• Casa de Abraham Lincoln, Northwest Washington D.C.
    Casa de Abraham Lincoln, Northwest Washington D.C. Katherine Frey/The Washington Post
  • Casa no Rapidan Camp, Virginia
    Casa no Rapidan Camp, Virginia National Park Service/The Washington Post
  • Casa Pacifica, San Clemente, California
    Casa Pacifica, San Clemente, California National Archives/The Washington Post
  • Mar-a-Lago, Palm Beach, Florida
    Mar-a-Lago, Palm Beach, Florida Jobin Botsford/The Washington Post

EUA

Trump não é o primeiro governante com um retiro presidencial

Camp David tem sido preterido por Donald Trump a favor da luxuosa Mar-a-Lago.

Se pegássemos em todos os retiros presidenciais na história dos Estados Unidos e os combinássemos numa única estrutura extensa, ela provavelmente continuaria a ser mais pequena do que os dez mil metros quadrados de Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Florida. E isto inclui os 12 chalés para convidados em Camp David.

Este retiro rústico nas montanhas do Maryland tem sido preterido pelo Presidente Donald Trump a favor da luxuosa Mar-a-Lago, que serve de local de férias e de negócio lucrativo para o 45.º presidente americano.

De facto, na mesma altura das suas presidências, todos os presidentes desde Richard Nixon já tinham passado algum tempo em Camp David, que fica a 30 minutos de helicóptero da Casa Branca. Parecia que Trump podia fazer uma vista no fim-de-semana passado; o jornal Palm Beach Post tinha obtido documentos da Administração Federal de Aviação relativos a uma restrição de voos no espaço aéreo de Camp David, devido a “movimentos VIP”. Em vez disso, o presidente visitou o Trump National Golf Club em Sterling, na Virgínia.

Ao mesmo tempo que milhões de turistas visitam a Casa Branca todos os anos, ela é muitas vezes um lugar de onde os presidentes querem fugir. Muitos passavam o Verão em casas de família, particularmente antes de existir ar-condicionado. Mas alguns também tinham retiros pessoais, que variavam bastante em termos de luxo – de uma cabana de madeira rústica numa estrada de terra batida a um iate de 330 pés e a glamorosa Mar-a-Lago. Aqui estão alguns deles:

Cabana de Lincoln
Antes de criticar Trump pelas suas escapadinhas frequentes da Casa Branca, considere o seguinte: o Presidente Abraham Lincoln passou mais de um quarto da sua presidência no seu retiro. Mas, talvez devido às pressões da Guerra Civil, não se afastou muito: a sua cabana de estilo neogótico estava a apenas a 6,4 km de distância, no actual bairro de Petworth, em Washington.

A casa tinha sido construída em 1842 por um banqueiro rico e posteriormente comprada pelo Governo Federal para servir como instituição de apoio a veteranos de guerra. Ao lado, construiu-se um dormitório que acolhia cerca de 200 veteranos idosos e deficientes. O antecessor de Lincoln, James Buchanan, visitou primeiro a cabana e provavelmente recomendou-a a Lincoln. Abe visitou-a pela primeira vez poucos dias depois da sua tomada de posse e continuou a regressar; a sua última visita foi no dia antes de ser assassinado.

O poeta Walt Whitman, que trabalhou como funcionário do governo e enfermeiro voluntário durante a Guerra Civil, relatou ter visto Lincoln a percorrer a cavalo o caminho entre a Casa Branca e o retiro “com uma tristeza profunda e latente na sua expressão”.

Construída no topo de uma colina na área (que na altura era rural), esta cabana arejada propiciava uma pausa do rebuliço do centro de Washington. Em 1862, a primeira-dama Mary Todd Lincoln escreveu a um amigo: “Estamos verdadeiramente encantados com este retiro, os passeios e caminhadas aqui são encantadores e todos os dias trazem visitas.”

Albert See, membro da guarda presidencial, recordou uma noite com o Presidente e o filho deste: “Quando estava na Casa dos Soldados, numa noite de luar, o Presidente e Tad jogavam às damas no alpendre e, quando passou o sentinela, o Presidente perguntou-lhe se já tinha jogado às damas; ele disse que sim e o Presidente disse: “Pouse a arma e venha connosco, jogue uma partida” ”. O sentinela perdeu.

Mas os fardos da guerra nunca estavam muito longe. Da varanda, Lincoln conseguiria ver novas campas a serem escavadas no Cemitério Nacional Soldiers’ Home. Ele escreveu vários rascunhos da Proclamação da Emancipação no escritório da cabana. E ele e a mulher foram evacuados da casa quando um exército da Confederação atacou um forte nas proximidades, em 1864. (Insensatamente, Lincoln foi para o campo de batalha e por momentos esteve debaixo de fogo inimigo.)

Posteriormente, a cabana foi usada pelos presidentes Rutherford B. Hayes e Chester Arthur, embora bastante menos. Foi restaurada em 2008 e aberta ao público.

USS Mayflower
O iate oficial do comandante-chefe teve um papel importante no namoro de um Presidente. Sete meses depois da morte da primeira mulher de Woodrow Wilson, este conheceu Edith Bolling Galt, uma viúva 15 anos mais nova. Ficou imediatamente apaixonado, escreve John Milton Cooper Jr. no livro Woodrow Wilson: A Biography. Depois de alguns encontros com um acompanhante, Wilson confessou o seu amor por ela no Pórtico Sul da Casa Branca. Mais tarde, Edith recordou que tinha replicado: “Oh, não me pode amar, porque não me conhece; e faz menos de um ano desde que a sua mulher morreu.”

A relação andou sem rumo durante cerca de um mês. Então, chegou o USS Mayflower, um navio da Marinha que tinha sido reconvertido em iate presidencial em 1905. Wilson convidou Edith para um cruzeiro pela Costa Leste até Nova Iorque. Talvez tenha sido a luxuosa sala de jantar, a banheira de mármore ou o facto de todos os navios de guerra americanos dispararem uma salva de tiros e tocarem o hino sempre que o iate passava, mas a partir de aí o afecto de Edith cresceu. Os dois casaram-se alguns meses depois, em Dezembro de 1915.

Quando eram recém-casados, usavam muitas vezes o iate para cruzeiros de fim-de-semana.

A Casa Castanha em Rapidan Camp
O Presidente Herbert Hoover nasceu e cresceu mais a oeste de Washington do que todos os presidentes antes dele, o que lhe dava um apreço pela natureza apenas igualado por Teddy Roosevelt. Pouco tempo depois de tomar posse, em 1929, ele escolheu uma área do rio Rapidan no Parque Nacional de Shenandoah para criar um retiro rústico. Os fuzileiros construíram o campo, constituído por 13 cabanas e chalés, como parte de um exercício de treino. (Hoover pagou os materiais do seu próprio bolso). A cabana de Hoover recebeu o nome de “A Casa Castanha”.

Enquanto o país estava mergulhado na Grande Depressão, Hoover visitou Rapidan frequentemente, muitas vezes por ordem do médico. O local remoto, acessível apenas por uma estrada de terra batida, atraía a elite da época: o aviador Charles Lindbergh, o inventor Thomas Edison e o primeiro-ministro inglês Ramsay MacDonald foram alguns dos seus visitantes. A imprensa estava proibida.

Pequena Casa Branca
Franklin D. Roosevelt visitou pela primeira vez as termas de Warm Springs, na Geórgia, quando fazia tratamentos para a poliomielite em 1924. Pouco tempo depois, comprou o resort e transformou-o numa fundação para outros doentes de poliomielite. Em 1932, quando era governador de Nova Iorque e candidato democrata à presidência, ele construiu a “Pequena Casa Branca” de seis divisões na propriedade.

Roosevelt não pôde fazer muitas visitas durante a II Guerra Mundial. Depois de regressar da Conferência de Ialta, no final da guerra, em Março de 1945, voltou à Pequena Casa Branca. Enquanto posava para um retrato na sala de estar do retiro, teve um AVC massivo e morreu pouco tempo depois.

Camp David
O único retiro oficial dos presidentes, esta antiga instalação naval no Condado de Frederick, no Maryland, foi desenvolvida por Roosevelt em 1942. Ele alcunhou-o de “Shangri La”. A cabana rústica era uma das favoritas do presidente Dwight Eisenhower, que recuperou ali de um ataque cardíaco em 1955. Ele rebaptizou-a de Camp David, em homenagem ao pai e ao neto. Todos os presidentes desde então visitaram a propriedade, muitas vezes na companhia de chefes de Estado estrangeiros. O primeiro foi Winston Churchill, em 1943; ele descreveu-a como: “em princípio, uma cabana de madeira, com todos os avanços modernos.”

Camp David é provavelmente mais conhecido não pela descontracção dos presidentes mas sim pelos acordos de paz que o presidente Jimmy Carter negociou entre Menachem Begin, de Israel, e Anwar El Sadat, do Egipto, em 1978.

Quando lhe perguntaram, antes de tomar posse, se planeava visitar o retiro no bosque, Trump disse a um jornalista alemão: “Camp David é muito rústico, é bonito, ia gostar. Sabe durante quanto tempo ia gostar? Durante uns 30 minutos.”

La Casa Pacifica
Durante a corrida à presidência em 1968, Richard Nixon mandou um assistente procurar um esconderijo presidencial na costa da Califórnia, segundo o Los Angeles Times. Este encontrou uma mansão em estilo espanhol de 836m2 em San Clemente, na Califórnia, que tinha sido posta à venda por um apoiante democrata que ali teria jogado póquer com FDR.

Nixon comprou a casa pouco depois de vencer a Casa Branca. Enquanto era presidente, recebeu ali o líder soviético Leonid Brezhnev e o primeiro-ministro japonês Eisaku Sato, na sua “Casa Branca do Oeste”.

O retiro passou a ser a casa de Nixon depois de este renunciar à presidência em 1974. Vendeu-a em 1980.

La Casa Pacifica está no mercado desde 2015. O preço já desceu várias vezes e actualmente está nos 63,5 milhões de dólares (57,3 milhões de euros), de acordo com o OC Register.

Prairie Chapel Ranch
O Presidente George W. Bush comprou este rancho de 647,5 hectares perto de Crawford, no Texas, em 1999, enquanto ainda era governador deste estado. Apesar de os críticos se queixarem das suas viagens frequentes à “Casa Branca do Oeste”, Bush construiu uma casa de 371,6 m2, apropriada para receber personalidades estrangeiras e para realizar reuniões. Isto incluiu cimeiras com o Presidente russo Vladimir Putin e a chanceler alemã Angela Merkel.

Em Agosto de 2005, a mãe de um soldado morto na Guerra do Iraque montou um acampamento improvisado perto do rancho de Bush, no mesmo dia em que este começava umas férias de cinco semanas, afirmando que não se iria embora até que o Presidente a recebesse. Nunca foi recebida, mas os protestos contra a guerra e os meios de comunicação que se precipitaram sobre o acampamento dela estragaram certamente as férias do governante.

Actualmente, Bush e a mulher, Laura, vivem em Dallas e usam o rancho com um retiro de fim-de-semana.

Mar-a-Lago
O castelo cor de pêssego de Trump tem sido uma fonte constante de controvérsias nos primeiros dias da sua presidência. Será que ele vai mesmo voltar para lá? Será que receber o Presidente da China numa das suas empresas constitui um conflito de interesses? Será que a propriedade estava mesmo destinada a servir como uma “Casa Branca de Inverno” há décadas, como alegou recentemente (e depois apagou) o site do Departamento de Estado?

Construído em 1924 pela herdeira dos cereais Marjorie Merriweather Post, Mar-a-Lago estava destinado a servir de retiro presidencial quando foi oferecido ao Governo americano em 1972. Ao receber ali líderes mundiais, Trump estava a cumprir “um sonho adiado”, afirmou o Departamento de Estado.

Apesar de este relato ser essencialmente verdade, a história da compra da propriedade barroca por Trump é um pouco mais complicada.

“Na década de 1970, quando pertencia ao Governo Federal, o Presidente Richard M. Nixon viajou até lá para considerar declarar Mar-a-Lago a 'Casa Branca de Inverno'”, escreveu Mary Jordan, do Washington Post, em 1991. Nixon demitiu-se antes de concretizar o plano; os presidentes seguintes, Gerald Ford e Jimmy Carter, não revelaram qualquer interesse em visitar ou desenvolver a mansão de 128 divisões.

Farto das despesas de manutenção, o Governo devolveu a propriedade à Fundação Post em 1980. Os filhos de Post também não estavam interessados em pagar a sua conservação. Em 1985, puseram a mansão à venda por 20 milhões de dólares.

Segundo Trump, este ofereceu-se para comprar a propriedade, incluindo o mobiliário de veludo e ouro, por 28 milhões de dólares (em outras ocasiões, falou em 25 milhões e 15 milhões) mas foi rejeitado. Furioso, Trump disse à Fundação que tinha comprado um pequeno terreno em fronte de Mar-a-Lago e ameaçou construir um edifício feio que tapava a vista para a praia, a não ser que lhe vendessem a propriedade. No final, conseguiu comprá-la a preço de saldo – cinco milhões pela propriedade e três milhões de dólares pela mobília.

Durante os problemas financeiros de Trump na década de 1990, ele converteu a mansão num clube gerador de receita, mas continua a ter lá uma residência privada. Actualmente, além do campo de golfe e do salão de baile, os membros podem usufruir do seu estatuto como Casa Branca de Inverno. Trump visitou Mar-a-Lago pela última vez a 16 de Abril – que, como sabemos, já é Primavera.

PÚBLICO/The Washington Post