John Galliano no final da apresentação da colecção Dior Primavera/Verão 2011, em Paris
John Galliano no final da apresentação da colecção Dior Primavera/Verão 2011, em Paris Benoit Tessier/REUTERS

Quem tem medo de John Galliano?

Os comentários anti-semitas de John Galliano levaram à queda de um ícone da criação de moda. A notícia correu mundo, Galliano foi despedido depois de 15 anos à frente de um dos gigantes do luxo que ajudou a ressuscitar. Agora vai ser julgado pela justiça francesa, depois de já ter sido condenado pela opinião pública.

Quem tem medo de John Galliano? A frase, um pastiche do teatral Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, foi cunhada pela então jornalista Catarina Portas e pelo produtor de moda Paulo Gomes em 1993, quando o designer britânico esteve para ser o convidado especial da ModaLisboa e gerou os protestos de uma série de criadores portugueses (Ana Salazar, Alves/ Gonçalves, Tenente, Nuno Gama), que temia ser ofuscada pela exuberância de Galliano. A edição da ModaLisboa ficou congelada, Portas e Gomes perguntaram-no nos jornais, a frase acabou estampada em t-shirts vendidas no Bairro Alto. Ele já era um ícone. Hoje, véspera do desfile da Casa Christian Dior no Museu Rodin, em Paris, Galliano estará ausente, despedido da histórica e rica casa de moda parisiense após duas acusações policiais por insultos raciais, pelos quais será julgado nos próximos meses, e um vídeo com declarações anti-semitas que afastaram até a vencedora do Óscar de Melhor Actriz, Natalie Portman, de origem israelita. Que simboliza ele hoje?

Na sexta-feira, 25 de Fevereiro, Galliano foi suspenso da Maison Dior após a queixa de um casal, que diz ter sido insultado pelo criador, embriagado, no bar La Perle, do icónico bairro parisiense do Marais. Geraldine Bloch, 35 anos, diz ter ouvido: "Sua cara suja de judia, devias estar morta." Philippe Virgitti, 41 anos e de origem asiática, diz que o criador o ameaçou: "Seu cabrão asiático, vou matar-te." A importância e a carreira do homem que salvou a Casa Dior do prejuízo, um milagre da alta-costura mundial, estava suspensa por uma polémica grave que faz lembrar os dislates de Mel Gibson, ou, mais recentemente, de Charlie Sheen. 

Mas na terça-feira seguinte, depois da divulgação de um vídeo (que será datado de 12 de Outubro e no qual as interlocutoras do criador se riem audivelmente) em que Galliano profere comentários antisemitas no mesmo bar, dizendo nomeadamente "Amo Hitler", a Dior despediu-o mesmo. "O carácter particularmente odioso do comportamento" do criador no vídeo, lê-se no comunicado da marca, levou Sydney Toledano, presidente da empresa, "a condenar com grande firmeza as suas declarações". 

A Casa tinha sido cautelosa desde o início, distanciando-se de Galliano assim que o alegado teor das suas declarações foi conhecido - ele negou inicialmente os factos, tendo o seu advogado Stéphane Zerbib enfatizado que o casal começou a discussão, gozando com o aspecto de Galliano. 

Depois, nova queixa. Uma francesa diz ter sido insultada no mesmo registo e no mesmo La Perle, também em Outubro. Não se queixou mais cedo por ter achado que o criador estava alcoolizado. Novamente, o advogado de Galliano questiona estas acusações e o seu timing.

Entretanto, Galliano, já representado pela firma de advogados que defendeu Kate Moss, quando foi acusada de consumo de drogas, pediu desculpas. "O anti-semitismo e o racismo não têm qualquer papel na nossa sociedade. Peço desculpas sem reservas pelo meu comportamento", disse num comunicado divulgado pelas agências noticiosas. Não sem acrescentar que foi "sujeito a uma perseguição verbal e a uma agressão não provocada": "Um indivíduo tentou agredir-me com uma cadeira depois de ter comentado violentamente o meu aspecto e a minha roupa." Agora promete internar-se numa clínica de reabilitação.