Christian Roth e Eric Domege criaram a marca de óculos em 1983
Christian Roth e Eric Domege criaram a marca de óculos em 1983

Entrevista

A dupla por detrás dos extravagantes óculos Christian Roth

Christian Roth e Eric Domege criaram em 1983 uma marca de óculos que marcou tendências, ao longo das últimas décadas. Acabam de apresentar a nova colecção, de Verão.

A dupla criativa Christian Roth e Eric Domege fundou em 1983, há mais de três décadas a marca com o nome do primeiro. Os dois mudaram-se da Alemanha e da França, respectivamente, para Nova Iorque – uma cidade onde "toda a gente era aceite". Foi lá que se apaixonaram – recentemente casaram-se em Miami – e deram vida à marca de óculos com modelos extravagantes que iria enfeitar as caras de algumas das figuras mais icónicas da época – inclusive de Kurt Cobain, que foi fotografado com um modelo que hoje se chama Archive 1993.

Prezam-se por serem "verdadeiros designers de óculos", que se focam numa única categoria, a dos óculos de sol. O Life&Style pediu-lhes para escolherem um modelo que representasse a marca, e a dupla optou por dois: os Archive 1993 – que existem numa variedade de cores; e os Bikini – com um design em forma de "x", inspirados na cadeira Barcelona de Mies Van der Rohe. Da nova colecção destacam o Matos, que aparenta ter as lentes e a armação do mesmo material. Foi um conceito que criaram nos anos 1980 – até apresentaram um protótipo feito de plástico na passerelle –, mas a tecnologia para o executar apenas chegou recentemente.

A entrevista com os criativos aconteceu na sala de optometria da loja Olhar de Prata, em Lisboa, onde foi apresentada esta semana a nova colecção de óculos Christian Roth. Entrevistadora e entrevistados sentaram-se em três pequenos bancos redondos do consultório e a conversa girou em torno do percurso de três décadas e meia dos criadores. Embora não tenham qualificação para executar um exame simples de visão, gostariam de voltar à escola para aprender – talvez assim desenhassem "de forma diferente", brincam.

Como se conheceram?
Christian Roth (CR): Conhecemo-nos há 35 anos, éramos muito jovens. Ambos somos da Europa. O Eric cresceu na França e eu na Alemanha. Partilhávamos a mesma visão: queríamos viver em Nova Iorque e ter um trabalho em que tornássemos as pessoas mais bonitas.  

Porquê Nova Iorque?
CR: Era já nessa altura o centro do mundo. A minha família achou que eu era maluco por ir para Nova Iorque. Depois, achou que era maluco por querer ser um designer de óculos, porque esse trabalho não exista. Nova Iorque era um sítio onde toda a gente era aceite.

Eric Domege (ED): E era também uma cidade muito liberal, muito criativa. Não era, como hoje, muito cara. Era um íman para jovens criativos. As pessoas tinham a mente aberta a vários níveis.

Como é que souberam que queriam trabalhar juntos?
ED: Acho que tudo aconteceu de forma orgânica. Quando duas pessoas se conhecem, se respeitam, se amam, o tempo passa – não dá para explicar porquê. Não foi planeado.

Como funciona a vossa parceria criativa – dividem tarefas?
CR: Não há papéis definidos. É esse o nosso privilégio: gostamos de fazer tudo juntos. Claro que há momentos em que não concordamos. E se são concordarmos é o nosso papel convencermo-nos um ao outro ou deixarmos cair a ideia.

ED: Mas é raro não concordarmos.

Como começaram a marca?
CR: Eram tempos diferentes. Basicamente era preciso algum dinheiro, mas muito pouco. Podia fazer-se um protótipo de um produto e ir a uma fábrica — se gostassem produziriam e teriamos 90 dias para pagar.

ED: Agora, quando se vai a feiras internacionais, mostra-se em Setembro, por exemplo, e o produto tem de estar pronto em Outubro. Antes, mostrava-se numa feira uma colecção feita de protótipos e as pessoas não se importavam de esperar cinco meses. Pagavam-nos em avanço, na entrega ou, no máximo, dentro de 30 dias. Por isso, o nosso cliente era basicamente o nosso investidor — acreditavam naquilo que estávamos a fazer e não queriam o produto imediatamente. Era muito mais fácil.
 
Actualmente, através das redes sociais volta a ser mais fácil começar uma marca com pouco investimento?
ED: Sim. E é muito novo. Por causa das redes sociais, a nova geração está farta de ver a mesma coisa. É um mundo global – se virmos a mesma marca repetidamente qual é o objectivo de viajar? Em contradição a este branding de massas, temos agora o designer pequeno e independente, que faz um par de sapatos especial ou um cinto. Existe mais facilidade agora do que há uns anos.
 
Como se adaptaram ?
CR: Hoje estamos sob o guarda-chuva do grupo DITA. Faz com que seja mais fácil para nós, podemos concentrarmo-nos na criação. Queremos ver o quadro completo.

Terem esse apoio a nível de gestão tem feito com que se possam concentrar no processo criativo?
ED: Sim, mas é importante ter em mente que o mundo se tornou maior. Quando começámos o mundo era mais pequeno do que é hoje. Somos verdadeiros designers de óculos — nunca vamos ter uma produção de massas. Nem toda a gente vai comprar Christian Roth, mas há consumidores suficientes, que querem ter um produto que é feito e pensado por verdadeiros designers. 

O que quer dizer com "verdadeiros designers" de óculos?
ED: Aquilo que chamamos verdadeiros designers de óculos são pessoas que só desenham uma categoria, que é eyewear. Os designers de moda não desenham os óculos. Sabem como desenhar um vestido. 

Disseram há pouco que tiveram ideias antigas e que foi preciso esperar pela tecnologia para as realizar. Quais são exemplos?
ED: Nos anos 1980 fomos desafiados a fazer uns óculos para a passerelle. Queríamos algo que fosse totalmente sem costuras — com cores diferentes, mas sem que se visse a diferença entre armação e lente. Nessa altura a tecnologia de lentes era muito diferente. Tentámos, mas não funcionou. Por isso, no final, para a passerelle, eram uns óculos conceptuais — colámos plástico, mas não era usável, não dava para ver. Há dois anos, quando descobrimos com a equipa de design da DITA os nossos arquivos e olhámos para aquela armação, fomos perguntar à fábrica se isso era possível hoje. E era. Foi pensada no final dos anos 1980 e executada em 2017. 

É difícil criar sempre novos designs numa tela tão pequena como é o rosto?
CR: Acabámos de falar com um arquitecto conhecido e ele pensa em grandes volumes, mas, seja grande ou pequeno, não interessa. Desde que se esteja totalmente focado, vai-se encontrar sempre algo para melhorar.

ED: Tentamos que as nossas peças sejam sempre diferentes e fiquem bem no rosto. Porque é muito fácil fazer óculos extravagantes, que parecem malucos.
 
Não era o que queriam fazer no início, designs "malucos"?
CR: Maluco no sentido de as pessoas parecerem fabulosas e chiques – não maluco como um palhaço. O melhor elogio para nós é que o cliente receba elogios ou comece a namorar com alguém.

ED: Queremos que as pessoas fiquem fabulosas, românticas ou intelectuais...mas não queremos fazer com que pareçam um palhaço (risos).

Costumam procurar novos materiais para usar?
ED: Trabalhamos com dois materiais: acetato e titânio — que está para os óculos como a caxemira está para a roupa. Temos de estar sempre à procura de algo novo, mas só há duas fábricas de acetato no mundo. Todos os designers vão às mesmas. Acontece frequentemente haver a mesma cor em duas colecções.

Porque é que está tão concentrado?
ED: Porque têm o know-how e é um monopólio. Há algumas fábricas mais pequenas de nicho que usamos. Com [a técnica] cut and paste [corta e cola] podemos combinar materiais existentes que toda a gente usa. 

Coleccionam óculos?
CR: Claro, adoramos ir a mercados. Conseguimos sempre encontrar alguma coisa. Nos anos 1940, 1950 e 1960 os óculos eram produzidos em quantidades pequenas. Às vezes ainda nos surpreendemos e conseguimos encontrar uma armação que nunca tínhamos visto antes. Não quer dizer que nos inspire, mas lança-nos um desafio.

Encontraram alguma recentemente?
CR: Também coleccionamos muitas outras coisas, como talheres de prata. Na semana passada, em Telavive, vimos pratas como nunca tínhamos visto na nossa vida. Temos uma regra: quando estamos fora de casa não olhamos para o telemóvel porque podemos perder alguma coisa. Lisboa é a nossa 17.ª paragem, em 25 dias.

ED: Não têm de ser óculos, pode ser qualquer elemento de design. Nas semana passada fizemos uma tour de Bauhaus [escola de design iniciada na Alemanha no início da década de 1920], em Telavive, que uma das cidades com mais arquitectura Bauhaus.

CR: Estivemos em Estocolmo e fomos ao Museu de Fotografia, onde encontrámos um livro de moda – e achávamos que conhecíamos todos os livros de moda.

Já pensaram fazer um livro?
CR: Sim estamos a pensar nisso.

Olhando para trás, têm algum design preferido?
CR:- Desafiámos a indústria quando trabalhámos com titânio. Antes só era feito numa armação fininha, mas tornámo-lo maior. Não pesa nada, por isso pode-se fazer grande.

 ED: Fomos os primeiros a trazer o branco para homem.

Lembram-se do primeiro par de óculos que tiveram?
CR: Era um rapaz de 15 anos e queria ter uns Ray-Ban Aviators dourados, com lentes espelhadas. Havia uma loja na Alemanha ocidental que os tinha, mas eram muito caros e eu não tinha dinheiro suficiente. O meu pai trabalhava muito nos EUA e comprou-mos, porque lá eram acessíveis. Deu-mos de presente e eu percebi que me podia mascarar e de repente tinha mais amigos — toda a gente queria estar comigo. Percebi a magia que os óculos poderiam ter.

ED: E ele tem uns olhos azuis lindos (risos).

E o Eric?
ED: É uma história engraçada. Era um miúdo de 12 anos e não sei porquê queria um par de óculos. Por isso, disse à minha mãe que não conseguia ver bem. Ela levou-me ao médico e à minha frente [o doutor] disse à minha mãe: 'Sim sim, o seu filho precisa de uma prescrição' e pegou no par de óculos mais feios da loja. Então disse à minha mãe que via bem, mas tive de os usar à mesma. Nessa altura já tinha um fascínio. Foi o meu castigo.

CR: Mas compensámos (risos)
 
A marca tem alguma forma mais icónica?
CR: Não gostamos de dizer isso, talvez  a nossa comunicação fale às vezes demais sobre os nosso clientes celebridades.

ED: A Internet pegou nessa história [do Kurt Cobain]. Ele mudou o mundo da moda. Era grunge, não estava a tentar estar na moda – simplesmente pegava em coisas das lojas vintage. Por causa da famosa fotografia, o nosso modelo tornou-se uma imagem icónica para o grunge. Mas não queremos que o design seja posto nessa caixa. Fica bem numa mulher, num homem, em branco, em preto...  A armação cruzada é uma outra forma icónica, da qual nos orgulhamos, porque foi inspiração para muitos designers.  Foi inspirada pela cadeira Barcelona de Mies Van der Rohe. Estes dois designs são icónicos da nossa marca.

CR: [Os óculos que Cobain usou] foram uma homenagem a Jackie Kennedy.

A Jackie usou-os?
CR: Não. Nós inspirámo-nos nela, porque tornou esse look famoso nos anos 1960 – ainda estávamos no jardim de infância!

ED: Ela não usou os nosso óculos, mas a irmã Lee Radziwill [hoje com 84 anos], sim. Por isso, usou armações inspiradas na [própria irmã] (risos). Ainda hoje é uma mulher muito sofisticada.

Conheceram-na?
CR: Sim, ela ligou, disse ‘vi que fizeram estes [óculos]!' Tinha uma voz rouca. Foi nos anos 1990, depois da senhora Kennedy Onassis morrer. 

Porque é que a marca só tem o nome de um dos dois?
CR: Primeiro chamava-se Optical Affairs. Não queríamos que tivesse um nome pessoal, mas sim neutro. Precisávamos de algum investimento e havia uma interessada — que foi a primeira empresa de óculos japonesa a fazer artigos de luxo — que queríamos que fizesse as nossas armações e não pedisse para pagar imediatamente. Fomos ao Japão e em retorno eles queriam vender as nossas armações na Ásia e pagar-nos uma royalty.

ED: Disseram que não conseguiam comercializar as nossas armações como Optical Affairs. Na Ásia precisam de um nome para a marca. E perguntaram ao Christian: 'Christian Roth é mesmo o teu nome? Podes mostrar o passaporte?’ Disseram que era um nome lindo e decidimos usá-lo.

Pediram para ver o passaporte...
CR: Sim (risos). Os japoneses podem ser muito directos.

Já que estamos numa sala de optometria, poderiam fazer um exame de visão?
ED: Não (risos). Sempre quisemos entrar numa escola, mas até agora temos estado tão ocupados. Os últimos 30 anos passaram tão rápido... Talvez desenhássemos de forma diferente se pudéssemos [fazer exames]. Nunca é demasiado tarde (risos).