Casas com história

A casa de Frederico é quase um teatro

Era um escritório antes de Frederico Oliveira fazer destas assoalhadas a sua casa. Ao estilo pombalino foram acrescentadas influências de épocas sucessivas.

“Gosto de arriscar. As pessoas têm de acreditar nas suas ideias. Podem achar que sou maluco, mas deixem-se levar pela minha loucura porque é construtiva.” Frederico Oliveira, 38 anos, é um esteta e isso nota-se a cada divisão que se descobre. “É uma espécie de casa burlesca, sem portas para não inibir as pessoas de circularem, de viverem o espaço, de mexerem em tudo. Não sou agarrado às coisas”, diz. Há nove anos que criou a República das Flores, no Chiado, um misto de florista e loja de decoração e acessórios. Em simultâneo, idealiza ambientes para festas em espaços públicos e privados. O apartamento na Rua do Alecrim, em Lisboa, foi um achado. Era um escritório que transformou em habitação. “Interessou-me a área, 400 metros quadrados, para ter espaço para 20 anos de tralha acumulada.”

Natural de Gondomar, veio cumprir o serviço militar, ingressou como voluntário na Marinha e, em seguida, começou a trabalhar. Multiplicava os part-times que lhe rendiam mais que estar a tempo inteiro e deitava mão a tudo. “Organizava jantares em casas particulares, levava as flores, os empregados, mudava a disposição dos móveis para receberem os convidados, cozinhava”, conta. Foi assim que chegou ao seu estabelecimento, onde só cabe aquilo que gosta. É a mesma forma de estar na vida: “Só faço o que gosto, sou persistente, levo as minhas ideias até ao fim.”

Herança arquitectónica

Há pedaços de História deixados, de propósito, em cada canto. “Muitos azulejos estavam tapados e foram mudados de lugar”, os frescos D. Maria, “uns melhores que outros, alguns muito deteriorados”, o chão original “estava coberto em camadas sucessivas ao longo dos anos”, os lambrins da década de 30 do século XX, o pé direito com cerca de cinco metros. Na cozinha, as portas dos armários tinham sido retiradas do lixo uns anos antes de adquirir o imóvel e revelaram-se um achado, na medida em que, soube depois, eram as portadas das janelas da casa. A este melting pot de materiais e estilos, Frederico juntou-lhe cor, tons pastel contrastam com outros vibrantes, tecidos com padrões e texturas, mobiliário vintage e instalações modernas. Nas paredes, as telas de artistas contemporâneos convivem com retratos históricos que antes decoravam uma discoteca. Há uma colcha bordada de Castelo Branco a ornamentar uma parede “que deve ter uns 200 anos”. Há também arte sacra. Muitas das peças são compradas em leilões, casas de antiguidades ou adquiridas nas viagens, como o tamborete império, de 1800, uma das peças mais importantes e raras da sua colecção.

“Todas as casas têm que ter um cheiro”, diz. Esta é perfumada com velas com aromas de sândalo, vetiver, patchouli, musk, madeiras, incenso e mirra, “quase o cheiro das igrejas”. Como som de fundo, ouve-se o Carta de Nha Cretcheu, de Ana Firmino – “Há sempre música e músicos”, comenta, enquanto chega o Camões, um braco alemão e o mais recente inquilino, um presente dos amigos que achavam Frederico demasiado solitário na casa que é a continuação do palácio Barão de Quintela.

A arte de misturar

A cozinha é a divisão da casa que Frederico Oliveira mais usa. A decoração é  marcada pela presença de velhos tachos de cobre, que não são para enfeitar — é neles que o proprietário gosta de cozinhar o seu doce de ovos. Mas a casa-de-banho é um dos maiores ex-libris: “Tem duas sanitas porque as mulheres vão sempre aos pares e tem uma cadeira de barbeiro, porque também se corta cabelo aqui em casa.”