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Nutrição

Comer no nosso tempo

As pessoas que estão mais activas durante a noite, as chamadas "corujas", têm mais dificuldade em perder peso do que as "cotovias", que funcionam melhor durante a manhã. Seja qual for o seu ritmo biológico, saiba que o seu relógio interno dita muito mais do que a hora de ir dormir. Veja-se o caso dos trabalhadores por turnos, que são muito mais afectados por doenças relacionadas com desequilíbrios alimentares, como a obesidade, a diabetes ou a hipertensão arterial.

O tempo é um dos factores que mais determinam a biologia de todos os seres vivos. Plantas e animais vivem ao ritmo dos dias e das estações do ano, alternando sono com vigília, períodos férteis com inférteis, alternando também o local onde vivem ou até a aparência. O Homem não foge a esta regra. Também a nossa espécie tem mecanismos biológicos que lhe permitem uma adaptação ideal do nosso organismo ao desenrolar inexorável da luz seguida do escuro, dos dias frios e curtos seguidos dos longos e quentes. Para isso, dispõe de um fascinante sistema de relógios internos, por sua vez coordenados por um relógio principal existente no cérebro.

No entanto, a nossa cada vez mais complexa organização social tem vindo a alterar este padrão natural. Trabalhamos muitas vezes sentados, iluminados artificialmente e sob uma temperatura que pode diferir substancialmente da exterior. Fazemos o mesmo de Verão e de Inverno e, para cúmulo, algumas pessoas trabalham por turnos, ora de dia, ora de noite, contrariando de forma violenta as aptidões ancestrais para lidar com o tempo. Tudo isto, a que alguns autores chamam de jetlag social, parece ter consequências para a nossa saúde, nomeadamente no que diz respeito à nossa alimentação e à forma como ela nos afecta.

Reconhecemos também hoje a existência de pessoas com perfis diferentes no que respeita aos seus ritmos biológicos: os que preferem o período matinal - por vezes designados de “cotovias” - e os que preferem o período nocturno – os chamados “corujas”. A estes dois tipos de pessoas correspondem sensibilidades diferentes à dieta e aos seus horários, sendo que as “corujas” parecem ter, por exemplo, maior dificuldade em perder peso e tendência para comer mais alimentos muito energéticos, como doces. Este fenómeno é especialmente amplificado nos trabalhadores por turnos, que são muito mais vezes afectados pelas doenças relacionadas com os desequilíbrios alimentares, como a obesidade, a diabetes ou a hipertensão arterial.

Por outro lado, existem ainda muitas dúvidas sobre qual será o padrão ideal para o número diário de refeições, isto é, como é que o tempo nos deve pautar a alimentação. A noção de que devemos comer cinco, seis ou mais vezes por dia não tem, na realidade, sustentação científica que a justifique. Sabemos que é possível ser saudável com padrões de consumo distintos, quer no tipo de alimentos quer no horário e número de refeições diárias. De qualquer modo, a irregularidade das refeições parece que é uma das características mais relacionadas com problemas de saúde. Das poucas certezas que temos a este respeito é o interesse do pequeno-almoço, especialmente nas crianças e adolescentes.

Ou seja, o afastamento do tal ritmo “natural” acompanha-se muitas vezes de um número acrescido de problemas, muitos dos quais estão directamente relacionados com a nossa alimentação. Quando olhamos para o problema crescente da obesidade e para a dificuldade em lidarmos com ele, fica claro que a abordagem futura deverá incluir não só os bem estabelecidos aspectos ligados à dieta e à actividade física como também a introdução de modificações nos nossos ritmos biológicos. Este novo dado deverá merecer a atenção das autoridades a quem compete desenhar as estratégias de combate a estes problemas. Mas caberá também a cada um de nós tentar equilibrar-se o melhor possível com o nosso meio, respeitando uma sabedoria ancestral de separação de ritmos e fases.