Enric Vives-Rubio

Díaita Mediterrânica:

Um estilo de vida contra o Homo urbanus insapiens

A colisão entre o nosso genoma ancestral e as modificações da forma como nos alimentamos poderão estar na base de muitas das actuais doenças crónicas degenerativas.

Ironicamente, o Dr. Emílio Peres, personalidade inesquecível da Nutrição em Portugal, alertava para o perigo do aparecimento de uma nova espécie, o Homo sapiens urbanus insapiens, salientando as consequências perniciosas de práticas alimentares típicas das mais ricas sociedades de consumo, em resultado da crise cultural, anomia social e adopção de valores desagregadores da sabedoria biológica humana acumulada desde há milénios.

Nessa sabedoria empiricamente construída emerge a Dieta (do grego díaita ou estilo de vida) Mediterrânica, património cultural da humanidade, que contraria a gastro(a)nomia e reforça a importância atribuída a uma forma de comer com tradição centenária que favorece a obtenção de saúde e bem-estar.

Este estilo alimentar centrava-se no consumo de azeite, pães, cereais, frutas e legumes sazonais frescos, de produção local, quantidades moderadas de leite (frequentemente consumido na forma de queijo e iogurte), peixe e carne. Uma culinária simples, com muitos condimentos, e vinho, nomeadamente tinto, consumido em quantidades baixas a moderadas, normalmente às refeições principais e em família, por vezes traçado com água, ou infusões. 

A alimentação mediterrânica abrangia muito mais do que comida já que as refeições eram os alicerces de um forte apoio social entre os indivíduos e de um sentido de comunidade que acompanhava a partilha de alimentos com família e amigos. A preparação de refeições cuidadas e deliciosas estimulavam o prazer na alimentação saudável e a maior duração das refeições e sestas após o almoço favoreciam o descanso, relaxamento e alívio da tensão diária.

Nos anos 1950 e 60, a “Alimentação Mediterrânica” relaciona-se com padrões típicos de Creta e de grande parte da Grécia e do sul de Itália assim como com a existência de populações com a mais alta longevidade no mundo, baixa prevalência de doença coronária, certos tipos de cancro e de outras doenças crónicas. A alimentação em Creta privilegiava grandes quantidades de produtos hortícolas, incluindo plantas selvagens, leguminosas, frutos, sementes e, como tal, fibras, micronutrimentos e fitoquímicos. A combinação de figos com amêndoas ou nozes é também muito apreciada em Portugal e constitui um outro exemplo de riqueza nutricional.

As plantas selvagens são muitas vezes ricas em antioxidantes e nutrimentos, destacando-se particularmente as beldroegas. As beldroegas abundam em Portugal nos terrenos incultos e jardins públicos tratados. Reconhecê-las permite que se aproveite o seu valor nutricional e paladar especialíssimo, nomeadamente em sopas.

Numa experiência com o Dr. Emílio Peres, para colaborarmos num concurso de ementas saudáveis promovido pelo município de Loures, surgiu um receituário em que as sopas de beldroegas são muito apreciadas, por vezes com queijo seco, alho, azeite e louro, por exemplo. Esta combinação tradicional é utilizada para embeber sopas de pão e se preparada sem queijo, sem ovo e sem pão, continua a ser uma boa sopa para inaugurar uma refeição comum podendo evitar-se o sal.

Outros exemplos abundam na nossa tradição de consumir "plantas selvagens", desde o funcho aos cardos ou rabassóis e estas plantas são muitas vezes ingredientes básicos em “pratos” regionais. As evidências actuais aconselham ao consumo de hortícolas e plantas aromáticas, nas formas crua e cozinhada, para beneficiar do aproveitamento dos fitoquímicos que se perdem pela acção do calor ou da preparação e, de forma inversa, para aproveitar os que se tornam mais disponíveis para absorção após cozimento (por exemplo, nas cenouras, o β-caroteno pode aproveitar-se mais quando o alimento é cozido do que quando é ingerido cru).

 

*Nutricionista e Professor Catedrático da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto
pedromoreira@fcna.up.pt