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As caras por trás das marcas

Celso de Lemos: se é para fazer, “é para fazer o melhor"

Quando começou, da garagem da mãe, a produzir tapetes, Celso de Lemos sabia uma coisa: que teriam de ser os melhores mundo. Assim nasceu a Quinta de Lemos.

Da fábrica em Viseu voam os tapetes, toalhas e, brevemente, lençóis de algodão egípcio topo de gama, para mais de 60 países. Abyss & Habidecor: o nome da marca pode não ser muito conhecido em Portugal – onde a expressão no mercado é pequena –, mas nos principais pontos de venda a nível mundial, como o Harrods e Bloomingdale's, é reconhecido pela excelência. O homem por trás da marca é Celso de Lemos, que se resume a si e à empresa, num único princípio: “Se começámos era para fazer os melhores tapetes do mundo”.

Quem diz tapetes, diz, vinho, azeite e cozinha. Se o nome Celso de Lemos lhe é mais familiar, talvez se tenha deparado já com um dos vinhos da quinta que este comprou em 1997, na sua Viseu natal. Ou, então, porventura, já ouviu falar do restaurante Mesa de Lemos, onde o chef Diogo Rocha serve uma cozinha sofisticada com produtos de Norte a Sul do País.

Na fábrica da Abyss & Habidecor, grande parte da produção é feita à mão. Logo numa das primeiras salas, as costureiras sentam-se em mesas de tufting à antiga – com dezenas de rolos ligados à máquina – e dão forma aos tapetes. Os designs são clássicos, grande parte em cores sólidas, e o que interessa é mesmo a qualidade. Por isso, as peças são feitas com a algodão egípcio (de Gizé) de topo, com os melhores corantes para os tingir – em tinturaria própria – e com um rigor de produção e atenção ao detalhe.

De Viseu à Bélgica

Celso de Lemos, de 67 anos, mistura simplicidade de gostos com uma constante procura pela excelência, quer na vida pessoal quer na profissional. Quando come em casa, o prato preferido é “um ovo cozinho, uma batata e um bocadinho de azeite – divinal”. Quando começa um projecto, “é para fazer o melhor”.

Sentado no Mesa de Lemos, a história de vida do homem que partiu cedo para a Bélgica e voltou para construir uma empresa que hoje factura 12 milhões de euros por ano, tem de ser quase puxada a ferros, entre tentativas de desviar o assunto: “Pronto, já contei a minha história, não já? Contem-me a vossa! Então, como é veio para o jornalismo?”. Gosta pouco de falar sobre si e prefere que se passe uma mensagem de confiança. “Aproveitem para comunicar que Portugal foi sempre um país fantástico, dos mais velhos do mundo”, pede alegremente.

Natural de Viseu, Celso partiu em adolescente para a Bélgica para estudar engenharia têxtil numa prestigiada escola. Sempre gostou de viajar – aos 11 anos já ia sozinho de comboio para Lisboa – e hoje ensina a lição aos netos. “Deixei os meus amigos, que me custou muito – como custa a toda a gente –, mas é um momento fantástico. Uma prioridade que eu ensino aos meus netos agora é deixar o normal, ir para qualquer sítio desconhecido”. Um dos netos, sentado também à mesa, anui timidamente, quando o avô partilha a ambição do estudante do secundário de ser astronauta.

Celso partiu para a Bélgica incentivado pela mãe, que um dia, na cozinha, perguntou-lhe se não queria ir estudar para o estrangeiro. Foi, sem saber falar francês: nas primeiras aulas “não percebia nada do que estavam a dizer”, mas eventualmente destacou-se como melhor aluno. Durante os estudos, conheceu a mulher, Paulette, com quem teve três filhos. No segundo ano, chegou de Portugal a triste notícia da morte do pai. “Não me disseram nada, que eu estava em exames, só soube 15 dias depois, só depois disso vim para Portugal.”

Num ímpeto, decidiu escrever à Gulbenkian e pedir ajuda financeira – de modo a poder continuar os estudos e aliviar o peso à mãe. "Escrevi ‘os meus pais têm dificuldades e mandaram-me para a Bélgica com os tostõezinhos que tinham poupado'", conta.  A resposta chegou no prazo de um mês: “Vamos oferecer-lhe durante um ano uma bolsa se 15 mil escudos por mês – eu que recebia três [da família], ia receber 15 mil!”

Depois do curso, fez ainda uma especialização de três anos em química e tinturaria e viveu entre Bélgica e França, onde estagiou e trabalhou em algumas empresas. Um dia disse: “Agora já chega, vou fazer qualquer coisa”. Tudo começou na garagem da mãe, com uma máquina de costura. Cedo percebeu que para ter a qualidade que desejava teria de investir numa tinturaria. Pediu “um bocadito de dinheiro” ao Banco Nacional Ultramarino e a partir daí nunca mais necessitou de empréstimos, garante. “O que íamos ganhando gastávamos – ganhávamos cinco, investíamos cinco. Ganhávamos dez, investíamos dez".

Nos anos 1990, rumou aos EUA para internacionalizar a marca. “Toda a gente ia à Quinta Avenida, ao 295”, um edifício [em Nova Iorque] com centenas de escritórios onde recebiam produtos do mundo inteiro. Celso não quis entregar as suas peças a terceiros e optou pelo caminho mais longo. “É melhor levar mais tempo, fazer a minha própria sociedade nos EUA', pensou.

Eventualmente encontrou uma parceira de negócio e hoje, só nos EUA, tem pelo menos 500 clientes. “Mas é a nossa família”, garante. "Nós conhecemos aquela gente toda: eles vêm cá, nós vamos lá... Há uma relação mais humana que industrial. É essa relação que nos interessa.”

O viseense fala espaçadamente, ainda com um leve sotaque da região, onde hoje passa metade do seu tempo – alternando com a Bélgica. A sensação que transmite é de que, sem ser preciso falarmos muito, nos consegue ler com enorme facilidade – chamem-lhe, porventura, inteligência emocional. O próprio discurso confirma a importância que dá ao contacto humano. Da mesma forma como não quer os produtos à venda na internet, também prima por conhecer os nomes e as caras de toda a gente com quem trabalha – fornecedores, parceiros, clientes e os mais de 200 trabalhadores da fábrica. “O nosso objectivo não é preço, é qualidade. E a qualidade vê-se através das pessoas. Tem de se visitar. Não é ficando aqui, com telefonemas... Não, não...”, explica.

A nível de matérias-primas os principais fornecedores estão no Egipto, mas também nos EUA, Índia e China. Os quilómetros de fios entrelaçados dão cor à fábrica, mas não é só daí que vem a alegria. Nas paredes estão afixados cartazes com exercícios físicos para os trabalhadores fazerem durante o dia; no departamento de controlo de qualidade, as senhoras que fazem a inspecção peça a peça têm mesas de altura ajustável; na cantina – onde Celso se senta à mesa com os funcionários e lhes pergunta sobre a família – as refeições são preparadas cuidadosamente e no final há sempre tempo para um jogo de cartas. Depois, há a piscina coberta – da qual todos podem tomar partido.

Vinho, azeite e vinagre

A Quinta de Lemos ergue-se num dos lados de um vale – no topo situa-se o edifício decorado por Nini Andrade Silva, com quartos de hotel e o restaurante Mesa de Lemos. Mais abaixo, estão a adega e o lagar e à volta as vinhas e o olival. A quinta começou como uma pequena parcela, que Celso adquiriu em 1997. Comprou os terrenos que outros vizinhos queriam vender e no mesmo ano já lhe tinha acrescentado 25 hectares.

A produção de vinho era um hobbie. Mas, como em tudo, se é para fazer, “é para fazer o melhor”, assume. O enólogo da quinta, Hugo Chaves, explica que as condições climatéricas da região – sobretudo a intensa pluviosidade e temperatura – levam ao crescimento excessivo das uvas, diminuindo assim a sua qualidade. Em comparação com o Douro, por exemplo, onde um hectare de vinha produz em média quatro toneladas de uva, no Dão esse valor multiplica por cinco. Por isso, em cada produção, fazem uma monda de 75% – muito acima do que é a prática comum, na região. É por isso que antigamente se dizia que o Dão só dava um bom vinho de dez em dez anos, conta ainda o enólogo que acompanha o projecto desde o início.

Lá fora, os vinhos têm sido recebidos com agrado, ganhado consistentemente altas pontuações em algumas das principais publicações, como a Robert Parker. Entretanto na vinha, já experimentam com novos conceitos, como a produção biodinâmica – uma forma de cultivo que, além de ser orgânica, se rege a partir das fases da lua.

Na Mesa de Lemos, já se prova o azeite que as três mil oliveiras da propriedade produzem. “Temos já montado o lagar, está tudo prontinho”, conta o empresário, acrescentando que este ano extraíram 15 mil litros de azeite. Mas ao mercado só chegará quando achar que tem qualidade suficiente. À mesa de jantar, partilha ainda um dos outros projectos para um futuro próximo, a produção de vinagre balsâmico. Também uma das zonas do edifício de betão, onde antes estava um showroom da Abiss, vai dar espaço a novos quartos, além dos três já existentes.

Este ano, a empresa começou a produzir lençóis – o que implicou uma expansão da fábrica. Apesar de já estarem disponíveis em poucos locais, só chegam realmente ao mercado no final do ano e, em vez de Abyss & Habidecor, são vendidos sob a marca Celso de Lemos.

Antes de se despedir, Celso de Lemos sublinha a noção de humanidade. “Essa ideia sempre foi nossa [dos portugueses], subir montanhas e descê-las, mas sem destruir a natureza, e respeitar os valores humanos. Os netos já sabem: nunca esperem receber nada. Isso é que é real, dar sem ter o desejo de receber”, diz. “E resumi tudo o que tinha a dizer, acabou”, conclui sorridente.