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Perfil

Armando Gabriel: o corsetier lisboeta 

O espartilho foi, ao longo da História, a segunda pele que envolvia o corpo e lhe desenhava curvas perfeitas. Mas desengane-se quem pensa que a moda é antiga e ficou enterrada no passado - Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood e Alexander McQueen são embaixadores dos espartilhos dos tempos modernos. Porém, para conceber um espartilho não basta ser designer, tem de ser mestre na fina arte da corseterie. Em Portugal, esse papel fica a cargo de Armando Gabriel.

Quem vai à zona do Cais do Sodré e se dirige ao n.º 19 da Rua do Alecrim, raramente chega lá por acaso. O velho prédio pombalino perde-se entre todos os outros e não há ali nada que salte à vista. Mas, quando se sobem as velhas escadas de aspecto abandonado, as paredes à volta gritam promessas de "um show apimentado de variedades". Bem-vindo à Pensão Amor. Antigamente, a diversidade anunciada no slogan pintado na parede era relativa à companhia que os marinheiros, cansados da monotonia do mar, podiam escolher para passar a noite. Hoje em dia, os ocupantes dos quartos são outros - livrarias temáticas, cabeleireiros, bares e ateliers espalham-se pelos vários andares da Pensão Amor.

No terceiro piso, na primeira porta à esquerda, o número 306 assinala o espaço de Armando Gabriel. Lá dentro encontramos uma outra realidade, onde paredes pintadas de dourado contam a história do vestuário feminino ao longo dos séculos. E todas as imagens têm um denominador em comum: o espartilho.

Armando Gabriel é mestre de corseterie, a arte de criar espartilhos. Estudou design de moda na Gordon Flack Davison Academy of Design, em Joanesburgo, na África do Sul, e, desde cedo, foi evidente o seu interesse por peças estruturadas e pela estética feminina. "Quando eu era miúdo, fascinava-me a Barbie. Para já, adorava as roupas delicadas, pequenas e bem feitas. Depois eram as formas: um peito bem feito, umas pernas compridas e uma cintura fina, muito acentuada. Era perfeita". Foi este entusiasmo que o conduziu, já depois do curso de design, à confecção de vestuário para teatro e cinema em Milão, onde teve a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos de corseterie.

A história da moda tem uma enorme influência no trabalho de Armando Gabriel. "Adoro o período do Renascimento. Aquele desenho em V do torso da mulher, que termina numa cintura fina e numa anca acentuada. Mas o meu período favorito é o do século XIX, quando a diversidade dos materiais é maior".

O pequeno atelier de Armando Gabriel é discreto. Lá fora nada faz adivinhar que ali se encontra um espaço dedicado à fina arte dos espartilhos e só lá vai ter quem já conhece o caminho. Noivas e convidadas do casamento são as clientes que mais procuram o designer.  Depois existem as clientes habituais, que têm um gosto particular pelo espartilho e que o usam no dia-a-dia. "Há quem se levante e o vista logo, nem que seja para andar por casa. É assim que se habitua o corpo, é preciso um treino. Existem regras para o uso do espartilho. É preciso controlar aquilo que se come, por exemplo. É preferível comer pouco e várias vezes do que tomar grandes refeições", esclarece Armando Gabriel.

O espartilho é uma peça delicada e feita por encomenda. Tem de o ser, para que envolva a cintura da cliente de uma forma perfeita. Ele molda o corpo e cria aquela silhueta das princesas com que sonham a maioria das meninas. O preço base de uma destas peças únicas de Armando Gabriel ronda os 500 euros, mas o preço pode variar, dependendo dos apliques, rendas ou jóias que o espartilho levar. "Às vezes as pessoas espantam-se com o preço", diz Armando Gabriel. "Mas a verdade é que um só espartilho exige muito tempo e dedicação. É uma peça de construção complicada e de trabalho minucioso. E é uma peça única, feita por medida, que pode voltar a ser usada e re-interpretada, causando sempre um efeito positivo em quem a veste".