Crianças celebram o Dia da Água, celebrado a 22 de Março, nas Honduras
Crianças celebram o Dia da Água, celebrado a 22 de Março, nas Honduras REUTERS/Edgard Garrido

Crianças

Hidratar para um óptimo desempenho cognitivo

Provavelmente só será óptimo o estado de hidratação nas crianças enquanto estas são amamentadas. Nos primeiros dias de vida, os recém-nascidos apresentam uma ingestão total de água, por unidade de peso corporal, quatro vezes mais elevada do que os adultos. O conteúdo de água do leite materno, por unidade de energia, também é superior ao da alimentação típica dos adultos, embora o volume de urina por unidade de energia seja praticamente idêntico.

As crianças são particularmente susceptíveis de desidratação “voluntária”. Tendem a desidratar “voluntariamente” sobretudo em situações em que as necessidades hídricas são maiores, como quando está calor ou quando fazem exercício físico, uma vez que a sua capacidade de detectar o estado de desidratação e de responder aos seus sinais está frequentemente diminuída.

Esta situação merece especial atenção porque o tempo requerido para a perda de água corporal é muito menor em crianças, particularmente nas mais jovens, devido à baixa reserva total de água corporal, comparada com o seu turnover. Desta forma, as perdas de água obrigatórias a que estão sujeitas (pela urina, fezes, respiração e transpiração) devem ser compensadas pela ingestão de água presente nas bebidas e nos alimentos.

Não falando das consequências mais graves da desidratação capazes de pôr a vida humana em risco, há estudos que mostram que uma desidratação moderada (com perda de cerca de 2% do peso corporal), induzida por exposição a restrição hídrica, calor ou exercício físico, tem efeitos negativos a nível psicomotor, visual e cognitivo.

Segundo vários autores, capacidades como a percepção da fadiga, poder de concentração, estado de alerta e o tempo de reação a estímulos, poderão ficar comprometidas com esse nível de desidratação. Há, no entanto, trabalhos que mostram que uma desidratação de apenas 1% de perda do peso corporal em crianças, tem já repercussões na capacidade de memorização e de atenção, afetando o humor e estando associada a um maior risco de irritabilidade e letargia. Desta forma, poderemos inferir que as capacidades cognitivas das crianças poderão ser otimizadas se estas estiverem corretamente hidratadas.

Segundo os valores de referência para a ingestão de água da European Food Safety Authority (EFSA), publicados em 2010, as crianças com idades compreendidas entre 6 e 24 meses, necessitariam, em condições “normais” e sob temperatura moderada, de 1,1 a 1,2 L de água total, crescendo este valor, com o aumento da idade, e diferenciando-se entre rapazes e raparigas a partir dos 9 anos. Dos 9 aos 13 anos, os valores de referência diários situam-se em 1,9L e 2,1L, para meninas e meninos, respectivamente. As recomendações de ingestão de água total para adolescentes com mais de 13 anos são semelhantes às dos adultos (2L e 2,5L, para mulheres e homens, respectivamente).

Devemos estar atentos ao facto dos valores de referência mencionados dizerem respeito a situações “normais”, uma vez que na presença, por exemplo, de doença, acompanhada de febre, vómitos ou diarreia, ou quando está calor, a ingestão de líquidos deva ser superior. Por outro lado, as recomendações referem-se à água total, estando assim incluída a água presente nos alimentos (os mais ricos são os hortofrutícolas) e nas bebidas, que apresentam uma capacidade de hidratação próxima da água em natureza.

Por último, uma chamada de atenção para os cuidadores; pais, educadores, professores, deverão estar atentos e incentivar as crianças a ingerirem bebidas e alimentos ricos em água, particularmente nos dias em que tenham atividade física que as faça transpirar, ou de maior calor, e especialmente quando estas dependem dos seus cuidados para se alimentarem e se hidratarem.

*Nutricionista e professora
Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto
patriciapadrao@fcna.up.pt