• Melania à chegada da Joint Base Andrews, acompanhada pelo marido e filho
    Melania à chegada da Joint Base Andrews, acompanhada pelo marido e filho Reuters/YURI GRIPAS
  • Melania à chegada da Joint Base Andrews
    Melania à chegada da Joint Base Andrews Reuters/YURI GRIPAS
  • Barron, Melania e Donald Trump, no evento de Páscoa organizado pela Casa Branca
    Barron, Melania e Donald Trump, no evento de Páscoa organizado pela Casa Branca Reuters/JOSHUA ROBERTS
  • A primeira-dama lê o livro
    A primeira-dama lê o livro "Party Animals" às crianças, no evento de Páscoa organizado pela Casa Branca Reuters/JOSHUA ROBERTS
  • Durante o evento de Páscoa organizado pela Casa Branca
    Durante o evento de Páscoa organizado pela Casa Branca LUSA/OLIVIER DOULIERY / SIPA POOL
  • Durante o evento de Páscoa organizado pela Casa Branca
    Durante o evento de Páscoa organizado pela Casa Branca LUSA/OLIVIER DOULIERY / SIPA POOL
  • Durante o evento de Páscoa organizado pela Casa Branca
    Durante o evento de Páscoa organizado pela Casa Branca LUSA/SHAWN THEW
  • Melania visita a Excel Academy Public Charter School, em Washington
    Melania visita a Excel Academy Public Charter School, em Washington Reuters/Joshua Roberts
  • Donald e Melania Trump e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe caminham para posar para uma fotografia, antes do jantar em Mar-a-Lago
    Donald e Melania Trump e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe caminham para posar para uma fotografia, antes do jantar em Mar-a-Lago Reuters/CARLOS BARRIA
  • Durante a visita do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu
    Durante a visita do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu Reuters/KEVIN LAMARQUE
  • Durante a tomada de posse de Donald Trump
    Durante a tomada de posse de Donald Trump LUSA/JUSTIN LANE
  • Melania acompanha Donald Trump num evento em Melbourne, na Florida, em Fevereiro de 2017
    Melania acompanha Donald Trump num evento em Melbourne, na Florida, em Fevereiro de 2017 Reuters/KEVIN LAMARQUE
  • Um momento partilhado pelo casal, durante a campanha eleitoral
    Um momento partilhado pelo casal, durante a campanha eleitoral Reuters/CARLO ALLEGRI

Melania Trump

Melania Trump: um enigma de saltos altíssimos

As opiniões sobre a primeira-dama dos Estados Unidos divergem entre elogios e desprezo, mas a verdade é que pouco se sabe sobre as intenções de Melania Trump.

Os paparazzi já não a vigiam na escola privada do filho nem a procuram nas ruas ao redor da torre que o marido, o Presidente dos Estados Unidos, baptizou em honra de si próprio. 

Tal como as legiões de nova-iorquinos que hibernam nos seus apartamentos, Melania Trump é praticamente uma reclusa — o seu refúgio fica 58 andares acima das massas e contém ouro suficiente para envergonhar um príncipe saudita. 

“Ela é a grande baleia branca”, afirmou Miles Diggs, um paparazzo, numa tarde em que, com um parceiro, estava à caça de celebridades num Chevy Suburban equipado com câmaras e um computador portátil. Andavam à procura da actriz Emma Watson e, ao contrário do que acontece com Melania, estavam confiantes de que a iam encontrar. 

“Nisto de apanhar pessoas eu não falho”, disse Diggs. “Mas Melania tem sido muito esquiva.” 

Mais de dois meses depois da tomada de posse do marido, a nova primeira-dama dos Estados Unidos encara o seu papel com uma reticência visível. A sua escassa presença em actos públicos — todos eles marcados por sorrisos tensos e poucas palavras — é ofuscada por um desaparecimento que se prolonga por dias sem fim. 

No entanto, ao retirar-se para o seu triplex no centro de Manhattan, onde se diz que toma conta de Barron — o filho de 11 anos dos Trump —, a primeira-dama chama ainda mais a atenção. Um coro cada vez mais ruidoso de fofoqueiros, comentadores, historiadores e até especialistas em linguagem corporal examinam todos os seus movimentos, escolhas de roupa e expressões faciais, de modo a descobrir qual é o verdadeiro “estado de Melania”. 

Boa sorte com isso. 

Melania Trump inspira elogios naqueles que vêem no seu olhar inescrutável uma mãe elegante e dedicada que está a definir um novo papel para a primeira-dama. Inspira simpatia naqueles que a imaginam a cativa infeliz do Presidente, com a segurança da sua penthouse transformada em prisão a custar aos contribuintes montantes ofensivos de dinheiro. E inspira desprezo naqueles que a pintam como a principal incitadora do marido, que tolera as suas declarações sexistas e anti-imigração. 

“Melania Trump é tão feia por dentro como é bonita por fora”. Foi assim que Dan Savage, colunista e activista gay, a descreveu num podcast recente. Savage atacou “as pessoas de esquerda” que “a vêem como uma figura que merece compaixão — a bonita princesa fechada na torre pelo ogre cor-de-laranja com uma careca mal disfarçada.” 

A hashtag #FreeMelania (libertem Melania) tornou-se parte essencial da linguagem do Twitter, enquanto perguntas sobre o casamento dos Trump inspiram manchetes como “A Luta de Melania” — uma história da revista Us Weekly que dizia que a primeira-dama está “secretamente muito infeliz”. O artigo incluía uma entrevista a um “amigo da família” que reconheceu mais tarde que as suas informações podiam não ser correctas por não falar com Melania há vários anos. 

As poucas aparições de Melania forneceram poucas pistas — o seu sorriso está fixo, quer esteja a assistir ao discurso do marido no Congresso, a saudar o casal Netanyahu na Casa Branca ou a assistir a uma angariação de fundos do Partido Republicano em Mar-a-Lago. 

Só as roupas de alta-costura parecem mudar — num dia, um vestido preto Ralph Lauren; noutro dia, um vestido vermelho Givenchy. 

Circunspecta e reservada

Um dos raros momentos em que a primeira-dama falou em público foi quando leu, em Março, o livro Oh the Places You’ll Go!, do Dr. Seuss, a crianças num hospital de Manhattan. O seu sotaque esloveno era tão evidente como o enorme anel de diamantes e os saltos altíssimos. 

“Vais ser o mais famoso possível, com o mundo inteiro a ver-te vencer na televisão”, recitou ela, a partir do livro. 

Melania sorriu e pareceu receptiva quando Tara McKelvey, uma jornalista da BBC, a abordou com uma pergunta. “Mas os assessores chegaram, levaram-na e fizeram-na posar para uma fotografia”, contou McKelvey. “Ela queria responder. Estava a tentar responder.” 

Alguns dias depois, Melania foi a anfitriã de um almoço na Casa Branca para celebrar o Dia Internacional da Mulher. No início do almoço, os convidados puseram-se de pé e aplaudiram depois de alguém (com uma voz apropriadamente baixa) ter anunciado: “Senhoras e senhores, a primeira-dama dos Estados Unidos.” 

Melania Trump entrou, caminhou até à tribuna, sorriu e disse: “Excelências, estimados representant…” 

Ninguém, excepto os presentes na sala de jantar, sabe o que ela disse a seguir, porque os assessores da Casa Branca mandaram a imprensa sair. 

Karen LeFrak, uma amiga que esteve na sessão na Casa Branca, escreveu num email que Melania Trump “não organizou o almoço para ter publicidade” e que ela “não anda à procura de atenção”. Quando descreveu a adaptação da amiga, LeFrak disse que ela está a “criar um papel importante para apoiar as mulheres e as crianças” e a “redecorar a residência familiar na Casa Branca”, para onde se vai mudar depois de Barron terminar o ano lectivo. 

“A Sra. Trump está a gostar da sua vida e do seu novo papel”, escreveu LeFrak, mulher do construtor Richard LeFrank, um amigo de longa data do Presidente. Quanto ao casamento dos Trump, LeFrak escreveu: “Eles estão muito felizes! A relação deles é óptima.” “Todos estes rumores ferozes sobre ela e sobre a relação deles são ridículos e fictícios”, garantiu. 

A primeira-dama ainda não contratou um porta-voz só para ela. Stephanie Grisham, a vice-secretária de imprensa da Casa Branca, declarou que a primeira-dama “vai juntar-se ao Presidente em breve.” Ela está “focada em Barron enquanto ele termina o ano”, acrescentou. 

Louise Sunshine, uma antiga executiva da Trump Organization, falou com a primeira-dama meia dúzia de vezes desde as eleições. Descreveu-a como “circunspecta” e “muito serena e reservada”, enquanto assimila os seus novos deveres e aprende a lidar com o Presidente e os seus conselheiros — um círculo que Sunshine comparou a “um covil de lobos”. 

“Há muitas forças a competirem por atenção”, disse Sunshine. “Ela está a tentar avaliar qual é o melhor lugar para ela como primeira-dama e como mulher de um Presidente muito impulsivo, compulsivo e errático. Digamos que é um Presidente errático e bem-sucedido.” 

“[Melania] não se envolve em mexericos, não conta a ninguém os seus pensamentos mais íntimos, não confia muito nas pessoas”, disse Sunshine. “Faz tudo com bastante ponderação. É completamente diferente do Donald, o que é bom sinal. Ela reflecte sobre as coisas e fala de maneira ponderada.” 

A tarefa de Melania é muito mais complexa, segundo Sunshine, porque o Presidente é a estrela do seu espectáculo individual. 

“Ele dança sozinho”, disse Sunshine. “Não se interessa pelo tango.” 

Uma excepção à regra aconteceu um mês depois da tomada de posse, quando o Presidente e a primeira-dama partilharam um palco. Melania apresentou o marido num comício na Florida, tirando os óculos de sol enquanto avançava para o microfone e, a propósito de nada, defendeu-se de ataques que não especificou. 

“Vou sempre ser fiel a mim mesma e verdadeira convosco”, prometeu a primeira-dama. “Independentemente do que a oposição disser sobre mim.” 

Ausências

Numa segunda-feira, o destacamento dos Serviços Secretos de Barron Trump foi buscá-lo à escola no Upper West Side e entregou-o na torre da 5.ª Avenida que o pai tornou famosa. A gama de jóias de Ivanka Trump está em exibição na entrada. Os visitantes podem encontrar livros, canecas e after-shave com o nome e o rosto do 45.º Presidente. 

Aqui, a primeira-dama é invisível. 

Nem a cara nem o nome dela aparecem em T-shirts, frascos de champô ou ímanes para o frigorífico. Também é impossível encontrá-la no Trump Bar ou no Trump Grill. Esta ausência não é problema para Georgianne Crager e Cherryl Nance, duas amigas com casacos de pele que vieram do Missouri para fazer uma visita. 

“Não a vemos a fazer sorrisos falsos para os fotógrafos porque ela é mãe em primeiro lugar”, disse Crager, de 61 anos, que é enfermeira. “Uma mulher fantástica! Não percebo porque é que os liberais se metem com ela.” A amiga concordou. 

“Tenho pena que ela tenha perdido a liberdade. Mas admiro-a por dizer que ia ficar aqui”, acrescentou Crager. 

Hillary Clinton não ficou no Arkansas com Chelsea, então com 12 anos, quando o marido se mudou para Washington. Em vez disso, ocupou um gabinete na Ala Oriental, mergulhou na restruturação dos serviços de saúde e levou a Associação Americana de Advogados a debater se ela não teria demasiado poder. 

Depois de o marido se ter tornado Presidente, Michelle Obama, ao mesmo tempo que tomava conta das duas filhas, passou as primeiras semanas a ser inundada de elogios enquanto fazia visitas a várias agências federais, lia para crianças em escolas e aparecia na capa da Vogue

Melania Trump causou uma impressão muito diferente. Pouco depois das eleições, anunciou que ia ficar em Nova Iorque até Junho — uma decisão que levantou dúvidas sobre o afecto que tinha ao marido, casado três vezes. 

Apesar de Melania aparecer de vez em quando, as suas ausências inquietam os puristas que apontam Jacqueline Kennedy e Nancy Reagan como exemplos de uma rectidão ne apoio inabalável ao Presidente. “[A presença da primeira-dama na Casa Branca] é uma tradição importante e faz parte da pompa e circunstância deste país”, disse Robert Watson, um professor da Universidade de Lynn que estudou as famílias dos presidentes. “E esse aspecto é mais importante do que Melania e Barron.” 

No entanto, a abordagem de Melania Trump ao lugar de primeira-dama pode servir para redefinir a posição e “acabar com um papel anacrónico”, afirmou Katherine Jellison, professora de História da Universidade do Ohio. “Trata-se de ser a mulher de um homem importante e, sem querer, ela pode estar a desmantelar este papel.” 
“Tudo indica que ela não quer ser primeira-dama — acrescentou Jellison —, não se trata de não querer dar nas vistas, trata-se de não ser vista.” 

Melania, a solitária? 

Antes de se tornar na Sra. Trump, Melania Knauss era uma modelo cujas maçãs-do-rosto prominentes e os olhos azuis penetrantes roubaram a atenção do criador Phillip Bloch, que a viu num desfile de moda em Manhattan. 

“Lembro-me de pensar: “Uau!, ela é linda, vai ser uma estrela”, recorda Bloch. Melania também transmitia distanciamento e a sua visibilidade no circuito da moda de Nova Iorque — que nunca foi muito grande — tornou-se menos frequente depois do nascimento de Barron. 

Ao longo dos anos, as publicações de Melania Trump no Facebook sugeriram alguma solidão. As suas fotografias costumam não ter pessoas e são tiradas através de vidros — da janela do carro ou do apartamento —, como se o seu ponto de vista partisse do interior de um aquário de luxo. 

“Chuva de Verão em NYC”, escreveu ela como legenda de uma fotografia de uma janela salpicada de chuva com vista para o Central Park. “Conduzir entre arranha-céus”, foi o título que deu a uma fotografia debaixo de torres de vidro e nuvens. 

“Adeus! Vou para a minha casa de #verão”, anunciou numa rara selfie tirada numa casa de banho. Sem sorrir, os seus olhos estão escondidos por trás de uns óculos escuros enormes. O espelho dourado por trás dela mostra o reflexo de uma sanita. 

Anthony Senecal, antigo mordomo dos Trump em Mar-a-Lago, transportava ocasionalmente Melania em West Palm Beach, na Florida — para ir às compras a lojas de roupa e ao supermercado Whole Foods. Contou que Melania tem uma amabilidade que o público raramente vê. Uma vez, quando estava sozinha em Mar-a-Lago, afirmou Senecal, ela incentivou-o a tirar férias para ir visitar a irmã, que estava a morrer.

“Ela disse: ‘Tony, aqui consigo ter tudo — trazem-me tudo o que eu pedir. É melhor ires ter com a tua irmã’”, recorda ele. Mas também acrescentou: “Quando o Donald estiver cá, tens de ficar.” 

A simpatia de Melania, segundo Senecal, costuma estar escondida por uma máscara de contenção. “Ela adapta-se, é apenas isso”, contou. 

Doze dias depois da tomada de posse do Presidente Trump, depois de Melania regressar a Nova Iorque, Jae Donnelly (um fotógrafo freelance) fotografou a primeira-dama e Barron Trump a entrarem num consultório de dentista perto da Trump Tower. 

Donnelly não quis revelar como soube do destino deles, mas dentro de poucas horas a imagem estava no site do Daily Mail e circulava na Internet, com um título que dizia que ela andava nas suas “tarefas”. 

Donnelly já não segue Melania. “As oportunidades são tão poucas”, disse, “e podíamos ficar à espera durante dias.” 

Na baixa de Nova Iorque, enquanto andavam à caça de celebridades em meados de Março, Diggs e o parceiro, Cesar Pena, fizeram as contas a um dia de trabalho: fotografaram Malia Obama a entrar num prédio de escritórios em Tribeca, Robert DeNiro à saída de um restaurante, o actor Michael Coltreras a comprar desodorizantes numa Duane Reed. 

Deixaram de tentar apanhar a primeira-dama no Outono passado, depois de uma tentativa falhada na escola de Barron. Mas, do seu ponto de vista interesseiro, acreditam que ela podia fazer com que o público se afeiçoasse mais a ela com uma saída inesperada de vez em quando. 

“Uma fotografia dela a sair do Barney’s carregada de sacos de compras”, disse Diggs, imaginando as manchetes: “A primeira-dama compra como se não houvesse amanhã.” “Consegue imaginar como isso ia vender?”, perguntou. 

Mas não é certo se Melania Trump quer que as pessoas vejam mais do que o seu sorriso ensaiado. 

Na noite antes da tomada de posse, acompanhou o marido a um concerto no Memorial Lincoln. Antes, numa tenda nos bastidores, o Presidente-eleito gracejou durante 20 minutos com os conselheiros e um voluntário da campanha que tinha viajado até Washington para as celebrações e um repórter. Enquanto isto, a primeira-dama ficou sentada numa cadeira desdobrável ao lado do marido, imóvel e calada como um manequim, como se estivesse alheia à cavaqueira que a rodeava. Com Justin Jouvenal 

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Tradução de Rita Monteiro