daniel rocha / PUBLICO

Livro

O que podem aprender os pais com os animais selvagens

A bióloga e professora Jennifer L. Verdolin dá pistas sobre o que aprender sobre educação com os animais.

Enquanto dão à luz, as mães golfinho-nariz-de-garrafa assobiam constantemente. Porquê? Quando o recém-nascido emerge para nadar num mar de golfinhos ele vai ser mais capaz de localizar a mãe porque reconhece o seu assobio. Esta é apenas uma das observações fascinantes que a comportamentalista animal Jennifer L. Verdolin descobriu com o seu trabalho, que consiste em aprender sobre os nascimentos, a educação das crias e os hábitos de abandono do ninho dos animais selvagens.

Verdolin, que é bióloga e professora na Universidade Duke, nos EUA, partilha os seus conhecimentos no livro Raised by Animals: The Surprising New Science of Animal Family Dynamics (qualquer coisa como “Criados por Animais: A nova e surpreendente ciência das dinâmicas familiares dos animais”). No livro, Verdolin compara o comportamento animal ao comportamento humano e explica como podemos usar esta informação para sermos melhores pais.

Qual foi o seu objectivo ao escrever este livro?
Jennifer Verdolin: O objectivo derradeiro era ajudar os pais e as pessoas a compreenderem que algumas coisas que achamos que são apenas humanas são muito semelhantes ao que acontece com os animais. O objectivo era reflectir e falar sobre o que significa ser pai ou mãe e como criar a nossa própria versão de família.

A nível pessoal… eu era a miúda que desenterrava coisas e queria pegar em coisas. Tinha porquinhos-da-índia e pássaros. Queria muito estar perto dos animais. Quando cresci, esse sentimento nunca me deixou, mas fiquei interessada em saber porque é que eles fazem o que fazem.

Como escolheu os animais em que se iria focar?
Analisei a investigação que tinha sido feita e quis encontrar animais que fossem inesperados para as pessoas. Por exemplo, as cobras-cegas ou cecílias, uns répteis que amamentam, não têm patas e que são anfíbios semelhantes a cobras, mas mais pequenos. Escolhi-as porque não são consideradas parecidas (connosco).

Todos temos de alimentar os nossos filhos e podemos fazê-lo de diferentes maneiras. Para os humanos, podemos amamentar ou dar o biberão. No caso das cobras-cegas, a mãe põe ovos e as crias nascem mas, entretanto, ela torna a sua pele mais espessa com proteínas muito semelhantes às que se encontram no leite materno dos humanos. Assim, a camada exterior da pele engrossa com gordura e proteínas; quando as crias nascem, têm dentes pequeninos e comem essa camada exterior da pele da mãe.

Conta que, na natureza, os progenitores animais normalmente ignoram as birras.
Os cães-da-pradaria começam a fazer birras quando não querem ser desmamados. Tal como os nossos filhos, eles atiram-se para o chão, berram, gritam e choram.

Um cão-da-pradaria mãe, que não queria continuar a amamentar, não se deixou convencer. Ela começou a afastar-se com a cria agarrada a ela, a pular. Foi uma forma muito pouco dramática de dizer “Já não te vou alimentar mais”.

O que mais a surpreendeu na investigação?
Houve tantas coisas que achei notáveis. A paciência que os animais têm e como eles têm tanto cuidado em nunca ser fisicamente agressivos com as crias, a não ser que haja um problema com o progenitor ou para proteger a cria.

Pode explicar melhor?
Os macacos-de-gibraltar – podem fazer birras, normalmente na altura do desmame, e a forma como os progenitores lidam com isso é, basicamente, ignorá-los. Não fazem dramas. Podem ceder ou ignorar as crias, mas não há nenhum drama.

Mas não são fisicamente agressivos.
Não faz sentido magoar fisicamente a cria. É relativamente raro para um animal repreender as crias de maneira física. É bastante comum nos humanos. Para os progenitores animais, há muitos passos antes de chegar a um correctivo físico; normalmente, isso serve para proteger o animal de um perigo ainda maior – basicamente, puxá-los do meio do caminho, uma situação de emergência.

O que é que isto diz sobre os pais humanos?
Nós subestimamos o grau de paciência que é necessário para educar uma criança sem agressões físicas ou verbais. Isso gera obediência, talvez, mas é uma obediência baseada no medo e não na aprendizagem. Os animais estão mais concentrados em ensinar.

O que é que os animais parecem saber sobre a paternidade que os humanos não compreendem?
Eles sabem que as suas vidas se baseiam completamente em dedicar tudo o que fazem a criar filhos que se irão tornar adultos de sucesso. Nós subestimamos o quanto isso exige da nossa atenção e concentração.

Por exemplo?
No caso dos elefantes, a cria e a mãe estão em contacto físico próximo 24 horas por dia, até uma certa altura. Nós criámos situações em que esperamos que os bebés lidem bem com estar sozinhos, mas não somos feitos para isso. Em bebés, estamos programados para ter adultos por perto a toda a hora. Nos bebés, o cortisol, a hormona do stress, aumenta quando eles são separados da mãe ou do pai. Se pusermos um bebé a dormir noutro quarto e não dormirmos no mesmo – não na mesma cama, no mesmo espaço – a investigação revela que as hormonas de stress do bebé aumentam imenso.

Uma mãe orangotango não põe a cria num ninho à parte… Criámos uma sociedade em que não podemos levar os nossos bebés para o trabalho. Temos casas gigantes onde os bebés dormem num quarto ao fundo do corredor em vez de dormirem no quarto connosco. Houve muitas mudanças na sociedade moderna e os bebés não mudaram muito. Os animais não têm de lidar com este problema.

E, ainda assim, refere que os filhos de “pais-galinha” não sobreviveriam durante muito tempo na natureza.
Como é que os progenitores animais e os humanos decidem quando se pode dar o salto para a independência? Alguns animais são o oposto dos “pais-galinha”. No caso dos gansos-de-faces-brancas, as crias são atiradas de um penhasco e muitas morrem. Isto é o mesmo que lançar um filho no mundo – “tens 18 anos, vai-te embora, para mim acabou” – sem nunca lhe ensinarmos nada entretanto.

Depois há aqueles pais que acompanham os filhos às aulas na universidade. O que sabemos sobre os estudantes universitários com estes pais sobreprotectores e autoritários é que têm mais ansiedade e menos confiança no que toca a orientar-se no mundo. Um dos desafios é compreender quando dizer “não” e quando dizer “sim”, e não projectarmos os nossos próprios medos.

Os nossos filhos comunicam quando estão preparados para isso – e, às vezes, não estão preparados – mas, ao mantê-los tão perto de nós e não lhes ensinando coisas que podiam fazer sozinhos, estamos a prejudicá-los.

Se uma criança quer cozinhar mas não está totalmente preparada para o fazer sem a preocupação de poder pegar fogo à casa, podia envolvê-los no processo pouco a pouco, em vez de dizer “És muito novo para fazer isso”. Eles vão desenvolver muito mais confiança nas suas capacidades se conseguirem aprender aos poucos.

Digamos que o objectivo é ensinar uma cria de chita a caçar. Eles não a atiram ao Serengeti e dizem, “Pronto, vai buscar a presa”. Há um processo incremental de todos os passos envolvidos na educação de um filho bem-sucedido, dependendo dos seus objectivos.

O que quer que os leitores aprendam com o livro?
Espero que aprendam que não há uma maneira correcta de educar nem famílias perfeitas. Podem retirar algumas ideias e novas estratégias que podemos copiar dos animais. Espero que sintam menos culpa e ressentimento sobre serem pais e compreendam que ter um filho e criá-lo com sucesso para serem tudo o que desejamos – serem bem ajustados, felizes e bem-sucedidos – é uma tarefa gigantesca. E que vejam nisto algum humor e gargalhadas, e que sintam uma maior afinidade.

Quais são os seus próximos projectos?
Outro livro. Não sou capaz de parar de olhar para o mundo desta maneira – “Uau, isto também acontece nos animais: o que será que podemos aprender com eles sobre isto?”

PÚBLICO/The Washington Post
Tradução: Rita Monteiro