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O misterioso Saint Laurent

Dois anos depois da sua morte, Paris dedica-lhe uma grande retrospectiva e a febre editorial é notória (biografias, novos livros, reedições), mas será que sabemos mais sobre um dos maiores costureiros de sempre? À entrada da exposição, Yves Saint Laurent tapa o rosto com a mão...

Procura-se: vivo ou morto

Yves Saint Laurent morreu várias vezes entre Outubro de 1976 e Março de 1977. Ele tinha tudo - fama, adulação, dinheiro, um império com o seu nome reconhecido como o mais importante contributo para a moda do seu tempo -, embora, ultimamente, também tivesse tido algumas perdas, em particular o fim da sua relação conjugal de 18 anos com Pierre Bergé, e a ruptura forçada com o jovem amante, Jacques de Bascher de Beaumarchais, um dandy 14 anos mais novo que lhe lembra uma personagem de Proust, escritor preferido.

A partir de 1976, refugiado no álcool e na droga, Yves irá subtrair-se aos olhares públicos. "Monsieur Saint Laurent não se sente bem", é a resposta lacónica e habitual na sua casa de costura.

De Paris a Nova Iorque, os rumores propagam-se, sobem de tom como uma panela a levantar fervura. Saint Laurent caiu num estado depressivo do qual não sairá mais. Saint Laurent está a morrer. "Lembro-me que todas dizíamos: 'Ó meu Deus, o que vou usar se Yves morrer?'", dirá, anos mais tarde, a americana Joan Juliet Buck, directora da Vogue francesa entre 1994 e 2001.

Jornalistas alemães são enviados a Paris.

Pierre Bergé, o eterno administrador da Casa Yves Saint Laurent, recebe-os, abrindo a porta do estúdio para gritar: "Yves, mexe os braços para provar que não estás morto." Em 1977, os rumores sobre a sua morte são tão verosímeis que uma jornalista particularmente obstinada infiltra-se na Avenue Marceau, onde se situa a casa de costura, e monta guarda, recusando sair até ver Yves Saint Laurent (morto ou vivo, supõe-se). Pierre Bergé expulsa-a.

As notícias sobre a sua morte enfurecem-no - não por acaso, 1977 é o ano em que dá mais entrevistas. A Elle e o Observer publicam o mesmo título: "Yves lives!" ("Yves vive!") "A minha morte deixou-me indiferente", disse depois Yves, sorrindo à sua maneira - como uma aranha. "O que foi desagradável foi todas as pessoas, mesmo amigas, que abriam a porta do estúdio para ver se eu estava vivo." Em 1976, passa três semanas no hospital americano de Neuilly, na companhia de uma das suas maiores amigas e musas, Betty Catroux.

Betty não está lá para o entreter, mas "pelas mesmas razões: overdose de cocaína e álcool".

E, no entanto, ela resume esse internamento hospitalar como "uma temporada de sonho!" "Éramos pequenas crianças mimadas." O estado de Yves Saint Laurent põe em perigo as suas colecções. No final do desfile de pronto-a-vestir em Outubro de 1976, Yves aparece na passerelle, pálido e frágil, apoiado nas modelos, o que impressiona o público. Há um médico nos bastidores e um carro à espera, à saída, para o reconduzir ao hospital americano.

Durante esse período, cada desfile é apresentado como o último suspiro. Mas Yves reaparecia sempre, como alguém que renasce das cinzas. "Todas as vezes, mas mesmo todas as vezes, nós perguntávamo-nos: 'Será que vai conseguir?' Sabíamos que era difícil. 'Chegará a fazer a colecção? Não! Ele não está bem.' Nós, os seus próximos, assistíamos a tudo - os rumores, os murmúrios, as dificuldades. E, de todas as vezes, subitamente PUM, PUM, PUM, e tudo recomeçava, até ao infinito. Ele tinha uma grande facilidade em produzir colecções magníficas e espectaculares", contou o decorador e amigo Jacques Grange.

Estes são os anos em que Yves perde a cabeça, mas são também os anos em que produz as suas criações mais admiráveis, mais luxuriantes, mais líricas, segundo as crónicas.

Apresentada em Julho de 1976, a sua colecção "Opéra-Ballets Russes" surpreende pela exuberância de cores, a profusão ornamental, a opulência das texturas, um luxo fabuloso. No Times londrino, Suzy Menkes cita o desfile como um dos mais brilhantes a que já assistiu.

"De todas as minhas colecções, não é a mais conseguida, mas é a mais bela", resumirá Saint Laurent. "Foi um espectáculo profundamente egocêntrico! Mergulhei no meu passado, fazendo referência a todos os meus pintores e óperas preferidos." Delacroix, Georges de La Tour, a Rapariga do Brinco de Pérola de Vermeer, Visconti, Madame Bovary, Maria Callas. Pela primeira vez, um desfile de moda é acompanhado por música de ópera. O que está longe de ser o único pioneirismo desse acontecimento: é a primeira vez que um desfile é apresentado fora de uma casa de costura (no salão imperial do Hotel Intercontinental), é a primeira vez que se monta um pódio para as modelos desfilarem, é a primeira vez que há um maquilhador porque, até aí, as manequins pintavam-se e penteavam-se elas próprias...

É a primeira vez que o New York Times dedica a sua manchete a um desfile: "Yves Saint Laurent apresentou uma colecção de Outono que mudará o curso da moda".

Sobre alguns rostos correm lágrimas. "É um dos grandes talentos de Yves, fazer chorar as pessoas. E isso já não tem nada a ver com a moda", explicará Loulou de La Falaise, outra musa, amiga e colaboradora de Saint Laurent durante 30 anos. "É como quando escutamos uma peça de música ou estamos frente a um quadro. Já chorei em museus. Quando estamos na presença da perfeição absoluta, quando essa nota ressoa, qualquer pessoa sensível comove-se até às lágrimas."

2. Um bulldog na conferência de imprensa

Paris, segunda-feira, 8 de Março de 2010. Descendo os Campos Elísios, à direita fica o Petit Palais, o museu de Belas Artes que acolheu no ano passado uma grande retrospectiva do trabalho de Yves Saint Laurent, intitulada Uma Modernidade Intemporal.

Saint Laurent entrou no museu ainda em vida, muito cedo - tinha 47 anos. Em 1983, o Instituto da Moda do Metropolitan Museum, em Nova Iorque, dedica-lhe uma retrospectiva, a primeira, 25 Years of Design. "Hoje são 40 anos e 40 anos é imenso", diz Pierre Bergé, perfil de senador romano, na conferência de imprensa sobre a exposição no Petit Palais. "Fizemos exposições em todo o lado: Pequim, São Petersburgo, Moscovo, Sydney, Paris - mas só em 1986, no Museu das Artes Decorativas -, Brasil, Montreal, São Francisco, Tóquio. Esqueço-me de vários lugares... Mas o que quero dizer é que esta é a maior exposição de Saint Laurent que já fizemos. Tentámos mostrar que Yves Saint Laurent era capaz de tudo." Pierre Bergé é mais do que o ex-companheiro de Saint Laurent. É a ele que os outros quatro interlocutores da conferência de imprensa se dirigem repetidamente, com reverência, multiplicando-se em agradecimentos ("Obrigada, Pierre. Muito obrigada por oferecer à cidade esta magnífica obra de Yves Saint Laurent. Eu devia ter começado por aí...", diz Anne Hidalgo, adjunta do presidente da Câmara de Paris).

Bergé foi e continua a ser o autor, actor e encenador da lenda Yves Saint Laurent.

Se o costureiro está hoje no Petit Palais é graças a ele, às suas boas relações com o establishment político francês (na conferência de imprensa Bergé declara-se amigo do socialista Bertrand Delanoë, presidente da Câmara de Paris, que, segundo ele, terá proposto a exposição), e faz parte de uma estratégia iniciada na década de 1980 (a retrospectiva no Metropolitan em 83 é uma ideia dele), numa tentativa de consagrar Saint Laurent como artista.

Estratégia vencedora, como se comprova hoje: na conferência de imprensa, é rara a referência a Saint Laurent como "costureiro". Anne Hidalgo dá o tiro de partida, falando de "um artista enorme que marcou o seu tempo e deixou marcas para além do seu tempo".

Gilles Chazal, director do Petit Palais, descreve-o como "um mestre que disse que a moda não é uma arte, mas precisa de artistas" , acrescentando: "Diria que esta exposição presta homenagem a um grande artista, como já fizemos noutras ocasiões com Goya e as suas gravuras, ou com Rembrandt e as suas estampas".

O auditório do Petit Palais onde decorre a conferência de imprensa está lotado de jornalistas, uma centena ou centena e meia. Um homem de 30 anos, fato de bom corte sugestivamente mundano, entra segurando um bulldog pela trela, que se irá deitar na segunda fila. Um cão com pedigree numa conferência de imprensa - quão parisiense. É o bulldog de Saint Laurent, um dos seus inesgotáveis Moujik. Sempre que um morria, ele baptizava o seguinte com o mesmo nome: Moujik II, III...

Pierre Bergé toma a palavra e imediatamente começa a falar no plural. Lembra que fundou a casa de costura juntamente com Yves Saint Laurent. Já disse, em entrevistas, que Yves Saint Laurent o conheceu "no mesmo dia em que encontrou a glória". A imagem pública que predomina sobre ele é a de um lobo-mau - de facto, Bergé tem o rosto severo de quem aniquila o outro à menor picada -, um homem que controlou Saint Laurent ao ponto de o tornar dependente.

Numa biografia não-autorizada (não autorizada por Bergé, entenda-se) publicada em Fevereiro, Saint Laurent: Mauvais Garçon, a autora, Marie-Dominique Lelièvre classifica a relação entre os dois de "sado-masoquista".

Ela explica no livro que Pierre Bergé recusou falar e pediu o mesmo silêncio aos amigos de Saint Laurent. É verdade que, por vezes, o tom com que se refere a Bergé denota um desejo de vingança. E, desde a sua publicação, Bergé tem criticado a biografia, classificando-a de irrelevante, oportunista e cheia de imprecisões.

Ele e Lelièvre parecem dois oponentes que convocam um duelo mas guardam distâncias demasiado grandes para atingir fatalmente o outro. Na biografia, ela nota que ele conseguiu alterar o nome da Fundação Yves Saint Laurent-Pierre Bergé de modo a que o seu nome passasse à frente. E sobre a placa identificativa do quadro de Goya que Yves tencionava (como verbalizou) oferecer ao Louvre só consta o nome do seu companheiro: "Doação de M. Pierre Bergé". Lelièvre também cita uma entrevista que Bergé deu em Fevereiro de 2009 à revista Challenges: "Desde que montámos a nossa casa de costura, eu controlei tudo. Quero controlar tudo até ao fim." "Diz-se que Chanel libertou as mulheres, o que é verdade, mas, depois dela, podemos dizer que Saint Laurent deu poder às mulheres", diz Pierre Bergé no Petit Palais. "O primeiro modelo que vos acolherá à entrada [da exposição] é um gabão [casaco usado por marinheiros] sobre calça. É para vos mostrar que, desde a abertura da sua casa de costura, Yves Saint Laurent quis logo situar-se na contemporaneidade, isto é, no meio das mulheres do seu tempo." Bergé repetirá esta separação pausada, percutante, das sílabas, o que lhe confere uma tónica professoral. A retórica é engrandecedora, heróica, como se à força de repetir grandes palavras se conseguisse gravar o nome de Saint Laurent para a eternidade. "O facto de esta conferência ter lugar hoje, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, tem para mim um significado especial", diz Anne Hidalgo. "A feminista que sou dirá que YSL transformou verdadeiramente os géneros. Revolucionou o lugar das mulheres."

3. Yves e as mulheres

Revolucionário? Não é o que dizem as biografias.

"Ele não foi mais que um costureiro. Não conduziu uma revolução, não é o autor de nenhuma obra-prima. Contudo, reinou sobre o seu tempo. As imagens das suas criações assombram a moda dos nossos dias." (Mauvais Garçon) "Yves não transformou a sociedade nem revolucionou os costumes, esse não é o papel de um costureiro; ele vestiu a mudança, o que é admirável." (Beautiful People, da jornalista americana Alicia Drake) "É muitas vezes em momentos de ruptura, de transição entre duas décadas, que ele dá o melhor de si mesmo. (...) Ele renova a moda mas usando uma linguagem clássica. Não é um vanguardista."(Yves Saint Laurent, de Laurence Benaïm) Nem conservador, nem revolucionário: Saint Laurent situa-se no meio. Outros, como Courrèges e Cardin, podem ser pioneiros, experimentais, futuristas. Ele, Yves, deita mão às inovações exageradas dos outros e torna-as aceitáveis. Loulou de La Falaise: "Yves tinha um talento fabuloso para pegar em tudo o que se passava à sua volta e de o tornar mais belo, mais forte, mais interessante".

Um telescópio da sociedade do seu tempo, capaz de detectar à distância e antecipadamente os sinais de mudança. Saint Laurent não introduziu as calças na moda feminina. O seu contributo foi dar-lhe um papel central no guarda-roupa de uma mulher moderna. Com ele, a calça pode ser usada todos os dias, em qualquer momento. Um emancipador feminino, certamente, mas, como o próprio notou, "a liberdade e a igualdade não se compram com um par de calças, é um estado de espírito".

Mas talvez esse estado de espírito venha com as roupas Yves Saint Laurent, como uma segunda pele. Maxime de La Falaise, mãe de Loulou: "Quando usamos umas calças Saint Laurent, não nos sentamos da mesma maneira, não acendemos o cigarro como habitualmente: fazemo-lo com gestos seguros, com a autoconfiança que têm os homens." Na exposição há um pequeno filme em que uma jornalista pergunta a Yves: "Acha que as calças são uma peça feminina?" Resposta dele: "Absolutamente."

Pierre Bergé, na conferência de imprensa: "Yves Saint Laurent disse que a moda seria bastante triste se só servisse para vestir mulheres ricas. Uma frase sobre a qual vos convido a meditar... É certo que ele vestiu mulheres ricas, mas a mulher Saint Laurent é uma mulher activa, uma mulher que trabalha, uma mulher que conduz o seu carro, uma mulher que toma o seu destino nas mãos. Yves Saint Laurent ajudou por vezes as mulheres a tomarem o seu destino nas mãos."

A convicção de que Saint Laurent amava as mulheres, que dedicou toda a sua vida às mulheres, como diz Bergé, tornou-se um lugar-comum.

Victoire, a única mulher com quem o homossexual Saint Laurent desejou casar, primeira musa inspiradora, e primeira top model da história da moda, tem uma opinião diferente: "Diz-se que ele amava as mulheres. Não, ele não as amava. Ele usava-as".

A exposição no Petit Palais abre com um retrato de Yves a preto e branco, fotografado por Irving Penn em 1983. Com uma mão, Saint Laurent cobre o rosto, deixando apenas um olho de fora - e nem mesmo esse foi deixado à vista para ser contemplado; é um olho voyeur, uma flecha na direcção do mundo, uma torre de observação. É um retrato que capta o mistério Saint Laurent, a sua natureza insondável, uma espécie de advertência aos visitantes que entram na exposição: uma grande retrospectiva, sim, mas não esperem ver senão uma pequena parte de Saint Laurent.

Antes de o seu nome se tornar uma sigla sinuosa, Saint Laurent entra na Casa Dior. Tem 18 anos e a aparência de um rapaz de coro. Menos de um mês depois, o desfile de Christian Dior tem um vestido assinado por ele. Primeiro golpe de mestre: Richard Avedon fotografa-o para a Harper's Bazaar. É uma fotografia célebre: "Dovima with elephants". Aos 21, com a morte de Dior, Saint Laurent assume a criação artística da casa. Aos 25 abre a sua própria maison de couture. Os eventos sucedem-se tão rapidamente e tão cedo que é como se Saint Laurent se limitasse a cumprir o papel que lhe foi predestinado.

Como um actor com um guião

Fernando Sanchez, que conhece Saint Laurent desde o curso na Câmara Sindical da Costura, tem outra tese: "Ambição, ambição, ambição, desde o primeiro dia", dirá em 2000.

Em 1961, quando Saint Laurent abre o seu próprio salão de costura, o Corriere della Sera envia Dino Buzzati para entrevistá-lo. "Eu tinha curiosidade em ver de perto o fenómeno, que já estava envolto numa aura lendária", contou o escritor italiano. Um tímido diante de outro tímido - podem imaginar o resultado. "Com as suas mãos frágeis e uma elegância rara", escreveu Buzzati, "ele brincava com um pisa-papéis em forma de mão".

É esse o mesmo homem que, em 1971, entra no estúdio do fotógrafo Jeanloup Sieff e diz: "Quero chocar." Yves posa nu para a campanha publicitária do seu primeiro perfume para homem, YSL. Sentado sobre três almofadas de sofá em pele preta, tem as pernas cruzadas, os músculos definidos, o torso de um adolescente.

Está completamente despido, à excepção dos óculos. Barba aparada, cabelos compridos, um halo de luz atrás das costas - um golpe de teatro crístico. Nunca uma celebridade tinha posado nua para uma publicidade. Uma hora de trabalho, o suficiente para preparar um escândalo.

Jornais e revistas recusam publicar o anúncio. Que aparece na Vogue a 1 de Novembro e suscita uma avalanche de telefonemas na semana seguinte. O eco mediático do caso traz uma considerável publicidade gratuita ao perfume.

Pela primeira vez, no Petit Palais, são mostradas as 15 fotografias feitas nessa sessão. A exposição encadeia um escândalo atrás do outro: a seguir, noutra sala, exibe-se a colecção "1940", que, com as suas transparências, os seus turbantes em veludo, os seus saltos altos após duas gerações consecutivas de solas baixas, os seus lábios sobrecarregados de batôn vermelho, gera a hostilidade geral em 1971. Depois de praticar uma silhueta unissexo em corpos andróginos, Saint Laurent inaugura o regresso da volúpia e do glamour numa colecção retro - o revivalismo é, então, uma novidade na alta costura. "O espectáculo mais horrível", "Os anos tristes", reagem os jornais à época. São esses recortes de jornal que surgem agora ampliados nas paredes da sala no Petit Palais dedicada à colecção "1940".

Pierre Bergé marcha pela exposição como um general, obrigando a barreira de flashes a recuar. Está rodeado de mulheres, amigas, cúmplices. Uma jornalista fotografa duas delas com o iPhone, insistentemente, mas também discretamente, como se não se quisesse denunciar.

Betty Catroux e Loulou de La Falaise são hoje duas avós rock 'n' roll: os anos podem ter passado, mas elas não passaram a vestir em função da idade. Em todo o caso, nunca se vestiram em função das convenções sociais, e foi também por isso que Saint Laurent as quis reter, para melhor absorver o que elas tinham para lhe ensinar. Qualquer biografia saintlaurentiana reserva espaço para elas. Impulsionaram o génio criador de Saint Laurent numa determinada direcção, ajudaram-no a captar o presente, sempre em fuga. Mais do que musas, co-criadoras? Loulou de La Falaise, magra e angulosa como na juventude, sangue aristocrático nas veias boémias, dispensa um minuto e meio à Pública. A sua réplica é correcta, humilde: "Penso que na vida de um artista, a inspiração vem um pouco de todo o lado. Nós habitámos ou realizámos uma parte dessa inspiração. Mas creio que mesmo sem nós ele teria feito o seu melhor trabalho."

Numa câmara escura dentro da exposição, o pathos da voz de Callas alterna com um questionário Proust a que Saint Laurent respondeu num programa televisivo em 1968.

O cúmulo da infelicidade? -A solidão.

-A felicidade suprema? -Dormir com as pessoas que amo.

-Como gostaria de morrer? -Bruscamente.

4. O cair do pano

A morte de Yves Saint Laurent, em Junho de 2008, é, na verdade, um apagamento quieto no final de um lento e prematuro declínio. Os rumores sobre o seu desaparecimento, iniciados na segunda metade dos anos 70, ressurgem ao longo da década seguinte. Quando a sida faz tombar os primeiros corpos, uns atrás dos outros como um dominó, a mais pequena ausência torna-se suspeita, e Saint Laurent é um recluso. Nos jantares parisienses pergunta-se: "Estará doente?". O que obriga Pierre Bergé a vir desmentir publicamente.

Não, Yves não está moribundo - mas estará vivo? "Quando ele nasceu, inúmeros anjos vieram pousar sobre o seu berço. Faltou um: o da arte de viver. Yves é incapaz de gozar o dia, de tirar partido da vida", diz Fernando Sanchez.

Marguerite Duras dirá, em 1987: "Quando vejo Yves Saint Laurent em fotografias ou na televisão, a falar com celebridades, digo para mim: 'Vejam só. Acordaram-no outra vez.'" Os rumores sobre a sua morte reforçam a aura crística que já o envolvia: o mártir com a coroa de espinhos da costura, sofrendo para salvar a moda e as mulheres que sabem vestir.

Desde 1968 que Saint Laurent proclama que o seu único desejo é abandonar a moda. Mas continua a sofrer em nome do seu salão, dos seus funcionários. "Desde os 20 anos sinto-me investido de uma responsabilidade que me esmaga: o meu fracasso condenaria muitas pessoas ao desemprego.

Não tive tempo de ser jovem. Isto é, insaciável." Comentando essa recorrente afirmação de Yves, o seu rival Karl Lagerfeld disse: "É absurdo quando ele diz que não teve juventude.

Conheci-o quando era jovem, mas ele só tinha um desejo nessa altura... ser rico e célebre." Na década de 80, enchem-no de honrarias, prémios, homenagens. "Não se percebe. Ele tem tudo, é reconhecido em vida, e sofre como se fosse um artista maldito!", dizem as más línguas.

Em 1991 declara à Elle que por vezes sente vontade de pegar no maior bronze da sua colecção pessoal de arte, de o atar nos pés, e de se atirar ao Sena.

No Outono de 1995, a revista do Sunday Times envia o escritor americano Edmund White ao estúdio do criador em Paris.

"Saint Laurent parecia o Pensador de Rodin, com mais quilos, mais anos e mais preocupações. Estava lúcido e lembrava-se sem problema de nomes e datas, mas parecia estar sob o efeito de poderosos tranquilizantes ou totalmente depressivo. A conversa foi pontuada por enormes silêncios. Era como uma sessão de psicanálise em que o paciente tivesse tomado lítio e o psicanalista ácidos." A cabeça de Saint Laurent cai frequentemente sobre o peito. O escritor julgao fatigado, mas não, o costureiro retoma o curso da conversa.

A 7 de Janeiro de 2002, anuncia a sua despedida numa conferência de imprensa - "decidi hoje dizer adeus a este métier que tanto amei" - e a 22 de Janeiro é apresentado um grande desfile retrospectivo no Centro Pompidou, perante dois mil convidados. Carla Bruni, Laetitia Casta, Naomi Campbell, Claudia Schiffer desfilam. E o smoking, a túnica-safari, o vestido de noiva em casulo de lã, o vestido Mondrian, as citações de Apollinaire nas costas de uma jaqueta, as transparências, o mini-casaco em pele de raposa verde, as inspirações africanas, os golpes teatrais.

Yves julgou sempre que era a moda que o aprisionava à angústia, mas quando se retira dá-se conta de que faz parte da sua natureza.

"Sou o último grande costureiro. A alta costura acaba comigo", declara. O seu funeral, a 5 de Junho de 2008, é uma cerimónia a que só podem assistir convidados. Nicolas Sarkozy e Carla Bruni, o presidente da Câmara de Paris, ministros, patrões do luxo, grandes costureiros e estilistas, a ex-imperatriz do Irão Farah Diba. "O enterro desse homem não é o seu. Ele morre solitário, totalmente desconhecido", diz o criador Serge Lutens.

Questionário Proust, 1968:

-A felicidade suprema? -Dormir com as pessoas que amo.

-Cor preferida? -O preto.

-O que gostaria de ter sido? -Um beatnik.

Texto originalmente publicado na Pública