• No hall de entrada, os pássaros e o café convidam a subir até ao 1.º andar
    No hall de entrada, os pássaros e o café convidam a subir até ao 1.º andar
  • Sala Granado
    Sala Granado
  • Espaço de Jader Almeida
    Espaço de Jader Almeida
  • Espaço de Sergio Rodrigues
    Espaço de Sergio Rodrigues
  • Sala Lenny Niemeyer
    Sala Lenny Niemeyer

Brasil

À descoberta do Brasil num palacete lisboeta

A Pau-Brasil reúne 17 marcas brasileiras no palacete Castilho, na zona do Príncipe Real, em Lisboa. A inauguração é este sábado.

Não faltam referências à ex-colónia portuguesa na zona do Príncipe Real, em Lisboa, onde inaugura neste sábado o espaço Pau-Brasil – uma concept store com marcas brasileiras de moda, design e beleza, música e literatura. Para começar, o título Príncipe Real estabeleceu-se quando em 1815 o Brasil foi elevado à categoria de reino e consequentemente o herdeiro do trono passou a designar-se Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, de acordo com um alvará de 1817

Depois, a praça central onde está o jardim do Príncipe Real "chamou-se Praça do Rio de Janeiro, no início do século XX", conta o responsável pelo Pau-Brasil, Rui Gomes Araújo.

O Príncipe Real já tem no Palácio Ribeira da Cunha uma Embaixada de marcas portugueses. Agora, algumas portas ao lado, no palacete Castilho, surge uma loja (ou, como os seus fundadores lhe preferem chamar, uma casa) onde estão reunidos alguns dos "melhores produtos" do Brasil – um país com uma economia pouco aberta, onde o comércio se foca sobretudo no mercado interno. 

Onde uns vêem um entrave, Rui Gomes Araújo encontrou uma oportunidade: “por ser fechado, absolutamente inexperiente a sair, significa que marcas com enorme potencial nunca estiveram, profissionalmente trabalhadas, fora do Brasil”. O dono da Pau-Brasil – que viveu durante anos no Rio de Janeiro e em São Paulo e tem antepassados naquele país – desde há cinco anos que representa e distribui marcas brasileiras na Europa e, por isso, sentiu a necessidade de as dar a conhecer num espaço integrado.

Procurou então por outras marcas com uma pegada brasileira e que tivessem vocação para crescer no mercado externo.

Veja-se o caso da Granado, uma marca de cosmética fundada em 1870 pelo português Coxito Granado – e mais tarde vendida pelo seu bisneto a um inglês. Enquanto tem no Brasil uma rede de 52 lojas próprias e 200 mil pontos de venda, a presença na Europa é tímida – com um corner no grande armazém Le Bon Marché, em Paris. Agora, chega a Portugal.

Recentemente, a gigante da perfumaria espanhola Puig adquiriu 35% da Granado, e esse dinheiro deverá ser canalizado para a expansão na Europa, conta a directora de marketing e vendas, Nazish Munchenbach.

Em conversa com o Life&Style, Rui Gomes Araújo lança a pergunta que com certeza estará na mente de várias pessoas: como é que uma marca como a Granado, "com mais de 140 anos, não estava fora do país?”

Suba com o café e o pássaros

As 17 marcas da Pau–Brasil – cujo nome deve à obra de 1925 de Oswald de Andrade – instalaram-se no 1.º andar do edifício Castilho, sendo que o rés-do-chão está actualmente ocupado pela loja Vintage Department. Para chegar ao andar de cima, é só seguir o cheiro (e grãos) de café e os pássaros suspensos no tecto, que guiam os visitantes do hall de entrada do prédio, pela escadaria.

Chegando ao topo, deparar-se-á com a marca de biquínis Lenny Niemeyer, criada há 20 anos pela estilista carioca – que é a excepção à regra, já que tem uma presença consolidada na Europa e em Portugal. Passando ao lado da Granado, encontrará depois uma das maiores salas da casa brasileira, onde estão, por exemplo, a marca da estilista da Bahia Juliana Herc e o chocolate da Q – uma empresa familiar –, “produzido a partir de uma única fazenda, de uma única safra [colheita] e de um único lote”.

Seguindo para o extremo oposto da casa – sob a luz dos candeeiros cujos abajours são cocos –, a últimas duas salas estão reservadas ao design de mobiliário. Quem as ocupa são designers como Jader Almeida e o incontornável Sérgio Rodrigues – que desenha para a marca LinBrasil. À data da apresentação à imprensa, estavam ainda por chegar as peças de madeira de Hugo França – uma delas pesaria "toneladas” e seria acrescentada ao hall de entrada, no rés-do-chão.

Na casa Pau-Brasil há também espaço para as artes. O objectivo do projecto, reforça Rui Gomes Araújo, é mostrar o Brasil como um todo e “misturar comércio e cultura”. O empresário reconhece que a etiqueta “made in Brasil” não tem grande valor e por isso há a necessidade de explicá-la ao mundo. A estratégia: “copiar aquilo que os americanos souberam fazer muito bem e embrulhar este comércio com um package cultural”, revela. “Os americanos venderam o american way of life”, sublinha. 

Assim, juntaram-se a algumas das principais instituições culturais do Brasil, criaram uma parceria com o Instituto Moreira Salles e deram também espaço aos livros da Capivara – a editora do grande coleccionador Pedro Correia Duarte – e à música da editora Biscoito Fino – que faz a curadoria musical do espaço.

Em busca do genuíno

Foi numa viagem a Paris que o escritor e dramaturgo Oswald de Andrade descobriu o seu país. “A volta á patria confirmou, no encantamento das descobertas manuelinas, a revelação surprehendente de que o Brasil existia”, escreveu Paulo Prado, em 1924, para introduzir os versos de Oswald de Andrade em defesa da cultura genuína do Brasil. “Estava creada a poesia ‘pau-brasil’”, conclui a nota introdutória do livro de poesia do autor brasileiro que foi oferecido ao Life&Style.

Oswald de Andrade, a par de alguns dos seus contemporâneos modernistas e em contra-corrente com aquilo que era a norma, defendia uma cultura de não importação e de valorização daquilo que era nacional. Num português arcaico, fala da “paisagem” de palmeiras com cocos grandes à vista do mar, e da “Civilizaçao Pernambucana”.

“O que nós vamos continuar quase 100 anos depois é fazer isto comercialmente”, ou seja, valorizar e vender o melhor que o Brasil tem, promete Rui Gomes Araújo.