REUTERS/Anindito Mukherjee

#AintNoCinderella: As indianas não estão proibidas de sair à noite

A culpa do assédio sexual é das mulheres que saem à noite? As declarações de um político indiano geraram um protesto nacional.

Já dizia o ditado que a união faz a força. E as indianas seguem-no à risca. Mulheres de todo o país estão a partilhar imagens nas redes sociais todas as noites, depois da meia-noite, acompanhadas da hashtag #AintNoCinderella ("Não sou uma Cinderela", em português). É um protesto contra as afirmações de um político indiano que questionou ao porquê de uma mulher andar na rua durante a noite.

A pergunta foi feita depois de, no sábado, Varnika Kundu, uma jovem mulher indiana, ter sido perseguida por dois homens que a seguiram de carrinha, enquanto esta se dirigia para casa, ao volante do seu veículo, na cidade de Chandigarh.

Numa publicação partilhada na sua página do Facebook, Varnika contou que os dois homens tentaram por várias vezes bloquear a passagem do carro em que seguia, e que um dos homens chegou mesmo a bater nas janelas e a tentar entrar no veículo.

WAS ALMOST KIDNAPPED ON A CHANDIGARH ROAD LAST NIGHT. That being said, I'd like to take a moment to commend and thank...

Publicado por Varnika Kundu em Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

“Pareciam que eles estavam a gostar de assediar uma rapariga que estava sozinha no meio da noite” escreveu Varnika Kundu.

Varnika foi perseguida durante vários quilómetros.

“Eu estava em pânico”, contou. “As minhas mãos estavam a tremer, estava com espasmos musculares de tanto medo, estava em lágrimas e ao mesmo tempo desnorteada, pensando que não iria chegar a casa naquela noite”, descreve Varnika.

Perante este relato (e aqui está a origem do protesto), Ramveer Bhatti, vice-presidente do partido indiano Bharatiya Janata – Partido do Povo, em português – afirmou que o incidente nunca teria ocorrido se Varnika não estivesse na rua até tão tarde.

“[Varnika Kundu] Nunca deveria ter estado na rua à meia-noite. Porque é que ela estava a guiar tão tarde?”, questionou.

Ao jornal indiano Times of India, o político disse ainda que os pais devem tomar conta dos seus filhos. “Os pais não deviam deixar os seus filhos andar na rua até tão tarde. Eles deviam estar em casa a horas, porque é que saem durante a noite?”, acrescentou ao mesmo jornal.

As afirmações do conservador geraram a revolta de muitas mulheres. Em apoio a Varnika, partilharam fotografias das suas saídas à noite, acompanhadas da hashtag #AintNoCinderella. É uma forma de dizer que não estão proibidas de sair depois da meia-noite.

“Caro vice-presidente do Partido do Povo, já passa da meia-noite e estou a beber uma cerveja em Nova Deli. Quer juntar-se a mim?”, escreveu Ridhima Malhotra no Twitter. Na mesma rede social, uma outra mulher escreveu: “Oops, é 1h45 e eu estou nas ruas de Nova Deli com um vestido curto”.

Nem Sharmistha Mukherjee, do partido do Congresso Nacional Indiano, ficou indiferente ao caso de Varnika, juntando-se nesta onde de solidariedade. “Estou na rua à meia-noite e isso não quer dizer que eu esteja aqui para ser violada, molestada ou perseguida” escreveu, acrescentando: “A minha dignidade é um direito meu 24x7 [24 horas por dia, sete dias por semana]”.

À NDTV, Varnika considerou que as afirmações do político são uma tentativa de intimidação.

“É suposto que eu me questione sobre o que isto vai fazer à minha imagem e à minha vida. Mas o que é que os dois homens fariam à minha vida se me tivessem apanhado?”, questionou.

“O que faço, onde vou e a que horas o faço é da minha conta”, rematou.

A violência de género tem uma expressão particularmente grave na Índia. Um dos casos mais noticiados a nível internacional foi a de uma jovem estudante que morreu depois de ser violada por um grupo de rapazes na capital indiana. Já em Junho deste ano, uma mulher de 25 anos foi abusada sexualmente por três membros de um gangue, dentro de um carro.

Na cidade de Jaipur, por exemplo, foi constituída uma patrulha de agentes do sexo feminino para proteger e auxiliar outras mulheres vítimas de assédio e violência.