Memórias
A mulher invisível é ruiva
São 50 anos de carreira de uma mulher invisível no sector onde as mulheres, para o bem e para o mal, mais são vísiveis - a moda. Uma galesa em Nova Iorque, Grace Coddington é a directora criativa da Vogue americana e as suas memórias contam a história da imagem do mundo ocidental na segunda metade do século XX
Mesmo à sombra de uma imperatriz da imprensa de moda mundial, ela é a insider mais outsider, ou a outsider mais poderosa da indústria das roupas, do luxo, dos modelos e das fotografias reluzentes nas revistas mais lidas do sector. É, também, inconfundível: vasta e trapezoidal cabeleira ruiva encaracolada e crespa, tem uma carreira de 50 anos que começou como modelo e a levou a Times Square, em Nova Iorque, como directora criativa da Vogue americana. O mundo em geral só soube quem ela era depois de um filme, focado em Anna Wintour, a directora da Vogue EUA. The September Issue (2009) - e, indirectamente, a sátira escrita por uma ex-assistente de Wintour O Diabo Veste Prada (2006) - é o culpado pelo extravasar da sua fama para além da linha da frente na batalha da moda, ainda que diminuta em comparação com a de Wintour ou das legiões de supermodelos.
Foi no documentário de R.J. Cutler sobre a edição do mais lucrativo e volumoso número do ano da Vogue norte-americana que muitos viram pela primeira vez a cabeleira ruiva de Grace Coddington, modos bruscos e capacidade quase única de contrariar a infamemente dura Anna Wintour. Depois, tornou-se mais fácil de identificar quem era a mulher de negro que desenha ao lado de Wintour nos desfiles das principais marcas do mundo. A ideia de um livro de memórias surgiu pouco depois disso e Coddington pediu ajuda ao amigo Michael Roberts, da revista Vanity Fair, para o escrever.
"A moda mudou tanto durante a minha vida", escreve então a britânica e septuagenária Grace Coddington, directora criativa da Vogue EUA há 24 anos, na sua autobiografia Grace: A Memoir, publicada em Novembro pela editora Random House (que, segundo rumores citados pelos jornais New York Times e Telegraph, terá pago cerca de 925 mil euros pela obra).
Viveu a era dos grandes fotógrafos como Helmut Newton ou Cecil Beaton, das expedições de prospecção por locais exóticos para fazer produções de moda, chegou a Londres em 1959 para assistir em primeira mão à explosão dos swinging sixties, para desfilar para Mary Quant e cortar o cabelo com Vidal Sassoon. Também lidou com Kate Moss embriagada numa sessão fotográfica com Annie Leibovitz e John Galliano, viu nascer e morrer, elevarem-se e caírem, dezenas de nomes na moda. Daqueles que, por mais fútil que pareça a indústria em que os criadores dizem ser inspirados "pela espuma dos dias" ou pelo "espírito dos tempos", moldaram uma certa imagem do mundo. E também ela ajudou a cozinhar essas imagens, através dos editoriais que concebe, sonhadores, fantasistas e belos, para as páginas de uma das revistas mais lidas e seguidas do mundo.
Mas, 50 anos depois, "às vezes acho que sou a última pessoa que vai aos desfiles pelo prazer de ver as roupas, em vez de querer desesperadamente estar lá pelo lado social - que é a parte destas coisas para que sempre tive de ser arrastada". Pamela Rosalind Grace Coddington, que recusava ter festas de aniversário desde criança no pequeno hotel dos pais na ilha de Anglesey, ao largo da costa norte de Gales, cresceu sem luxos nem muitas roupas compradas - era ela quem as cosia durante a II Guerra Mundial, e a mãe tricotava as restantes. Estudou num convento, teve os verões sombrios mas belos de Gales e lia banda desenhada, contos de fadas - que ainda hoje habitam as suas produções - e revistas de moda - a Vogue, entre outras, cujos moldes eram base para as roupas que costurava. Aos 18 anos viajou para Londres para fazer um curso de modelo, de onde saiu com grande sucesso para as revistas do meio.
Coddington fez a vida plena da Londres mod e da emergência da cultura juvenil dançando com amigos como Mick Jagger, Marianne Faithfull, Michael Caine, Jane Birkin ou George Harrison, casando-se, vestindo muito Saint Laurent, pintando o cabelo com henna e fazendo uma permanente - estilo que dura até hoje - para depois viver a era disco e yuppie como directora criativa da então florescente Calvin Klein, já em Nova Iorque.
Grace nasce da idade da sua protagonista. Aos 71 anos, estava na altura. O livro, com uma capa irremediavelmente anos 1970, a condizer com a sua melena laranja, está povoado de imagens. Não só das histórias que conta, mas também de algumas das luminárias da fotografia de moda actual e passada, de Bruce Weber a Annie Leibovitz, passando por Steven Meisel ou nomes mais jovens. Junto às fotografias, as ilustrações - são muitas, assinadas por Coddington, feitas a lápis e que fazem pensar no contraste entre esta mulher esguia e sóbria, que ainda desenha furiosamente nos desfiles os coordenados que vê na passerelle, e as hordas de iPhotográfos e de dedilhadores de tablets, que votaram ao abandono os blocos e as canetas.
O livro (ou Grace) não tem hesitações. Coddington critica irmãmente as fashionistas (as britânicas "são as primeiras a engolir" o "champanhe barato" distribuído nas semanas de moda "às 9h da manhã"; um grupo de jovens assistentes da Vogue, numa gala em Nova Iorque, "visto de trás, parecia uma convenção de prostitutas"), os fotógrafos (do perfeccionismo sisudo de Leibovitz ao "momento intensamente irritante" em que "gritam "descruzem as pernas"" a quem está na primeira fila de um desfile - e em que normalmente pensa "vão-se lixar") ou os chumaços dos anos 1980 ("O filme Uma Mulher de Sucesso, com Melanie Griffith, é um lembrete de um dos momentos mais feios da moda").
Nas entrevistas sobre o livro, ou em The September Issue, também não mede opiniões - nem palavras. "Praguejo como um carroceiro", diz ao New York Times. "As supermodelos [dos anos 1980 e 90]", enfatiza, "por mais mimadas que fossem, tinham personalidade e eram modelos muito boas. Agora são todas demasiado belas, demasiado perfeitas, e são miudinhas", diz à Associated Press. Também desdenha a cultura das celebridades, rindo-se do rapper Puff Daddy e da sua obsessão por ficar no centro de uma fotografia, apesar das explicações de que ficaria engolido pela dobra da revista. E conta detalhadamente a história de uma atribulada produção com Madonna na sua fase britânica, após o casamento com Guy Ritchie, em que nas entrelinhas se percebe como detesta trabalhar com estrelas e suas imposições ou recusas.
As celebridades ganharam protagonismo na Vogue americana a compasso da sua valorização crescente na cultura ocidental. Anna Wintour puxou-as repetidamente para as capas. E sobre ela, Grace também não guarda segredos - dedica-lhe todo um capítulo. "A ruína da vida de Anna é O Diabo Veste Prada. Mesmo o ex-Presidente [francês Nicolas] Sarkozy o mencionou meio a brincar no discurso na cerimónia oficial no Eliseu antes de lhe entregar a Legion d"Honneur em 2011", escreve Coddington, acrescentando, solidária, que também ela viu apenas excertos do filme e nunca mais olhou para ele porque "faz o nosso negócio parecer risível".
As carreiras das duas mulheres estão inevitavelmente entrelaçadas. Chegaram juntas à Vogue americana, que, diz Coddington sobre os primeiros anos da dupla na revista, "ocasionalmente parece" um "colégio interno feminino". Conheceram-se em Londres, depois de a carreira de modelo de Coddington ter basicamente terminado após um acidente de viação que lhe cortou a pálpebra, o que fez com que passasse para o outro lado da barricada - como stylist e editora na Vogue britânica em 1968. Anna, filha do reputado editor da imprensa Charles Wintour, trabalhava então na revista Harper"s & Queen, mas viria a ser directora criativa da Vogue americana, depois directora da Vogue britânica e, em 1988, ascende à direcção da Vogue americana - uma revista com um público maior do que o britânico, com um potencial de mercado e comercial ainda mais alargado (que Wintour fez crescer ainda mais). E leva Grace consigo.
A relação entre ambas não tem floreados, mas é de respeito - em The September Issue, era Grace que lutava pelas imagens mais puras no sentido artístico, contra a visão mais comercial (que elogia) de Anna. "Um pouco de nostalgia pelos tempos em que a moda estava primeiro não faz mal", escreve a editora, que acumula uma volumosa colecção de fotografias mas que não guardou (e agora arrepende-se) as suas roupas vintage de Yves Saint Laurent ou Azzedine Alaïa. Coddington diz recear a cada almoço que Wintour agenda com ela que esse seja o momento do seu despedimento. "Não, enquanto eu cá estiver, tu também ficas", respondeu-lhe recentemente a poderosa britânica, que na festa dos seus 70 anos lhe atribuiu o título de "alma e coração da revista, a sua guardiã".
Agora, numa mirabolante narrativa noticiosa que dura há semanas, as duas mulheres estão em alta - Coddington por causa das suas memórias e das entrevistas em que se desdobra; Wintour, porque houve rumores muito citados em meios de comunicação respeitáveis de que seria candidata ao posto de embaixadora dos EUA em Londres ou Paris. A directora da Vogue foi uma das angariadoras de fundos mais proeminentes na campanha para a reeleição de Barack Obama em 2012. Mas os diplomatas do mundo podem respirar fundo e abandonar a revisão do roupeiro que tinham em curso: Wintour, diz uma porta-voz da Vogue, está "muito satisfeita com o seu actual emprego".
Grace é também uma janela aberta para o sector que tanto condiciona a forma como nos vemos e apresentamos no mundo. No livro, a britânica conta como passou por todo o processo de avaliação impiedoso de uma candidata a modelo. Foi depilada, questionada sobre a cintura e o peito, criticada e estilizada - e tudo isto numa só sessão com a fundadora da agência de modelos Ford, Eileen Ford.
A galesa conta histórias de bastidores das modelos nos anos 1960, de como se penteavam e maquilhavam sozinhas, da nudez ocasional e despreocupada em alguns trabalhos, das pestanas tipo boneca que a icónica modelo britânica Twiggy viria a popularizar mas que garante ter começado a pintar primeiro - por causa do seu acidente.
Saltando para o século XXI, considera "inacreditavelmente chocante" o nível de manipulação digital da imagem na moda hoje e faz a análise inevitável: "É tudo muito rápido. Agora o tempo é dinheiro", diz à Associated Press sobre a crescente pressão financeira na moda e a obsessão do lucro. E há a questão da explosão de popularidade da moda, um nicho tornado nos últimos dez anos numa moda em si mesma, numa peça da engrenagem da cultura popular, oleada pela cultura das celebridades que torna designers, modelos, fotógrafos e, dado mais recente, bloggers e os chamados insiders do sector em estrelas. As capas da Vogue americana já só são feitas de estrelas de cinema, da música ou do desporto - com a ocasional supermodelo a tiracolo. As modelos de Coddington já não vendem. E, de repente, é ela também um desses astros - "Todos sabemos que estrela rock ela é", diz Anna Wintour ao New York Times, "e agora é uma figura nacional, mundial". Os editores da Vogue estão a ter o seu momento: há semanas estreou-se no canal premium americano HBO o documentário In Vogue: The Editor"s Eye, acompanhado por um livro homónimo, sobre estes profissionais e a competitividade do seu habitat natural.
A lista semanal dos livros mais vendidos do New York Times já contempla Grace: A memoir, diários como o britânico Telegraph publicam excertos sob a forma de série e a crítica tem-se debruçado sobre o tomo com atenção, do próprio New York Times (memórias "espalhafatosas, apelativas e muito presenteáveis") ao Boston Globe, que lamenta que Coddington não permita a entrada do leitor no seu mundo mais emotivo - "parece incapaz de partilhar a sua biografia interior". Ainda assim, fala da primeira experiência sexual, do acidente traumático, das traições (e identifica-as pelo nome), de um aborto tardio, da perda da irmã mais velha para as drogas.
E, claro, fala de gatos, que têm direito ao mesmo espaço que Wintour - há um capítulo só para felinos. "Se sonho muito? Se sonho predominantemente com moda? Não. Sonho muito mais com gatos." Em Grace: a memoir, elogia os génios da moda menos usável e mais intelectual que a desafiam, como Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, ou o recentemente desempregado Nicolas Ghesquière, ex-Balenciaga. "Para mim, a moda cabe numa de duas categorias. Pode ser instantaneamente apelativa e gostaríamos de a usar; ou é algo que não usaríamos necessariamente mas que está a fazer a moda avançar." E prende-se à sua experiência de menina leitora de revistas, votando-se ao objectivo de "tecer sonhos", "procurando romance no mundo real, e não digital". Não é avessa à tecnologia, mas lamenta a voragem e a permeabilidade do seu mundo, do seu sector, à velocidade. "Já não há segredos - tudo já foi enviado por sms, por email ou twittado mundo fora muito antes de o desfile ter sequer começado."
Artigo publicado na Revista 2 a 16 de Dezembro