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O misterioso Saint Laurent

3. Yves e as mulheres

Revolucionário? Não é o que dizem as biografias.

"Ele não foi mais que um costureiro. Não conduziu uma revolução, não é o autor de nenhuma obra-prima. Contudo, reinou sobre o seu tempo. As imagens das suas criações assombram a moda dos nossos dias." (Mauvais Garçon) "Yves não transformou a sociedade nem revolucionou os costumes, esse não é o papel de um costureiro; ele vestiu a mudança, o que é admirável." (Beautiful People, da jornalista americana Alicia Drake) "É muitas vezes em momentos de ruptura, de transição entre duas décadas, que ele dá o melhor de si mesmo. (...) Ele renova a moda mas usando uma linguagem clássica. Não é um vanguardista."(Yves Saint Laurent, de Laurence Benaïm) Nem conservador, nem revolucionário: Saint Laurent situa-se no meio. Outros, como Courrèges e Cardin, podem ser pioneiros, experimentais, futuristas. Ele, Yves, deita mão às inovações exageradas dos outros e torna-as aceitáveis. Loulou de La Falaise: "Yves tinha um talento fabuloso para pegar em tudo o que se passava à sua volta e de o tornar mais belo, mais forte, mais interessante".

Um telescópio da sociedade do seu tempo, capaz de detectar à distância e antecipadamente os sinais de mudança. Saint Laurent não introduziu as calças na moda feminina. O seu contributo foi dar-lhe um papel central no guarda-roupa de uma mulher moderna. Com ele, a calça pode ser usada todos os dias, em qualquer momento. Um emancipador feminino, certamente, mas, como o próprio notou, "a liberdade e a igualdade não se compram com um par de calças, é um estado de espírito".

Mas talvez esse estado de espírito venha com as roupas Yves Saint Laurent, como uma segunda pele. Maxime de La Falaise, mãe de Loulou: "Quando usamos umas calças Saint Laurent, não nos sentamos da mesma maneira, não acendemos o cigarro como habitualmente: fazemo-lo com gestos seguros, com a autoconfiança que têm os homens." Na exposição há um pequeno filme em que uma jornalista pergunta a Yves: "Acha que as calças são uma peça feminina?" Resposta dele: "Absolutamente."

Pierre Bergé, na conferência de imprensa: "Yves Saint Laurent disse que a moda seria bastante triste se só servisse para vestir mulheres ricas. Uma frase sobre a qual vos convido a meditar... É certo que ele vestiu mulheres ricas, mas a mulher Saint Laurent é uma mulher activa, uma mulher que trabalha, uma mulher que conduz o seu carro, uma mulher que toma o seu destino nas mãos. Yves Saint Laurent ajudou por vezes as mulheres a tomarem o seu destino nas mãos."

A convicção de que Saint Laurent amava as mulheres, que dedicou toda a sua vida às mulheres, como diz Bergé, tornou-se um lugar-comum.

Victoire, a única mulher com quem o homossexual Saint Laurent desejou casar, primeira musa inspiradora, e primeira top model da história da moda, tem uma opinião diferente: "Diz-se que ele amava as mulheres. Não, ele não as amava. Ele usava-as".