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“Por 13 Razões… não o fiz”: estes alunos partilham o seu sofrimento pessoal para tentar prevenir o suicídio

A série que gira em torno do suicídio de uma adolescente foi proibida a menores de 18 anos na Nova Zelândia e no Canadá.

Namorar com um rapaz popular e abusivo. Sentir-se excluído. Alguém dizer para nos matarmos.

São estas as experiências que um grupo de alunos do 12.º ano está a partilhar com toda a comunidade escolar durante este mês. São histórias de bullying, depressão e pensamentos suicidas, histórias sobre não se sentir suficiente.

Todas as manhãs, desde 1 de Maio, uma gravação feita por um aluno sobre a sua história dolorosa tem sido transmitida nos altifalantes da Escola Secundária de Oxford, no Michigan (EUA).

A ideia surgiu como resposta à controversa série Por 13 Razões da Nextflix, que acompanha as consequências do suicídio de uma adolescente e das gravações que ela deixou para trás, onde identificava toda a gente que contribuiu para a sua morte. A série tem sido muito criticada pela forma como lida com material tão delicado. Dirigida a um público adolescente, não fala de saúde mental nem sobre a prevenção do suicídio e apresenta o suicídio como uma forma de alguém se fazer ouvir.

Alguns alunos do 12.º ano queriam mostrar aos colegas que podem expressar-se e ser ouvidos agora. Ofereceram-se para partilhar histórias vulneráveis e difíceis sobre as suas vidas mas, em vez de usarem as gravações para culpar outras pessoas pelas suas experiências negativas, apontam alguém que foi bondoso com eles e que os ajudou a fazer a vida valer a pena.

“Acho que a série representa bem o que acontece no secundário… o nosso problema com ela é que dava a entender que o suicídio era a única opção e não promovia a saúde mental nem apresentava alternativas,” disse Riley Juntii, a aluna cuja gravação foi a primeira ser transmitida. “Isso foi muito transtornante para nós; queríamos corrigir isso com o nosso projecto.”

Kayla Manzella criou a quarta gravação que foi transmitida na semana passada. Contou que as raparigas da equipa de vólei gozavam tanto com ela que tinha medo de ir aos treinos. Na gravação, a voz dela fica embargada quando fala sobre uma das raparigas lhe ter dito: “Porque é que não te matas?” Kayla diz que se questionou se alguma coisa iria mudar se ela não existisse.

Mas então Kayla fala sobre Alexa Alban, uma colega que foi gentil com ela numa altura em que muito poucos o faziam. Agradece a Alexa por a convencer a não fazer mal a si mesma, simplesmente ao ser sua amiga. Kayla lembra aos colegas que as palavras são importantes – tanto as boas como as más.

Depois de a gravação ser transmitida, Kayla disse numa entrevista que pessoas ao acaso abraçavam-na nos corredores da escola e tinham-lhe enviado mensagens pelo Twitter.

Alexa, que criou a quinta gravação a ser transmitida na escola, onde partilhava histórias sobre ser gozada por causa do peso e desejar ser mais magra, teve uma experiência semelhante. Contou que as pessoas a abordavam para lhe dizer que se identificavam com ela, que tinham orgulho nela e que a achavam muito corajosa.

“A coisa mais importante que quero que as pessoas retirem disto é não terem medo de ter voz. Tinha tanto medo de me impor… Quero que a comunidade perceba que não faz mal ter voz e não faz mal falar, não faz mal sermos nós próprios,” disse Alexa numa entrevista.

O projecto destes alunos do secundário, a que deram o nome apropriado de “13 Reasons Why Not” (“13 razões para não [cometer suicídio]”), também é realizado em memória de Megan Abbott, uma aluna do 9.º ano que se suicidou em 2013 e foi encontrada numa mata atrás da escola. A irmã, Morgan, que anda no 11.º na mesma escola e que ouve estas histórias todas as manhãs, disse ao jornal local Oakland Press News: “Acho que se a Megan tivesse tido uma coisa destas a acontecer na escola quando aqui andava, podíamos ter passado mais tempo com ela.”

As taxas de suicídio feminino nos EUA aumentaram em todas as faixas etárias, à excepção das maiores de 75 anos, desde 1999 e o maior aumento verificou-se nas raparigas com idades compreendidas entre os 11 e os 14 anos, de acordo com os Centers for Disease Control and Prevention.

Só os alunos envolvidos sabiam do projecto quando a gravação de Juntti foi transmitida na escola pela primeira vez, durante os anúncios da manhã, há mais de uma semana. Esta gravação começava da mesma maneira que Hannah Baker, a protagonista da série da Netflix, começava as suas cassetes: “Olá, sou a Riley. Riley Juntti. Não ajustes o som do aparelho onde estás a ouvir isto. Sou eu, ao vivo e em estéreo.”

De seguida, Riley descreve uma relação física e emocionalmente abusiva. Fala sobre as ameaças recebidas por si e pelos amigos e como se habituou a ouvir que não valia nada e que estaria melhor morta, até acabar por acreditar nisso. Mas então, em vez de dizer o nome da pessoa que a magoou, Riley identifica uma amiga que “a viu quando mais ninguém via.”

“Obrigada pela tua bondade, que não posso retribuir”, diz ela. “És uma das 13 razões por que não o fiz.”

Desde que as gravações começaram a ser transmitidas todas as manhãs, Juntti diz que há menos atrasos no primeiro tempo, há silêncio nos corredores e toda a gente está nas salas de aula, ansiosa por ouvir. Ela e os restantes alunos do projecto não ouviram nenhum comentário negativo sobre si ou sobre aquilo que partilharam, conta.

Quando a ideia para o projecto surgiu pela primeira vez, Riley soube imediatamente que queria fazer parte. Conhecia muitas raparigas que tinham sido abusadas sexualmente e magoadas emocionalmente, mas ninguém falava sobre isso. Como já se tinha sentido suicida, sabia como era importante começar o diálogo, para as pessoas saberem que não estavam sozinhas ao sentir-se assim.

Riley disse que muitos colegas, incluindo vários alunos mais novos, entraram em contacto com ela desde que a gravação foi transmitida. Apenas 15 minutos depois da transmissão, uma aluna veio ter com ela e disse que estava numa situação parecida e que queria ser ajudada, contou Riley.

“Estamos a criar um padrão novo para a nossa escola e um ambiente novo. Acho que isto passa a mensagem de que temos de começar a tratar-nos melhor uns aos outros,” disse ela. “Se tiveres um problema, não faz mal ter dificuldades e não faz mal admiti-lo.”

“Quando o suicídio afecta a nossa comunidade, não podemos trazer essa criança de volta,” acrescentou Riley. “Estamos a tentar fazer um projecto antes que isto nos volte a acontecer.”

PÚBLICO/The Washington Post
Tradução: Rita Monteiro

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