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Hoje quem cozinha é o chef

É mais do que pedir uma pizza. É sentar-se com os amigos e não se preocupar com nada. A experiência de chamar um chef ao domicílio está a crescer em Portugal.

Vasco e Matilde chegam com algumas caixas nas mãos, largam-nas na cozinha, abrem-nas e lá de dentro sai carne, cogumelos, chocolate, assim como alguns utensílios de cozinha. Vasco Sousa, 21 anos, é cozinheiro, e Matilde, 20 anos, é pasteleira, juntos vão fazer o jantar em casa da família Silva, que vai receber uns amigos, entre os quais está o Life&Style. Actualmente existem empresas que fazem comida caseira, mas que também oferecem propostas diferentes com menus de assinatura.

Na casa da família Silva, em Almada, Vasco pergunta onde está uma tábua de corte. “Ligamos ao cliente primeiro para sabermos as condições da cozinha, alguma coisa que faça falta, trazemos”, explica o jovem que terminou o curso de Gestão na Universidade Nova de Lisboa, para depois enveredar pela cozinha. Mas antes desse telefonema é preciso que o cliente escolha o chef e a ementa. Isso faz-se no site da Supper Stars, uma empresa recente que traçou o desafio de “levar as melhores experiências gastronómicas ao mais exclusivo dos cenários, a casa de cada um de nós”, define Tiago Ribeiro, co-fundador da marca, ao Life&Style.

Tal como existem plataformas para reservar uma mesa num restaurante ou um quarto de hotel, a Supper Stars criou um site – que foi lançada durante a Web Summit em Novembro, em Lisboa – onde o cliente pode escolher o chef e a ementa. O primeiro jantar foi em Outubro e desde então já serviram 1500 refeições, revela a marca. Os preços variam entre os 35 e os 140 euros por pessoa, ou seja, de um jantar mais descontraído a um menu de degustação.

Esta ideia, de um cozinheiro profissional ir a casa, não é nova – “sempre existiu”, reconhecem os sócios Tiago Ribeiro e Margarida Correia. A novidade está em poder escolher profissionais com experiência nos “melhores restaurantes de Portugal e do mundo, como o Fortaleza do Guincho, o L’And Vineyards, o Fat Duck, o Osteria Francescana, o Noma, o Mugaritz, entre outros”, enumeram os empresários. No site, a escolha faz-se da televisiva tia Cátia ao veterano Pedro Sommer.

Também a Chefs Agency, que se dedica à assessoria, comunicação e organização de eventos na área da gastronomia, oferece este serviço, a que chama “catering de assinatura” – o chef vai a casa, ao escritório ou prepara uma festa. Não há um preço fixo porque tudo é discutido, do menu aos vinhos, passando pelas louças ou talheres e, inclusive, pela presença do chef. Por exemplo, o cliente pode escolher uma ementa preparada por Vítor Sobral, da Tasca da Esquina, e o chef não ir a casa porque terá um custo superior, explica Patrícia Dias, directora de comunicação. “É um serviço premium, no segmento do luxo”, define, acrescentando que este é um mercado que está a crescer, e que a empresa faz uma média de dois eventos por mês, que pode ir de um jantar de família a uma refeição para centenas de pessoas.

Refeições caseiras

Matilde abre e fecha as portas dos armários da cozinha dos Silva. “É a parte mais divertida, descobrir onde estão as coisas”, diz rindo-se até encontrar uma taça grande. Vasco e Matilde conheceram-se no Belcanto, o restaurante de duas estrelas de José Avillez, em Lisboa, onde estagiaram na mesma altura. O casal comprou todos os ingredientes necessários para fazer o jantar, e tudo o que foi possível adiantar em casa, fizeram-no para não atrasar o serviço. Os profissionais chegaram duas horas antes de servir o jantar.

Enquanto prepara os lombinhos de porco que serão servidos com migas de sapateira, Vasco vai contando que o seu curso de Gestão está a ser útil para lançar, com uns amigos, uma proposta de comida congelada ao domicílio. Em vez de ir o chef a casa, vai só a comida, como acontece com as entregas de pizza. A diferença do cook4.me – assim se chama a startup – é que está pensada para pessoas que não têm tempo para cozinhar e que querem ingerir comida caseira. Oito euros é o custo de uma refeição por pessoa. “Por um lado, tem um aspecto inovador: mudar o mundo das pessoas que não têm tempo ou que não gostam de cozinhar; por outro, tem um aspecto social: ajudar cozinheiros que estejam desempregados”, explica Vasco Sousa.

Ir a casa dos clientes fazer um jantar diferente é um negócio para muitos profissionais, sobretudo no início da carreira, contextualiza Patrícia Dias, ou “quando estão entre projectos”. Estar numa plataforma ao lado de outros profissionais reconhecidos é uma mais-valia, considera Vasco Sousa, que, ao serviço da Supper Stars, já teve de recusar pedidos por falta de disponibilidade.

Joana Lemos, mais conhecida por ter sido piloto de todo-o-terreno – “vou ficar com esse rótulo até morrer”, confessa no meio de risos –, já escolheu na plataforma Supper Stars os chefs que quis que fossem a sua casa. “Do meu ponto de vista, é uma ideia genial, [os sócios da empresa] são gente nova que conseguiu identificar uma lacuna.”

Com o “ritmo acelerado da nossa vida, é difícil programar um jantar com os amigos, a quem queremos dar o melhor de nós”, começa por justificar Joana Lemos. Além disso, “é desagradável passar o dia em pé na cozinha, [por isso,] com este serviço podemos ficar à mesa e não perdemos nada. Porque quando estamos à mesa temos conversas interessantes”.

“Eles vão à praça, chegam a casa, cozinham, servem e deixam a cozinha como a encontraram”, resume. Assim é com os Silva. Vasco e Matilde empratam, vão à mesa e o chef explica cada um dos pratos, porque optou por uns ingredientes em detrimento de outros, respondendo às dúvidas dos comensais.

No final, a convite da mesa, o cozinheiro e a pasteleira sentam-se para conversarem sobre como tem sido a experiência de ir a casa das pessoas. Nenhum tem razão de queixa, a maior parte das vezes são clientes simpáticos e que apreciam a gastronomia. O público-alvo, dizem os sócios da Supper Stars, é “qualquer pessoa que queira almoçar ou jantar com amigos, família, clientes ou quaisquer outros convidados, seja em sua casa, no seu escritório, ou num espaço que alugue para uma festa ou férias”.

Levar o chef para as férias

Como é que a Supper Stars escolhe os profissionais? Primeiro são seleccionados pelo seu curriculum vitae e com base em recomendações dos seus pares, depois há espaço para uma entrevista e, por fim, é feita uma experiência em que a empresa convida clientes e amigos para "experimentarem" o novo chef. Através deste processo, a empresa “garante que os chefs não são apenas profissionais de topo como são pessoas agradáveis e simpáticas, a quem é um prazer abrir a porta de casa”, dizem os sócios.

Como acontece com todos os clientes, os Silva e os amigos não foram excepção: no final da refeição, todos tiveram de avaliar o serviço. Joana Lemos reconhece que este é um “serviço de luxo”, mas que pode ser tão caro como ir a um bom restaurante. Tiago Ribeiro e Margarida Correia lembram que, tal como numa ida ao restaurante, também neste caso os amigos podem dividir a conta.

Joana Lemos recomenda a Supper Stars aos amigos solteiros, aos estrangeiros e também aos que vão de férias. “Agora vou para a Comporta, onde só há tasquinhas e não há um bom restaurante, e posso usufruir deste serviço”, confidencia.

Tiago Ribeiro conta ao Life&Style que neste Verão haverá uma equipa de chefs residentes no Algarve, mas que o serviço também estará disponível na Comporta, São Martinho do Porto e Moledo. A empresa criou ainda um serviço completo, do pequeno-almoço ao jantar, a partir de 300 euros por dia. E há público para isto? Sem dúvida, responde Patrícia Dias, da Chefs Agency, que tem um cliente francês que pediu o serviço de um chef para gerir as refeições durante um mês de férias na Comporta.

O Life&Style experimentou uma refeição a convite da Supper Stars