Emma Marrone durante o ensaio para o programa italiano
Emma Marrone durante o ensaio para o programa italiano DR

Televisão

Para a televisão italiana apalpar uma artista é uma partida

A cantora Emma Marrone foi tocada várias vezes e pediu para parar. Vídeo do incidente mostra que o "abuso é normal", dizem activistas.

O programa de televisão italiano Amici di Maria De Filippi está a dar que falar e não é por boas razões. Num acto encenado pelo programa de talentos e classificado como uma partida, a antiga concorrente da Eurovisão Emma Marrone foi apalpada várias vezes por um dos dançarinos durante o ensaio, apesar das constantes tentativas de rejeição por parte da cantora.

No vídeo partilhado pela página oficial de Facebook do programa, é possível ouvir um narrador descrever aquilo que o telespectador está prestes a ver. Antes de Emma chegar ao palco, a voz explica que um “bailarino cúmplice [do programa] vai-se mostrar muito atraído pelo seu corpo”. Visivelmente desconfortável, Emma Marrone tenta afastar o dançarino todas as vezes em que o mesmo se encosta a ela, lhe dá beijos e passa a mão pelo seu corpo. Por fim, após a cantora discutir com o bailarino e ameaçar abandonar o programa, os produtores revelam que tudo não passou de uma partida.

O vídeo foi reproduzido durante o programa e foi recebido com risos e aplausos por parte da audiência, apresentadores e convidados, incluindo a própria Marrone. Contudo, a cantora admitiu mais tarde noutro programa de televisão: “Naquele momento senti emoções muito fortes”.

Após a transmissão do episódio na segunda-feira à noite, foi lançada uma petição que pede a introdução de novas regras sobre como os meios de comunicação devem tratar a violência sexual. A petição já reuniu mais de dez mil assinaturas, noticia o jornal The Independent. Além do pedido de um novo código de ética, activistas querem que os produtores responsáveis pelo incidente se demitam.

Em entrevista ao jornal The Local, a activista do direito das mulheres Cristiana De Lia alertou para os riscos da divulgação deste tipo de conteúdo: “Num país como Itália, que apresenta altos níveis de femicídio [crimes de ódio motivados pelo sexo que resultam na morte de mulheres] e violência contra a mulher, os meios de comunicação estão a contribuir para uma cultura perigosa.”

A activista acrescentou ainda que os danos causados pelo vídeo foram particularmente grandes devido à audiência composta maioritariamente por jovens. “Além de afectar a cantora, uma ‘piada’ como esta afecta vítimas de violência e abuso, fazendo-os acreditar que o abuso é normal, tão normal que até nos devemos rir”, explicou.

No Twitter, a organização Non Una Di Meno reprovou a atitude do programa. “A violência não é algo para fazer rir”, lê-se na publicação.