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Relojoaria

O que é que Ian Davenport e Joana Vasconcelos têm em comum?

Os dois relógios foram apresentados na Bienal de Arte de Veneza.

A primeira resposta certa é um Swatch. A segunda resposta certa é o que se pode ver nos relógios feitos pelos conhecidos artistas: há uma certa sensação de vórtex comum aos dois mostradores destas peças feitas por encomenda da marca relojoeira suíça.

Se, agora, o artista britânico Ian Davenport pegou nas suas conhecidas riscas e as girou aos sabor dos ponteiros do relógio, já há dois anos a portuguesa Joana Vasconcelos, menos psicadélica, usou volutas de filigrana, um motivo muito comum no seu trabalho, que fez contrastar com um fundo de um preto profundo. Os dois relógios foram apresentados na Bienal de Arte de Veneza e, tal como no caso de Joana Vasconcelos, o trabalho de design faz-se acompanhar por uma grande instalação que pode ser vista até  Novembro.

Ian Davenport mostra uma pintura abstracta com 14 metros, intitulada Colourfall, que se derrama pelo chão de um espaço ao ar livre nos Giardini, onde os pavilhões nacionais dos países são apresentados, criando, como sugere o título, uma “cascata multicor”.  Como é que estas duas dimensões se encontraram? São coisas muito diferentes, uma tem a escala da rua, outra é um objecto de design pensado à dimensão do corpo. Carlo Giordanetti, director criativo da Swatch, interrogou Ian Davenport, no dia da apresentação no mês passado em Veneza, sobre a dificuldade dessa dicotomia, que empurra o trabalho para escalas tão diferentes, do muito pequeno ao muito grande. “O relógio é uma coisa que vestimos, tem de ter um conceito muito diferente. O trabalho evolui e foi quando pensámos nele como uma cara que chegámos ao conceito”, respondeu Davenport.

Carlo Giordanetti sublinhou que as cores parecem vir do exterior do relógio e saem depois pelo buraco do centro, criando o tal efeito de vórtex. Se no relógio o centro da obra é o lugar menos estável, já no mural dos Giardini é no chão, onde a pintura se derrama, que as cores se misturam. 

Ian Davenport foi finalista do Prémio Turner em 1991, a mais importante distinção das artes plásticas britânicas, e faz parte da geração dos Young British Artists, que começou por expor na lendária exposição Freeze, em 1988, e que gravitava à volta de Damien Hirst (o mais famoso artista britânico já explicou que foi o trabalho de Davenport que inspirou as suas pinturas dos pontos).

Numa técnica que levou uma década a desenvolver, Ian Davenport utiliza uma seringa para introduzir a cor na superfície plana — neste caso uma placa de alumínio —, criando linhas através do efeito de gravidade e da consistência viscosa das tintas. Nesta Colourfall, que dá o nome a uma série de obras, foram usados 200 litros de tinta.

Desde 1984 que a Swatch encomenda relógios a artistas. Começou com Kiki Picasso e logo no ano seguinte iniciou a sua colaboração mais citada, com Keith Haring, que desenhou quatro relógios especiais. Trabalharam também para a “tela mais pequena do mundo”, como a marca de relógios gosta de chamar ao projecto Swatch Art Special, criadores como Nam June Paik, Akira Kurosawa ou Pedro Almodôvar.

Wide Acres of Time, o nome do relógio de 2017, tem uma edição de 1966 exemplares, o ano de nascimento de Ian Davenport. Feito a pensar em coleccionadores, está à venda em algumas lojas seleccionadas, a partir de 12 de Junho, por 130 euros, depois do primeiro lançamento em Veneza. 

A jornalista viajou a convite da Swatch