Pormenor da feira de Genebra
Pormenor da feira de Genebra Reuters/DENIS BALIBOUSE

Relojoaria

Muda-se o tempo, mudam-se as marés

Se é certo que as vendas de relógios estão a cair, as propostas apresentadas nos dois maiores salões de relojoaria mundiais estão definitivamente bem vestidas.

E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer um relógio de queijo suíço? E a seguir ainda lhe disser que custa um milhão de euros?! Isso é de certeza coisa de um louco, varrido! Ou será que não?

Para começar, o desconhecido não o é assim tanto: a H. Moser & Cie não é um nome familiar mas é uma pequena manufactura com quase dois séculos de história e, desde 2012, detida pela família Meylan, com uma longuíssima tradição na indústria relojoeira (controlam ainda a Hautlence). E o relógio, sendo definitivamente de loucos, tem a sua lógica…

Todos os anos são produzidos cerca de 1,2 mil milhões de relógios no mundo. Mas a terra dos relógios faz apenas 3% desse total. No entanto, a sua quota de mercado, em valor, é de quase 60%. Mais ainda, dos 29 milhões de relógios que produz, apenas 27% são mecânicos, mas representam 80% do valor. Ou seja, a indústria relojoeira helvética é uma migalha que vale mais do que o resto do bolo! Isso explica-se em grande parte pela percepção que o mundo tem da sua qualidade impar, representada pelo selo do “Swiss Made”, que implica a observância de um conjunto de regras muito restritas.

Ora essas regras foram recentemente revistas, tecnicamente no sentido de apertar ainda mais a malha, mas, alerta a H Moser, a nova lei tem mais buracos que um queijo suíço e qualquer marca mal-intencionada pode facilmente utilizar, por exemplo, mais componentes produzidos fora da Suíça do que os permitidos. Este 100% Swiss Watch é, pois, uma bandeira da qualidade da relojoaria suíça e o seu valor reverterá para um fundo de apoio aos fornecedores de peças e acessórios helvéticos. O preço, exactamente 1.081.291 francos suíços, remete-nos para a assinatura da constituição da federação helvética, em Agosto (08) de 1291. Já a caixa, simbolicamente de um (queijo) Vacherin premiado, surge tão misturado com nanotubos de carbono que acaba por ficar à prova de tudo. E nem sequer cheira mal…

Não estamos com isto a afirmar que é uma boa compra – a menos que seja um mega-colecionador – mas serve um propósito válido e o relógio, apresentado no Salão Internacional de Alta Relojoaria, em Janeiro deste ano, não foi sequer a única peça "de loucos" que por ali vimos. A Richard Mille escolheu também o salão para apresentar outra que irá contribuir, e muito, para elevar ainda mais o valor da quota global Suíça: o RM 50-03 Tourbillon Split Seconds Chronograph Ultralight McLaren F1. A única vantagem de um nome tão grande é poupar-nos o trabalho de explicar as complicações ou o facto de assinalar os dez anos de parceria com a equipa, deixando-nos tempo para focar no essencial: tal como num F1, tudo neste RM 50-03 (vamos abreviar) está construído para: 1. maximizar a resistência – uma teima para a única marca no mundo capaz de manter um turbilhão a funcionar na perfeição no pulso de um tenista (Rafael Nadal) durante uma partida; 2. minimizar o peso – apenas 40 gramas é algo nunca visto para este nível de complicações. Para isso muito contribui a caixa em grafeno, uma liga muito high-tech onde, para terem uma ideia, em cada milímetro da caixa estão três milhões de camadas de grafeno!

Este RM custa também perto do milhão de euros, e o que é mais inacreditável, não se trata de um exemplar único, ou de uma edição limitadíssima: a RM vai manufacturar 75 unidades.

Impossível também não referir o Panerai LAB-ID apresentado, tal como os dois anteriores, no SIHH. Este é o primeiro relógio na história a dispensar a lubrificação, recorrendo a uma mistura de silício, cerâmicas e carbonos em todos os componentes do mecanismo. Imaginem só o motor de um automóvel a trabalhar sem lubrificação. Mas um motor com o triplo das peças, e todas infinitamente mais pequenas, a trabalharem 24 horas sobre 24, sem descanso, durante 50 anos. Impensável, não é? Foi exactamente isso que a Panerai conseguiu e para o provar estendeu a garantia a 50 anos.  Em consonância, está limitado a 50 unidades e custa… 50 mil euros. Obviamente, como puderam pensar outra coisa?

Por muito fora da caixa que estes relógios possam parecer – e repetimos, não foram os únicos – a maioria das novidades apresentadas este ano foram bem menos estratosféricas. Se olharmos para os números da indústria relojoeira, percebemos que este foi o sector do luxo que mais perdeu: menos 9,8% o ano passado e menos 8% nos dois primeiros meses do ano. Está instalada a crença de que 2017 será já um ano de recuperação, apoiada já em números de Março, e muito porque a generalidade das marcas está muito focada em novidades "mais em conta", acessíveis a uma franja maior da população e onde o valor perceptível do relógio, a chamada relação qualidade-preço, parece mais óbvia. 

O Classico Manufacture Grand Feu, da Ulysse Nardin, um relógio com calibre automático próprio, com espiral e escape em silício, pequenos segundos, data e um lindíssimo mostrador em esmalte grand feu, por menos de 9000 euros é um bom exemplo. Ou o Baume & Mercier Clifton GMT, com dual time e reserva de marcha com um preço anunciado de 3400 francos suíços, ou, ainda, o Jaeger-LeCoultre Master Control Date, também com calibre da manufactura, por cerca de seis mil euros. Nesta categoria, de referir ainda o L.U.C. XP, apresentado pela Chopard em Basel, de enorme elegância e ultra fino (calibre próprio) tem ainda uma bracelete em caxemira moldada com pele de aligator por 8100 euros. Não são exactamente baratos, mas a relação qualidade-preço torna-se óbvia.

Em força continua também a celebração do neo-retro, ou modelos com um toque vintage, uma tendência que vem já do ano passado e não é difícil entender o porquê: num mundo onde reinam as incertezas, a aposta num design clássico, intemporal, é naturalmente vista como a mais segura, quer pelos consumidores quer pelas marcas. Por isso qualquer oportunidade, como o aniversário de um modelo, ou de uma colecção, é de não perder.   

A Girard Perregaux, por exemplo, aproveitou o seu regresso ao SIHH para lançar toda uma nova linha, a Laureato, baseada numa colecção de 1975. Os anos 1970 foram férteis no lançamento de relógios desportivos, como o Royal Oak da Audemars Piguet e o Nautilus da Patek Phillipe e o Laureato partilha essa filosofia. Nesta recriação, a GP apostou em vários modelos, de diferentes tamanhos (34, 38, 42 e 45 mm), sendo que o mais pequeno terá apenas um movimento de quartzo suíço e para o maior está reservado um turbilhão. Os restantes terão movimentos automáticos, da GP, e custam cerca de dez mil euros.

Já em Basel, a Omega aproveitou a feira para apresentar também uma trilogia de modelos: Omega Trilogy 1957 Seamaster Railmaster Speedmaster 60th anniversary trio – o que faz todo o sentido já que estes três modelos icónicos (sobretudo os Seamaster e Speedmaster) foram apresentados em conjunto há 60 anos. Pode optar comprar cada modelo em separado ou pela edição limitado do conjunto (se a conseguir encontrar, o que não será fácil). A Omega fez um trabalho extraordinário com estas réplicas, extremamente fiéis aos originais, com as diferenças do vidro de safira no mostrador e dos calibres, agora todos com certificação METAS.

100 anos de Baselworld: o grande palco do luxo

Referência ainda para o Zenith Pilot Type 20  Extra Special, com o seu look icónico dos primórdios da aviação e uma caixa de 40 mm em metal envelhecido. E para o Blancpain Tribute to Fifty Fathoms MIL-SPEC. Em 1953 a Blancpain apresentou o Fifty Fathoms, o primeiro relógio de mergulho, e em 1957, há 60 anos portanto, adicionava uma nova função, sob a forma de um pequeno círculo bi-color às 6h, que alertava o mergulhador na eventualidade de ter entrado água para o mecanismo (deixava de ser bicolor). Foi esse modelo que a Blancpain recriou agora. E tão absolutamente à prova de água até aos 300 metros, que nunca vai perder as duas cores no círculo.

Vintage em conta

Sintomaticamente, as duas maiores tendências da relojoaria-relação qualidade-preço e vintage - andam muitas vezes de mãos dadas. Como o Hamilton Intra-Matic 68, cronógrafo mecânico inspirado em dois modelos da marca apresentados nesse ano, com um preço a rondar os dois mil euros. Ou o Longines Heritage 1945, na mesma ordem de preços, trata-se da recriação de um modelo desse ano, feita com enorme respeito pelo modelo original, sendo que e agora bate um movimento automático onde antes estava um de corda manual. A Seiko recriou também o Divers de 1965, o seu primeiro modelo de mergulho com notável fidelidade em relação ao design original. Vai custar 3800 euros, mas numa edição limitada a 2000 exemplares.  

Last but not least, a Tag Heuer decidiu promover uma votação online (na realidade, mais um torneio) e deixar os seus fãs escolher qual, entre os relógios do seu passado, devia receber uma recriação. Envolver os consumidores com a marca é sempre uma boa jogada, até porque as experiências com o digital, muito concretamente o shopping online, têm sido bastante positivas para as marcas e é um dos caminhos de saída da crise. Os internautas escolheram a reedição de um modelo de 1966 e assim nasceu o Autavia Calibre Heuer 02. Maior do que o primeiro, de 39 mm para 42 mm, tem uma luneta bem mais marcante e, às 6hs, uma pequena data. Tem também um novo calibre próprio da Tag Heuer e custa 4600 euros.  

Os dois salões

O Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), em Genebra, e o BaselWorld são as duas mostras de relojoaria mais importantes do mundo. O primeiro, como o nome indica, mais focado na alta relojoaria, e o segundo mais representativo de toda a indústria. Nos últimos anos, o SIHH abriu o leque das marcas presentes, incluindo um espaço dedicado aos “independentes”, injectando alguma irreverência ao savoir faire das marcas mais tradicionais. Isto fez com que ganhasse massa crítica e levou a que marcas como Ulysse Nardin e Girard-Perregaux (neste caso, um regresso) se juntassem às fileiras do salão, aliadas a um número crescente de independentes. O SIHH bateu este ano o recorde de marcas presentes (30), um sinal óbvio da vitalidade do salão. Talvez por isso a Hermès anunciou já que para o ano também vai trocar Basileia pelo SIHH.

Claro que Basel, que celebrou este ano o centenário, continua a ser, de longe, o maior salão, mesmo tendo perdido cerca de 200 participantes. A razão é simples, Basileia representa toda a indústria, com marcas muito exclusivas e tradicionais e com outras mais baratas, incluindo até de smartwatches, como a Samsung. À feira acorrem ainda os fornecedores de peças do mundo inteiro.

Horas Excepcionais

Panthère Joueuse de Cartier

maison recriou este ano a Panthère, uma das coleções mais marcantes dos anos 1980 (e com vários modelos para muitas bolsas). Esta Panthère – animal mascote da marca – nem sequer faz parte dessa colecção mas é absolutamente irresistível. Uma pantera salta do mostrador, e não existem ponteiros ou algo que se pareça. O passar do tempo é dado pela pantera e a sua pata (minutos), que giram tentando brincar com a “bola” (as horas). Só o facto de fazer girar a pantera de diamantes (e esmeraldas nos olhos), logo muito mais pesada, é um feito técnico.

Van Cleef & Arpels Lady Arpels Papillon Automate

Uma belíssima borboleta ganha vida, batendo as asas. A velocidade e a frequência com que o faz é aleatória, ou pelo menos, assim parece… Na realidade, o número de batimentos depende energia guardada (uma espécie de indicador de reserva de marcha), além de que o mecanismo está também ligado ao rotor pelo que, quanto mais ativo for o estilo de vida, mais vezes a borboleta vai acordar. A VC&A cunhou o termo horas poéticas e este ano voltou a surpreender.

 

 

 

 

The Loving Butterfly Automation

A Jaquet Droz apresentou também o seu autómato, no qual uma borboleta dá a sensação de puxar a carruagem de cupido (batem as asas e gira a roda). Inspirada na mitologia, no amor de Cupido por Psique (muitas vezes representado por uma borboleta), a peça surge baseada em desenhos de Henri-Louis Jaquet-Droz, filho de Pierre Jaquet-Droz, de 1772.