlar os conteúdos a que são expostas e tomar a iniciativa de ter uma conversa com eles sobre o assunto. Caso contrário, as crianças vão acabar por fazer exactamente aquilo que fez: recorrer aos livros, aos amigos e a algo que ainda não existia no seu tempo: a Internet, uma ferramenta que pode ser vantajosa em muitas situações, mas é ao mesmo tempo a maior fonte de informação duvidosa do mundo. 

Na melhor das hipóteses, falar sobre sexo vai deixá-lo a si e ao seu filho constrangidos. Então como é que se introduz o assunto?

É boa ideia começar pelo “como”, que é tão importante como “o quê”. Se o tema for abordado de modo cínico, com piadas, lições de moral ou vergonha, vai estar a enviar ao seu filho duas mensagens muito perigosas. Primeiro, que pensa que o sexo é sujo, errado ou insignificante. Segundo, estará a dizer-lhe que não pode falar consigo sobre assuntos sérios.

Antes de começar a falar sobre sexo, deve averiguar o que é que ele já sabe. É preciso fazer perguntas e ouvir com muita atenção, para depois adequar a mensagem que lhe quer transmitir.

Por vezes, ter uma ajuda visual ajuda. Por exemplo: para os miúdos em idade pré-escolar, aponte para uma mulher grávida e pergunte ao seu filho se sabe como é que o bebé foi ali parar. Falar sobre as diferenças básicas entre anatomia feminina e masculina é essencial.

Para os que já estão na escola, até aos sete ou oito anos de idade, indique uma criança ligeiramente mais velha, em início de puberdade e pergunte ao seu filho se ele entende as mudanças que a adolescência acarreta. Nesta altura pode falar-lhe sobre os sinais físicos de excitação sexual e sobre o que acontece durante o sexo. Algumas crianças consideram esta parte aterradora, para evitar esse sentimento insista na ideia de que tudo isto é natural e normal.

No caso dos pré-adolescentes, a televisão e o cinema podem ser uma boa estratégia. Aproveite uma cena clássica: uma rapaz e uma rapariga conhecem-se, falam, riem-se e, na manhã seguinte, acordam na mesma cama. Será que o seu filho entende o que aconteceu? Para além da parte física do sexo, é crucial que ele compreenda também a componente emocional e as repercussões que provoca.

Fale-lhe sobre a gravidez e a importância da protecção sexual. Não esqueça as doenças sexualmente transmissíveis e todos os procedimentos que reduzem o risco de as contrair. Pode querer mencionar coisas como a masturbação e o sexo oral. Não vai ser fácil, estudos indicam que cerca de 70% dos pré-adolescentes e adolescentes pensam que sexo oral não conta, por acharem que não é sexo “de verdade”. Explique-lhe que esta ideia está errada.

Não adie “a" conversa e consciencialize-se de que vai ter mais do que uma. Podem deixá-lo desconfortável, mas as crianças que falam com os pais sobre sexo têm maior probabilidade de vir a ter práticas sexuais seguras e responsáveis e maior facilidade em compreender e lidar com as mudanças por que estão a passar.

Exclusivo Público / McClatchy-Tribune News Service