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Carolina Herrera

"Eu controlo tudo. Gosto das coisas à minha maneira"

Faz moda para mulheres que querem ser elegantes, glamorosas, activas e modernas. Começou porque uma directora da Vogue a incentivou. Outra - a de agora - não quis comentar. "Not today, dear."

Começa por perguntar: "Já tem o meu livro, certo?" "Não? Faço questão de lho oferecer já." Num segundo, Carolina Herrera olhou para a sua mesa, agarrou no seu próprio exemplar e pediu: "Recorde-me o seu nome. Maria Antónia? Que nome bonito."

Nunca gostei de Maria Antónia, mas a verdade é que nunca tinha pensado no nome enquanto sonoridade. E soou bem, melodioso - o sotaque espanhol prega-nos estas partidas.

Elegância, charme e glamour são palavras incontornáveis quando falamos da criadora de moda Carolina Herrera e foi assim que ela recebeu o PÚBLICO - vestia uma camisa branca, saia preta cintada e rodada, sapatos stiletto negros, o cabelo estava, como habitualmente, louro - no 17.º andar de um edifício na 7.ª Avenida de Nova Iorque, no dia seguinte ao seu desfile na New York Fashion Week, onde deu a conhecer a colecção que criou para a Primavera de 2010.

A elegância também dominou o desfile, quer na passerelle quer na assistência. Na primeira fila estavam sentados críticos, editores e as mais importantes directoras de revistas de moda. Anne Wintor, a (ainda) poderosa e gélida editora da Vogue americana também lá esteve. O PÚBLICO não quis deixar de tentar a sua sorte com esta diva da moda que já teve direito a um filme ("O Diabo Veste Prada", com Meryl Streep, foi inspirado na sua difícil pessoa). Podemos obter o seu comentário à colecção de Carolina Herrera? Wintour mirou-nos de alto a baixo - na verdade começou nos sapatos, por isso foi de baixo para cima - e sentenciou: "Not today, dear" (hoje não, querida).

A música escolhida para o desfile foi suave e as modelos caminharam pela passerelle calmamente, permitindo a todos observarem ao pormenor as propostas, de inspiração. A grande novidade foram os fatos de casaco e calção curto. Depois vieram os vestidos longos estruturados, muito trabalho artesanal em tecidos nobres e a sensualidade que tanto atrai as actrizes de Hollywood como as mulheres mais ricas mas que gostam de uma elegante discrição.

Esta elegância sóbria faz parte da cultura de moda que a criadora foi absorvendo desde que entrou neste mundo. O primeiro desfile a que assistiu, conta, foi em Paris, a roupa era de Christobal Balenciaga e ela tinha 13 anos. As criações do espanhol não a influenciaram na decisão que, anos mais tarde, tomaria de se aventurar no mundo da moda. Na verdade, foi ao desfile por uma razão mais prosaica: "Fui com a minha avó para não ficar sozinha no hotel." Na época, revela, pensava mais em cavalos e jogos de ténis. A moda só surgiu na sua vida nos anos de 1980 porque considerou que era o momento de mudar. E alguns amigos, entre eles a icónica editora da Vogue americana, Diana Vreeland, incentivaram-na.

Carolina Herrera nasceu Maria Carolina Josefina Pacanins y Niño, filha de um casal descendente de uma família aristocrática venezuelana. Nasceu em Caracas no dia 8 de Janeiro de 1939. Os pais foram uma referência para ela, sublinha. O pai, um homem "muito bonito", foi sempre o seu modelo de beleza masculina. Da mãe - "uma mulher muito culta" - herdou a disciplina, que a ajuda até hoje a ter tempo para tudo, e também a curiosidade.

Portadora de sensibilidade e de charme inatos, Carolina Herrera entrou facilmente nos circuitos certos, da realeza aos artistas (fez parte do de Andy Warol, em Nova Iorque). A esta aptidão, juntou-se a habilidade para os negócios. E, em Abril de 1981, apresentou a primeira colecção de pronto-a-vestir no selecto espaço do Metropolitan Museum de Nova Iorque - a colecção foi muito bem recebida pela crítica e a nova criadora conquistou clientes importantes como a (à época) rainha dos cosméticos Estée Luader e Jacqueline Kennedy Onassis que, para além de vestir Carolina Herrera em inúmeras ocasiões, fez questão que fosse ela a fazer o vestido de casamento da sua filha Caroline. Alguns dos grandes armazéns americanos também compram as suas peças e, rapidamente, as roupas elegantes que criava, quer para o dia quer para a noite, tornaram-se desejadas no mundo da moda.

Mas foram os perfumes que contribuíram para divulgar o seu nome no mundo inteiro. Em 1988 a empresa espanhola de perfumaria Antonio Puig criou o famoso perfume feminino Carolina Herrera, ao qual se seguiu o Herrera for Men, inspirado nos dois homens mais importantes na vida da estilista, o marido Reinaldo Herrera e o pai Guillermo Pacanins. Em 1997, pela mão da filha Carolina Adriana Herrera, surgiu então o maior sucesso da marca, o 212, que, em menos de uma década, se tornou num sucesso de vendas - muito por obra da sua filha Carolina Adriana, que casou com um toureiro, vive em Espanha e é responsável pelos perfumes da marca.

A construção do império CH continuou com as colecções de acessórios (malas, sapatos, artigos de pele, lenços, óculos), das colecções para homem e, mais recentemente, para criança.

O que une tantas colecções - as mais sofisticadas e as da linha mais acessível, os perfumes, os produtos para criança? A filosofia mantém-se desde o primeiro dia: "Adoro a ideia de elegância e complexidade, tanto numa peça de roupa como num perfume, o complexo deve parecer simples." A frase, que poderia ter sido dita agora, foi proferida no ano passado quando Carolina Herrera recebeu o prémio carreira da CFDA (Council of Fashion Designers of America). Aliás, o discurso terminou com um grande agradecimento à mãe: "Comecei porque gostava de moda, mas não tinha ideia de onde podia chegar. Só posso dizer que tenho muita sorte por ter tido uma mãe que me incutiu disciplina e determinação."

Primeiro em Caracas e depois em Nova Iorque, Carolina Herrera explica que teve sempre uma vida muito intensa. "Tudo ajuda, mas a inspiração é algo que está dentro de nós. É sobre memória. Às vezes, a inspiração surge dos objectos mais simples. Por exemplo, para a colecção que ontem apresentei, a ideia partiu de imagens de cestos japoneses. Transportei deles a textura para tecidos, os estampados, os entrelaçados... foram alguns dos detalhes que ajudaram a definir a silhueta."

As suas silhuetas são sempre muito elegantes, muito sofisticadas. E as cores muito naturais.

Sim, mas desta vez introduzi um fato composto por casacos cintados e calções curtos, para fazer algo diferente. Para a noite, os vestidos são muito glamorosos. As cores são as do pôr do Sol. Os tons do céu quando o Sol começa a descer nos finais dos dias quentes de Verão: começa pelo rosa, caramelo e vai até ao âmbar. Cores tão bonitas, pelo menos no meu país - aliás, o Sol é bonito em todo o lado. Reflexos que se notam principalmente nos vestidos de noite.

Precisa do Sol para viver?

Absolutamente. Dá-nos energia e faz-nos parecer luminosos, faz-nos brilhar.

De seis em seis meses, há uma nova colecção para criar?

Não. De três em três, criamos quatro colecções por ano: Pré-Inverno, Inverno, Primavera e Resort - digamos que uma para cada estação do ano. E para além destas há ainda os vestidos de noiva, as colecções de acessórios... O processo de criação nunca pára, é um trabalho crescente.

Como tem tempo para criar tudo isto? Ainda se senta à secretária a desenhar?

Claro que sozinha não conseguia, tenho uma boa equipa que me ajuda. Sento-me à secretária principalmente para dirigir tudo. Sou eu que controlo tudo. Gosto das coisas à minha maneira. Faço questão de que tudo aconteça como imaginei. Por exemplo, a produção dos desfiles, como o que viu ontem, é toda feita por mim. Começo três dias antes a testar as luzes, as cores, as entradas, a sequência das roupas. Enfim, tudo. Porque quero, porque gosto e porque é o meu trabalho.

É uma mulher muito elegante e todo o seu trabalho também. Quando está criar as colecções, pensa no que gostaria de usar?

Nem sempre. Aliás, porque há milhões de mulheres no mundo que talvez não gostem daquilo que visto, tenho de ter um pensamento mais aberto, uma criação que abarque um leque maior, mas é claro que as nossas colecções se dirigem para um tipo de mulher.

Qual?

Aquelas que querem ser elegantes, glamorosas, activas e modernas.

Tem a ver com a idade?

A idade não interessa. Tenho muitas clientes muito jovens, o que é muito interessante.

Porque acha que elas a procuram, o que gostam em si?

Acho que o apelo da sensualidade, o facto de serem roupas muito femininas e complexas e ao mesmo tempo simples e intemporais, porque se podem usar sempre. Depois, não existe uma idade para usar um vestido. É a pessoa que o veste que faz com que ele pareça juvenil ou antiquado.

Como define elegância?

A elegância não se compra, não é o que se usa mas sim uma combinação de muitas coisas. É a maneira como se pensa, se age, como se movimenta, como se fala, a forma como arranja a sua casa, o gosto pela música, literatura. É uma combinação de muitas, muitas coisas. A elegância não tem a ver nem com dinheiro nem com beleza. Há mulheres lindíssimas que não são elegantes. Um bom exemplo é Elizabeth Taylor: uma mulher lindíssima! Elegante? Nunca! E também há as que têm muito dinheiro para gastar e que por mais que gastem nunca conseguirão ser elegantes.

Mas também há o contrário, não?

Sim, claro. Também há mulheres que gastam "dois tostões" na Zara ou na H&M e ficam com aquele ar de um milhão de dólares.

Já que mencionou a Zara e H&M, o que pensa do aparecimento destas cadeias de lojas?

Acho fantástico. As mulheres podem misturar tudo e é muito interessante o que se está a passar.

Mas muitas vezes são acusadas de copiar o design de criadores...

... não é muitas vezes, é sempre. Mas é muito lisonjeador ser copiado, porque é sinal de que se fez algo bom. Se fosse mau ninguém nos copiava. Copia-se aquilo de que se gosta.

Quem é, para si, a mulher mais elegante?

A mais elegante de todas, e acho que toda a gente sabe e concorda, foi Jackie Kennedy. Tinha uma elegância excepcional, natural. Sabia sempre o que devia vestir, o que lhe ficava bem. Falo muito da ideia de "the way she looked" com a minha equipa. E, por isso, é muito fácil encontrar nas minhas colecções o look Jackie.

Foram amigas, quer revelar-nos um pouco dessa amizade?

Fomos boas amigas, fui eu que a vesti em muitas situações da sua vida e ela era uma mulher muito especial. Lá está, não era só a sua imagem, era o que ela era interiormente, uma pessoa muito culta - adorava literatura, nomeadamente poesia. Era uma mulher muito especial.

Para além da moda, o que mais a apaixona?

Oh! Tanta coisa. Acima de tudo as minhas filhas. E depois sou uma pessoa curiosa por natureza. Aliás, para mim, a curiosidade é uma virtude. Gosto de investigar tudo: ópera, filmes, museus. Saber tudo sobre tudo.

E quanto a livros, quais são as suas preferências?

Tudo. Neste momento estou a ler os contos de Joanne O'Hara, uma americana que adoro. Tenho um livro que me fascina, li-o quando era muito jovem e já o reli mais três vezes, o "Orgulho e Preconceito" [Jane Austen]. Sou apaixonada pela ideia da história. É bonita, profunda e muito bem escrita.

Criou a sua primeira colecção apenas em 1981. O que a levou a interessar-se pelo design de moda?

Bom, decidi que era altura de fazer algo diferente na minha vida. Depois também porque sempre gostei de moda e tive muitos amigos a incentivarem-me a aventurar-me nesta área. Aconteceu e tive sorte porque a minha primeira colecção foi um sucesso. As mulheres e os representantes de lojas, como o Neiman Marcus ou o Sack's, que assistiram ao desfile gostaram da colecção e compraram. Comecei a vender desde o início e é isso que é importante. Foi uma divertida aventura que ainda não acabou. Alguns designers pensam que o mais importante é serem muito criativos e produzirem desfiles fantásticos. Mas não. Não podemos esquecer a realidade e porque para se ter sucesso as roupas têm de se vender, senão o melhor é ficar em casa porque não há negócio. Hoje em dia também há muito designers. Claro que uns vão, outros ficam, mas há cada vez mais talentos na moda.

Quais são os seus criadores favoritos?

Admiro Chanel porque revolucionou a maneira de vestir das mulheres; Yves Saint Laurent e Valentino pelas suas fantásticas criações e Galliano pela sua genialidade. No universo americano, acho o trabalho de Halston e Bill Blass muito bom.

Quando vai na rua sente-se inspirada pelas pessoas à sua volta?

Sim, mas não em Nova Iorque. Parece que saíram todos de uma fábrica, estão todos vestidos da mesma maneira. (risos)

Isso só acontece em Nova Iorque, uma cidade cheia de lojas e de marcas e de onde saem tantas tendências?

Sim, apenas em Nova Iorque. Na Europa não é assim. Quando se vê alguém vestido com umas calças de ganga e ténis, percebe-se logo que são americanos. Não se consegue nenhuma inspiração nas ruas de Nova Iorque a não ser que seja para desenhar uniformes. Antes era diferente, via-se pessoas muito elegantes, mas hoje em dia não. Também é verdade que se pode comprar o que de mais bonito se faz em moda, mas ninguém faz nenhum esforço. Andam todos vestidos de igual, toda a gente se assemelha. Só os jovens podem vestir o que quiserem que ficam sempre bem. Esses não têm problemas.

Falemos das tendências da moda?

Não gosto. Não trabalho a pensar nelas. Acho-as muito maçadoras porque fazem com que toda a gente use o mesmo. As revistas - de moda - insistem nelas de seis em seis meses. Não percebo como é que não vêem que estão a formatar as pessoas. Só ajudam a aumentar o problema que falava há pouco de as pessoas andarem todas iguais: fazem com que toda a gente use os mesmos óculos, as mesmas malas, os mesmos sapatos. Assim não há criatividade e para mim a moda tem de ter em conta a individualidade. Cada pessoa tem o seu estilo e projecta-o através da maneira como se vê e não porque é trend. As pessoas têm de usar a sua criatividade para escolher o que devem usar, o que lhes fica bem.

E as pessoas que vão aos desfiles?

Essas são das mais formatadas. Se não usam o modelo de óculos certo, a mala certa, se não têm o que pensam ser "tudo o que que está certo", acham que não fazem parte do meio. Pessoas que usam saltos altíssimos com os quais não conseguem andar e que parecem que vão cair a qualquer momento, mas está na moda e então acham que têm de usar. Não concordo com isto, para mim, a moda não é assim, mas a verdade é que as revistam insistem de mais nas tendências.

E como está crise mundial a afectar o negócio?

Eu ainda não precisei de tomar medidas, acho que temos de avançar. Agora, é claro que esta crise está a afectar qualquer negócio, mas a moda é dos últimos a ser afectado. Talvez tenha a ver com o instinto feminino - as mulheres precisam sempre de comprar algo, se não houver dinheiro para um vestido de seda, opta-se por um par de sapatos ou uma mala. Há mulheres que deixam de comer para poder comprar um par de sapatos. A moda é a última coisa de que se abdica. Também sinto que começamos a sair desta crise, consigo ver pequenos sinais de melhoria. Como gosto de andar pelas lojas, sinto isso até pela forma como as pessoas compram. Tenho fé nas medidas do Presidente Barack Obama. Tenho mesmo de ter, ele é tudo o que temos. Acho que ainda é cedo para avaliar, temos de lhe dar tempo.

Considera Barack e Michelle Obama um casal elegante?

Acho que ele é muito elegante: a maneira como fala, como se movimenta e a forma como se veste. Sim, ele tem uma elegância natural. Ela tem o seu próprio estilo e projecta-o da forma que quer. Acho que está bem.

Em Portugal, acabou de lançar o mais recente perfume masculino, o CH Men. Qual a importância que as fragrâncias têm para a marca?

Muita, aliás, desde 1996 que esta área é da responsabilidade da minha filha, Carolina Adriana, que vive em Espanha. Espero que o CH Men tenha tanto sucesso como está a ter o de mulher, que é fresco mas ao mesmo tempo muito feminino e requintado. E tem um frasco, como eu gosto de dizer, que assenta bem em cima de qualquer mesa, não é daqueles cheios de formas que parecem não ter posição.

Tem uma grande família. Como arranja tempo para conjugar o trabalho e a vida familiar?

Tenho quatro filhas, 12 netos e uma bisneta. Sou uma pessoa muito disciplinada e com disciplina consegue-se fazer tudo. Fui educada com muita disciplina e tanto eu como a minha irmã estamos muito gratas à nossa mãe por nos ter educado assim. Nunca me atraso porque odeio fazer as pessoas esperar e sempre consegui tempo para fazer tudo o que quero - por vezes nem sei como, mas consigo sempre. Mas também porque esta é uma característica muito feminina: as mulheres conseguem fazer muita coisa ao mesmo tempo, os homens não.

Texto originalmente publicado na Pública