O talentoso sr. Ford
Numa década, trouxe o sexy de volta à Gucci e Yves Saint Laurent. Depois, fez roupa de homem, publicidade provocadora e realizou um filme de prestígio. Na era Facebook, voltou à roupa feminina fugindo à Internet e fará uma comédia.
Há toda uma geração que não conhece o valor da espera. Os nativos da Internet, e mesmo os trintões que os precedem, já só sabem viver sem surpresas - a não ser que uma flashmob os atinja na cabeça. E mesmo elas já perderam a sua espuma, banalizadas e anunciadas pela comunicação social mais corriqueira. Tom Ford está farto disso. No fundo, o senhor criador de moda que ressuscitou a Gucci nos anos 1990 e que depois foi fazer filmes decidiu voltar aos básicos. E fazer uma coisinha simples, um desfilezito só para cem dos seus mais íntimos amigos, e não convidar a (generalidade da) imprensa. Durante três meses, conseguiu o que queria: segredo e expectativa. E, sobretudo, ausência de imagem.
Como é que a indústria da imagem aguentou esta afronta? Com leveza, claro. Afinal, ele convidou a imprensa - as editoras das principais revistas de moda internacionais, algumas jornalistas veteranas e respeitadas da imprensa generalista, e muitas mulheres-inspiração para desfilar. Todas viram as estrelas desfilar com a nova colecção feminina de Primavera/Verão 2011 de Tom Ford, que não desenhava uma linha assim, de mulher, há seis anos.
E depois, em Dezembro, começaram a pingar as preciosas gotas de néctar publicitário para o talentoso sr. Ford: várias páginas de Vogue americana com elogios rasgados da implacável editora da revista (sim, o diabo que veste Prada), que critica a actual forma de pôr a moda nas passerelles como "um exercício de branding banal"; mais um exclusivo para a Harper's Bazaar britânica; mais uma capa da Vogue sul-coreana... e os sites, fervorosos, a publicar o recémdivulgado vídeo da colecção.
Ora viremos a objectiva para o microcosmos da moda e pensemos na grande angular que sobre ela (também) se abateu na última década: seis meses antes de chegarem às lojas, as colecções são apresentadas em desfiles ou eventos com centenas de jornalistas e bloguistas a assistir e que se desdobram em fotos, comentários e (pouca) crítica sólida sobre o que viram e o que, teoricamente, se irá usar na estação seguinte. Fotos por todo o lado, divulgação, cópia, bocejos. Junte-se a isto a triunfal ocupação pela moda de rua e seus cronistas (com Scott Schuman, do blogue The Sartorialist, e Garance Doré no púlpito mais elevado), do trono da realeza da moda que sempre devia ter sido seu e obtemos uma amálgama de informação e produção de moda mais ou menos amadora de que, postula o Papa Ford, ninguém sai vencedor.
"Não percebo a necessidade que todos têm de ver tudo online no dia a seguir ao desfile", disse à Vogue americana em Dezembro. "Penso que isso não serve o cliente, que é todo o objectivo do meu negócio - e não servir os jornalistas e o sistema da moda. Lançar alguma coisa que vai estar nas lojas daí a seis meses e vê-la numa starlet, classificada na US Weekly [uma revista cor-de-rosa] na semana seguinte? A minha cliente não quer usar a mesma coisa que viu numa starlet!"
Evento anti-H&M
O evento em si é daqueles que fazem salivar a imprensa e os blogues, tão habituados hoje a um acesso quase total aos básicos deste sector - o desfile, a festa, o contacto com algumas das estrelas que os rodeiam, a possibilidade de registar tudo em vídeo e imagem saída do bolso via telemóvel. Mas este foi diferente, como que a sacudir os rumores de que Tom Ford faria uma linha com a H&M e a mostrar que ele, aos 49 anos, é um senhor e um senhor que convida cem pessoas para qualquer coisa na sua loja de roupa de homem na Madison Avenue (sim, a que põe o Mad em Mad Men) que se revela ser um desfile com Lauren Hutton, Beyoncé, Marisa Berenson, todo um best-of de supermodelos e a sua eterna amiga Julianne Moore na passerelle. Nem elas, conta a actriz de Um Homem Singular (2009), sabiam ao que iam. Terry Richardson, o fotógrafo polemista, estava ao serviço e o resto foi uma festa da qual só sobrevivem algumas imagens online - tiradas com o telemóvel da jornalista do New York Times, por exemplo, o vídeo libertado há algumas semanas e as páginas irreproduzíveis do site de Ford - e os exclusivos das revistas. As máquinas fotográficas e as câmaras não eram permitidas na loja - ou devíamos dizer na festa?
"Se eu pudesse ter as minhas roupas nas lojas passado um mês [do desfile de apresentação], tê-las-ia imediatamente na Internet, mas como não posso tê-las na loja durante cinco meses, por que é que iriam para a Internet?", questiona-se Ford no Independent. "Por que é que eu ajudaria a H&M a perceber que o leopardo é a aposta certa para esta estação?", alfineta.
O homem que na era do grunge e do minimalismo pós-80s pôs Madonna ou Gwyneth Paltrow de calças e tornou a androginia sexy quer minar com um sistema que ajudou a montar: o dos visuais icónicos nas passadeiras vermelhas pré-prémios, o dos vestidos objecto de desejo, o do ciclo mediático que já não passa sem a incompreensível pergunta: "Quem é que tem vestido?" Agora, o designer propala a ideia de roupa para as tais "mulheres verdadeiras", dos clássicos intemporais ("a moda não tem de mudar a cada cinco minutos") e acha que a mulher Gucci que criou entre 1994 e 2004 "é demasiado trendy". De permeio ainda tratou das colecções de pronto-a-vestir da Yves Saint Laurent desde 1999 e entrou num ritmo que lhe deu muitos prémios mas também um cansaço em relação ao sector - 15 colecções masculinas e femininas por ano para as duas etiquetas, perfumes, óculos, anúncios sensuais e chocantes e uma revalorização das marcas no grupo de luxo Pinault-Printemps-Redoute ao nível dos milhares de milhões de euros.
Sobreexposição
O que está hoje a fazer, na verdade, é um bem sucedido golpe publicitário com um cheirinho a exclusividade e luxo que evoca os seus tempos áureos, aqueles em que sexualizava tudo e imaginava produtos superfluamente essenciais para um certo estilo de vida - como um papel de parede Gucci. A colecção está à venda apenas num punhado das suas lojas e anunciou já, por exemplo, que só vai oferecer um vestido a uma das nomeadas para os Óscares de Fevereiro. E, no futuro, não vai apresentar as colecções a qualquer pessoa - só editores reconhecidos, nada de jornais e muito menos blogues. "Há uma sobreexposição", desabafou ao Women's Wear Daily, o jornal de referência profissional no sector da moda.
Capa da revista Out de Janeiro (2011) com o seu companheiro de 24 anos, Richard Buckley, o sr. Ford ganhou novo alento em 2009. Realizou e co-escreveu o muito bem recebido Um Homem Singular, Colin Firth foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor pelo seu papel de um homossexual viúvo e Ford estava presente em tudo no seu filme - do casting à montagem e financiamento. "Foi o meu filme de homo-angst", disse, considerando que o filme é o "maior dos projectos de design. Há uma permanência no cinema que falta à moda".
Também já tinha feito James Bond, vestindo Daniel Craig em Quantum of Solace (2008), e já era adorado pela tribo da moda e por Hollywood (na capa da Vanity Fair posava com as estrelas que vestia, com Keira Knightley e Scarlett Johansson nuas a seu lado). Com Um Homem Singular, ficou caucionado e passou a integrar outro tipo de elite criativa. Agora, como deixou escapar Colin Firth há semanas e como Ford confirmou à Vogue norte-americana, Ford está a tratar de outro filme.
Com a mesma dedicação e um certo grau de provocação, anuncia: "Agora estou a filmar outro. Estou a escrever o guião - uma comédia. Apetece-me sorrir e divertir-me." O que será uma comédia, nos tempos do humor sem pruridos de Judd Apatow e companhia (Virgem aos 40 anos, Um Azar do Caraças e o sucedâneo A Ressaca, de Todd Phillips), nas mãos de Ford?
P.S. - Sobre a colecção feminina apresentada em tanto secretismo, ironicamente agora só os meios online podem mostrá-la em vídeo ou em páginas promocionais das revistas de moda. É sensual, cheia de brilhos, elegante e com um toque rockeiro. Uma festa à espera de acontecer e um sucesso junto dos editores de moda que a vislumbraram numa noite de Setembro. O vídeo está aqui: http://www.tomford.com/#/en/ thebrand/video?id=0
Texto originalmente publicado na Pública