Brigitte Trogneux à chegada ao Eliseu no dia da tomada de posse do marido
Brigitte Trogneux à chegada ao Eliseu no dia da tomada de posse do marido LUSA/PATRICK KOVARIK / POOL

França

Com Emmanuel e Brigitte não há tabus no Eliseu

Longe de menorizar o seu casamento atípico, Macron acolhe-o como um símbolo da sua ousadia.

Enquanto Emmanuel Macron e a mulher, Brigitte, se instalam no Palácio do Eliseu, a sua relação pouco convencional representa um símbolo das mudanças que o novo presidente pretende implementar em França.

Ela é quase 25 anos mais velha do que ele. Conheceram-se quando ela lhe dava aulas de teatro no liceu. Apesar de não terem filhos, o chefe de Estado, de 39 anos, é um jovem “avô por afinidade” da família alargada dela. Mas, longe de menorizar o seu casamento atípico, Macron acolhe-o como um símbolo da sua ousadia, da sua capacidade de desafiar a ordem estabelecida e mesmo dos seus poderes de sedução.

Quem é quem na família moderna de Macron?

“A transgressão por que ele lutou quando era jovem, na França burguesa e provinciana, levou a um sentimento de transgressão que motivou a sua candidatura à presidência,” disse Jean Garrigues, um professor de História Política na Universidade de Orleães. “A questão é: será que isto vai continuar a resultar quando ele assumir o poder?”

A audácia da sua situação matrimonial foi assinalada por Laurent Fabius, presidente do Conselho Constitucional, que, este domingo, declarou Macron o novo presidente numa cerimónia no Palácio do Eliseu. Fabius citou um escritor francês, François-René de Chateaubriand, para dizer que Macron era “um homem dos tempos”, acrescentando, “até no seu casamento”. Com um vestido Louis Vuitton azul claro acima do joelho e um casaco com botões dourados a condizer – criado para ela por Nicolas Ghesquière – Brigitte observava.

Em certo sentido, as eleições francesas foram uma escolha entre dois tipos de casamento muito diferentes – apesar de Macron ter enfrentado a nacionalista Marine Le Pen na segunda volta, o seu principal adversário para conquistar os votos da maioria dominante era o conservador católico François Fillon.

A mulher de Fillon, Penelope, recebia um salário do Estado por ajudar o marido desde a década de 1980, mas, alegadamente, trabalhava muito pouco. Brigitte foi uma conselheira não paga de Macron durante a campanha e agora assume um papel oficial semelhante à primeira-dama dos Estados Unidos, apesar de continuar a não receber salário.

“Há um desejo profundo de renovação da classe política e uma vontade de emancipação das velhas normas sociais e dos antigos códigos de conduta”, disse Mariette Sineau, politóloga e socióloga do Instituto Sciences Po, em Paris. “A sociedade francesa é muito mais liberal do que pensam as pessoas no estrangeiro e até os meios de comunicação.”

Brigitte, de 64 anos, teve um papel crucial à medida que o marido subiu de ministro júnior a Presidente em menos de um ano, aconselhando-o nos discursos e ajudando-o a moldar a sua agenda política. De facto, ela tem sido uma figura central desde que se conheceram, como professora e aluno de 15 anos, num liceu no Norte de França.

Brigitte Trogneux: um novo tipo de primeira-dama em França

A abertura de Macron sobre esta relação tornou-se uma parte crucial da identidade política do novo presidente, que ele utiliza para chegar a diferentes grupos de eleitores. Numa sessão de entrevistas em Abril via Snapchat, um utilizador disse que se tinha apaixonado pela sua professora de Direito e pediu conselhos a Macron.

“Primeiro, descobre se é mútuo,” riu-se Macron. “Se for, vai em frente! Sem tabus!”

Num programa de televisão do canal C8, filmado com crianças numa sala de aula em Março e transmitido na totalidade no domingo, Macron é franco. Enquanto explicava ao grupo a peça de Shakespeare Romeu e Julieta, diz: “Acaba mal e isso é triste. Mas o amor é mais forte do que as regras dos homens.” Depois fala sobre a sua situação, dizendo: “Há muitos tipos diferentes de famílias… O que importa é que seja um projecto de amor.”

No Dia Internacional da Mulher, em Março, Macron afirmou: “Não há menos amor na nossa família” só porque ela é invulgar. Numa entrevista em Fevereiro com a revista mensal gay Tetu, disse que a especulação sobre ele e a mulher era uma reflexão “odiosa” sobre o facto de a política continuar a ser muito “masculina”.

A imagem dos Macron como um casal muito unido foi criada com a ajuda de Michèle Marchand, presidente da Bestimage, uma das agências de paparazzi mais poderosas de França. Marchand inundou as revistas semanais francesas com imagens icónicas depois da vitória eleitoral. Uma imagem publicada na revista Paris-Match desta semana, que mostra Macron a escrever o discurso de vitória enquanto os netos da mulher brincavam à volta da sua secretária, fez lembrar uma fotografia semelhante do antigo presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.

No entanto, a diferença de idades e as origens da relação provocaram algum falatório mais negativo.

Porque é que diferença de idade de Macron e Trogneux é tema de conversa?

O Charlie Hebdo, o semanário satírico conhecido pelos seus cartoons mordazes, colocou na capa desta semana uma Brigitte grávida, dizendo: “Ele vai fazer milagres!”. A 8 de Maio, o Financial Times descreveu-a como uma “Essex Girl” [um estereótipo de uma mulher promíscua e pouco inteligente] num texto que também utilizava a palavra francesa “cagole”, calão pejorativo que se refere a uma loura mal vestida e vulgar. Se explorarmos mais a fundo as redes sociais, encontra-se muito pior.

As críticas levaram a revista Elle, juíza semanal da moda e das tendências sociais para as francesas, a publicar uma defesa de Brigitte antes da votação final de 7 de Maio: “A idade de Brigitte Macron: durante quanto tempo vamos 'rir-nos' disso?”

A editora-chefe Adèle Breau disse que os comentários sobre o casal eram “ultra-misóginos” e que a sugestão de que casar com uma mulher mais velha significava que o candidato era secretamente gay era “homofóbica”. O artigo tornou-se viral, tendo sido lido por 700 mil pessoas no Facebook e com mais de 300 mil visualizações no site da revista – um recorde.

O desafio para o Eliseu é garantir que o casamento dos Macron não se torna um risco político, num país que por vezes se revelou desconfortável com a “política da personalidade”. Uma sondagem do YouGov, publicada a 10 de Maio, demonstra que 68% dos franceses se opõe a que a primeira-dama tenha um estatuto formal.

“A opinião pública americana é muito mais conservadora em termos de valores, mas aceita melhor as vidas pessoais das pessoas”, disse Sineau. “Em França, é ao contrário. Macron não pode exagerar a relação, senão vai haver uma reacção negativa.”

PÚBLICO/The Washington Post