Letras Pequenas... O Secador de Livros
Quem anda há muitos anos com livros para todo o lado certamente já com eles viveu experiências de sujidade ou hidratação… seja porque lê na praia, na relva, no meio da cidade ou na mesa da cozinha. Os livros são, para certos leitores, uma extensão física, orgânica, daí serem incapazes de os abandonar. (Mais ou menos como a relação actual de muitos utilizadores de telemóveis e "tablets".)
Nesta história, a ligação aos livros é levada ao extremo pela família Bronca, em várias gerações. Veja-se o exemplo do mais velho: "O avô Ernesto Bronca gostava de ler enquanto pescava à espera de que o peixe mordesse o isco. Era tão relaxante. Tão relaxzzzante… zzzzzz. No dia em que o avô teve de ir à pesca do seu próprio livro, não foi nenhuma tragédia."
Todos lá em casa padeciam desta paixão desmedida e incontrolável pelos livros, até o gato Edgar. "Resultado: os livros sofriam muitos acidentes. Ficavam sujos, imundos, arranhados, surrados, vomitados, molhados, maltratados… e tudo por amor. Tudo por amor aos livros. Ah, queridos leitores, o amor pode ser uma coisa terrível! Já tinham pensado nisso?"
Carla Maia de Almeida escreve de novo à volta de um tema que a caracteriza: a família. Com contradições e cumplicidades, os Broncas, devido ao seu delírio literário, criaram um problema, mas resolveram-no em conjunto. A lembrar que a cooperação é importante e que sozinhos valemos pouco.
Também sem Sebastião Peixoto este livro não seria a mesma coisa. A expressão, humor e movimento que dá às personagens valorizam a narrativa. E é adorável e engenhosa a máquina que imaginou para lavar (e depois secar) livros, com o seu painel colorido de várias opções. As nossas preferidas: "Exterminador implacável de traças"; "Loção polidora de manchas góticas"; "Livros com mais de cem anos"; "Prémios Nobel da Literatura"; "Entrada de honra para heróis literários".
Os rostos das figuras que o ilustrador cria também o caracterizam, repetem-se os olhos negros e as rosetas e os narizes vermelhos, quase sempre pontiagudos e arrebitados. Tudo isto se conjuga para estarmos em presença de um livro feliz.
À TSF, a autora disse que há um subtexto: "Todas as personagens remetem para escritores e escritoras." E revela que as irmãs Emília e Carlota Bronca "são", afinal, Emily e Charlotte Bronte (autoras inglesas do século XIX, cuja vida envolve algum mistério). Já quem chega à solução para secar os livros é Patrícia Bronca, inspirada em Patricia Highsmith (autora norte-americana do século XX, sobretudo de policiais, e eficaz a resolver enigmas).
Não chegaríamos lá, mas sugerimos agora que os leitores mais crescidos tentem adivinhar para quem remetem as outras personagens.
O Secador de Livros
Texto | Carla Maia de Almeida
Ilustração | Sebastião Peixoto
Edição | Caminho
40 págs., 12,90€
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