rui farinha/NFactos

Cancro

Muitas mulheres não tomam decisões “de qualidade” sobre as reconstruções mamárias

Apenas 52 das 120 inquiridas fizeram escolhas de alta qualidade e fizeram o tratamento que estava de acordo com as suas preferências.

A maior parte das mulheres que sofrem de cancro da mama não tomam decisões sobre a reconstrução cirúrgica baseadas em conhecimentos e de acordo com as suas preferências, sugere um pequeno estudo americano.

“Descobrimos que cerca de 60% das mulheres tinham um conhecimento adequado e cerca de 60% tinha recebido tratamento adaptado às suas preferências”, revela a autora principal do estudo, Clara Lee, do Comprehensive Cancer Center - Arthur G James Cancer Hospital da Universidade Estatal do Ohio e do Richard J Solove Research Institute, na cidade de Columbus.

“Quando reunimos estes valores, 63% tinham tido as duas coisas”, acrescenta.

Lee e os seus colegas escrevem na revista científica JAMA Surgery que a reconstrução cirúrgica depois da mastectomia pode melhorar a imagem corporal e a qualidade de vida da mulher, mas acarreta riscos. Estes incluem necrose, necessidade de fazer mais cirurgias para corrigir problemas, mamas desiguais e problemas com o implante mamário, de acordo com a Sociedade Americana do Cancro.

As melhores escolhas para as mulheres dependem, em parte, dos seus objectivos pessoais, escrevem Lee e os colegas. “Os dois aspectos chave na tomada de decisões – não apenas decisões médicas – são o conhecimento dos factos e o domínio das preferências pessoais”, afirma a especialista.

Para examinar a qualidade, com base nestes critérios, das decisões que as mulheres tomam em relação à reconstrução mamária, os investigadores fizeram um questionário a 126 mulheres com mais de 21 anos que estavam a receber tratamento para o cancro da mama em estádios I, II e III no North Carolina Cancer Hospital, na cidade de Chapel Hill.

O questionário inquiriu as mulheres sobre vários temas para avaliar os seus conhecimentos, incluindo a recuperação, os riscos e os efeitos da radioterapia. Do mesmo modo, inquiriram as mulheres sobre vários assuntos para descobrir quais eram as suas preferências, incluindo que aspecto queriam ter com e sem roupa, o risco aceitável e o tempo de recuperação.

Considerou-se que cerca de 70% das mulheres estavam informadas – o que significava uma pontuação acima de 50% no teste de conhecimentos. O resultado médio foi pouco abaixo dos 59%.

Com base nas preferências, os investigadores calcularam que 67% do grupo preferia apenas a mastectomia, mas só cerca de 48% destas mulheres acabaram por receber esse tratamento.

Calculou-se que o restante terço do grupo preferia a mastectomia com reconstrução, e 88% destas mulheres realizaram estas cirurgias.

Em geral, apenas 52 das 120 inquiridas (43%) fizeram escolhas de alta qualidade, o que significa que as mulheres estavam informadas e fizeram o tratamento que estava de acordo com as suas preferências.

Lee confessa que os investigadores estavam à espera de encontrar défices na qualidade das escolhas, mas não a esta escala. “Penso que a conclusão principal é que as doentes e os cirurgiões precisam de trabalhar em conjunto para tomar estas decisões de melhor maneira do que tomam actualmente”, interpreta.

Por seu lado, Bebak Mehrara, que é chefe do serviço de cirurgia plástica e reconstrutiva no Memorial Sloan Kettering Cancer Center em Nova Iorque, diz que o desafio é fornecer aos doentes informação fácil de compreender e fazer com que tomem decisões a tempo. “Eles são bombardeados com muita informação”, justifica Mehrara, que não esteve envolvido no estudo.

“O material que está disponível na Internet é óptimo, mas não substitui uma conversa com um perito”, alerta o médico. Também Lee refere que é importante que os doentes se defendam quando os médicos não os informam dos riscos ou não lhes perguntam quais são as suas preferências. “O que pode dizer é: ‘não me perguntou isto, deixe-me contar-lhe’”, aconselha.