Rui Gaudencio

Educação

As notas do seu filho no 3.º ciclo não são lá muito boas? Eis algumas dicas de uma professora e mãe

Para ajudar os nossos filhos e alunos a persistir quando querem desistir, temos de mudar as nossa atitude mental e temos de encorajar as crianças a fazer o mesmo.

Uma estudante universitária olhou para mim, decepcionada. Queria estudar Relações Internacionais e acabava de perceber que lhe era exigido que dominasse pelo menos duas línguas. “Adoro viajar e acho que seria um curso incrível, mas preciso de escolher uma coisa mais prática,” disse-me. “Não consigo aprender uma língua estrangeira. Nunca fui boa a isso.”

Esta conversa aconteceu no Verão passado, quando eu trabalhava no Apoio ao Estudante da minha universidade para ajudar os novos alunos do 1.º ano a escolher um curso e a dar início ao seu percurso académico.

Coloquei à aluna mais algumas perguntas. Ela explicou-me que, quando andava no 9.º ano, tinha-se inscrito em Francês e tinha tido dificuldades durante todo o semestre. Desistira da disciplina e desde então não tinha estudado nenhuma língua estrangeira.

A história dela fez-me lembrar a minha. A certa altura, quis especializar-me em Direito Internacional, mas convenci-me de que nunca seria capaz de aprender uma língua estrangeira. Tal como a rapariga à minha frente, eu tinha uma atitude mental fixa sobre as minhas capacidades para aprender línguas e não havia nada a fazer.

Pelo menos, era isso que eu pensava.

Brian Dassler, que foi vice-director do Departamento de Educação da Florida [uma espécie de Ministério da Educação do estado], dedicou a vida a ajudar alunos a ter sucesso. Enquanto educador, inspirou as crianças com o seu optimismo, criatividade e paixão. Enquanto líder, inspirou os educadores e o país a fazer o mesmo.

Na sua TEDx talk “Why We Persist at Some Things but Quit at Others” (“Porque persistimos em certas coisas mas desistimos de outras”) Brian respondeu à pergunta que parecia permear todos os aspectos da sua vida. Fiquei destroçada ao saber que Brian morreu subitamente na semana passada e, apesar de já ter visto esta palestra, sentei-me para a rever depois de saber a notícia.

Enquanto assistia ao vídeo, lembrei-me da aluna que fugia de um curso de Relações Internacionais, pensei no meu filho – que não queria concentrar-se a aprender a tocar guitarra, apesar de adorar a ideia de pertencer a uma banda. Mas, sobretudo, reflecti sobre as minhas dificuldades. Se conseguisse ajudar os meus alunos e os meus filhos a evitarem uma atitude mental fixa, por acreditarem que não eram suficientemente inteligentes, sabia que ia dar-lhes uma dádiva importante.

A palestra e a obra de Brian ensinaram-me muitas coisas. Espero poder partilhá-las para o resto da vida.

Brian sugeriu que a nossa atitude mental – ou seja, a história que contamos a nós próprios – é a chave para superar a adversidade. Inspirando-se na obra da Dr.ª Carol Dweck, que concluiu que “quando os alunos acreditam que podem tornar-se mais inteligentes, compreendem que o esforço os torna mais fortes”, Brian encorajou os educadores a desafiar o discurso sobre o sucesso, tanto nos alunos como em nós próprios. Em vez de dizermos que um aluno “não consegue” fazer qualquer coisa, deu-nos instruções para pensarmos que o aluno simplesmente “ainda não consegue”. Quando acreditamos que as nossas capacidades podem melhorar através do esforço, temos uma atitude mental progressiva. Ao explorar as histórias que contamos a nós próprios, Brian explicou que podemos alterar o nosso diálogo interno e passar de acreditar que as nossas capacidades são fixas para confiar que as nossas capacidades são maleáveis. Na sua TEDx talk, Brian revelou que uma vez uma professora lhe tinha contado que na sua escola tinha havido uma troca de horários em que as crianças que não se pensava estarem no nível mais elevado de ciências foram acidentalmente colocadas numa turma de ciências mais avançada. Os alunos saíram-se bem. A professora disse a Brian: “Se calhar, todas as crianças conseguem ter uma atitude mental 'avançada'.”

“A inteligência não é o que somos; é o que fazemos”

Brian lembra-nos de que “as dificuldades são normais e todos passamos por elas”. Na sua palestra, Brian falou sobre um estudo feito no Texas em que foram atribuídos mentores a alunos do 8.º ano. Um grupo recebeu orientações sobre os perigos de consumir drogas. Os mentores do outro grupo concentraram-se em ajudar os alunos a ter uma atitude mental progressiva. Ensinaram a estes alunos que “o cérebro, como qualquer músculo, consegue crescer com o esforço”. No fim do ano, os alunos que receberam orientações sobre o valor de uma atitude mental progressiva tiveram mais sucesso do que os que tinham recebido orientações sobre os perigos das drogas.

Enquanto revia a TEDx talk de Brian esta semana, lembrei-me da aluna que tinha conhecido no Verão anterior. No próximo Verão, vou voltar ao Apoio ao Estudante e trabalhar com centenas de outros alunos que se debatem com as suas atitudes mentais fixas. Será que vou ser capaz de servir de mentora aos estudantes para que estes alterem os seus diálogos internos e desenvolvam atitudes mentais de crescimento? Serei capaz de alterar a minha atitude mental e a dos meus filhos?

Brian deixou uma marca indelével no ensino público e inspirou a próxima geração de professores e alunos. Mas, enquanto choramos a morte do nosso amigo, sabemos que as suas lições vão sobreviver nas vidas que foram tocadas pelo seu trabalho e pela sua bondade. Os professores que ele inspirou também vão encorajar os seus alunos a fazer o mesmo. “A inteligência não é o que somos; é o que fazemos”, disse Brian.

Brian era um visionário e um líder, mas, acima de tudo, era educador. “Se pensares que consegues ou se pensares que não consegues, vais ter razão”, disse ele, parafraseando Henry Ford. Para ajudar os nossos filhos e alunos a persistir quando querem desistir, temos de mudar as nossa atitude mental e temos de encorajar as crianças a fazer o mesmo.

PÚBLICO/The Washington Post

Stacey Steinberg é professora de técnicas jurídicas na Faculdade de Direito Levin da Universidade da Florida. Antes do ensino, trabalhou como procuradora e advogada dos direitos das crianças. Também é escritora e fotógrafa.