Luxo

O papel dos artesãos no luxo

Na Business of Luxury Summit, organizada pelo Financial Times, o trabalho artesanal foi um dos principais temas.

No mundo globalizado em que vivemos, o artesanato — que acumula séculos de história e saberes — continua a ter um papel fundamental no sector do luxo. É à volta deste tema que se debruça mais uma edição da Business of Luxury Summit, organizada pelo Financial Times. Este ano, pela primeira vez, Lisboa acolheu o evento, que começou no domingo, com uma recepção no Convento do Carmo e que termina esta terça-feira.

A abrir o primeiro dia de conferências, segunda-feira, no Four Seasons Hotel Ritz, esteve António Costa, com uma mensagem forte: “A Europa, para ser competitiva, tem de investir nos bens e serviços que gerem maior valor acrescentado.” Ora, é no sector do luxo que está esse valor acrescentado. “Só a mão humana, o sentimento ou a cultura acumulada ao longo de séculos podem permitir essa diferenciação”, acrescentou o primeiro-ministro, destacando o potencial de Portugal para oferecer produtos que se integram nesta forma de produzir.

No painel de oradores estiveram ainda figuras como Durão Barroso, Nicolas Ghesquière, director artístico da Louis Vuitton, o chef Nuno Mendes, da Chiltern Firehouse, Federico Marchetti, CEO do grupo Yoox Net-a-Porter, e Axel Dumas, CEO da Hermès International.

Na Hermés, 70% dos modelos de malas têm uma produção de cerca de dez unidades, garante Axel Dumas, actual CEO e sexta geração da empresa familiar. A marca é mais conhecida por dois dos seus designs icónicos, a Kelly e a Birkin. Quando esta última foi lançada, lembra Dumas, demorou anos até que começasse a vender e, de repente, foi um sucesso estrondoso.

A marca francesa — que está no topo do sector de moda de luxo, com peças que ultrapassam dezenas de milhares de euros — distingue-se precisamente pelo seu foco no trabalho artesanal que Dumas considera que sempre foi “uma obsessão humana”.

O tema do digital ocupou também um lugar central nos debates. O CEO do grupo Yoox Net-a-Porter, Frederico Marchetti, começou a vender peças de luxo pela Internet no final da década de 1990. “Toda a gente me perguntava o mesmo: ‘Como é que podes vender luxo online?’”, recorda. Passados 18 anos — agora que o cliente de luxo já está claramente online — a pergunta que lhe fazem é outra: “É mesmo possível vender um relógio de 100 mil euros online?” A resposta é sim.

Nuno Mendes, que abriu em Londres o restaurante O Viajante, e que está agora à frente do Chiltern Firehouse, veio falar sobre o “renascimento” da alta-cozinha. O luxo na gastronomia estava “associado a salas sumptuosas”, que atraíam clientes ricos não particularmente bem informados, começou por dizer.

Hoje em dia a realidade é bem diferente: a história que se conta à volta dos pratos e dos produtos e a interacção com o cliente é aquilo que mais conta. Cada vez mais será assim, pois é este o tipo de experiência que as novas gerações procuram. Mais importante do que estar num espaço faustoso, a verdadeira experiência de luxo é conseguir uma reserva num restaurante pequeno, onde o chef tem uma história para contar — que vem do produtor até ao prato confeccionado.