Enric Vives-Rubio

Livro

Tarefas domésticas: se eles não fazem mais, elas devem fazer menos

Stephen Marche defende que uma casa suja pode pôr fim à guerra na partilha das tarefas.

Stephen Marche é um autor canadiano, colunista da revista Esquire, e escreveu um livro sobre tarefas domésticas onde defende que a culpa de os homens não fazerem mais em casa é das mulheres, que deveriam fazer menos, só que não fazem porque são orgulhosas. O livro chama-se The Unmade Bed (A cama por fazer, em tradução livre) e não está à venda em Portugal.

Ao jornal The Times, o autor conta que a mulher Sarah Fulford, que é editora na revista Toronto Life e que também co-assina o livro com ele, faz a maior parte das tarefas em casa e que isso é culpa da própria. As suas declarações deixarão qualquer mulher furiosa, mas não são de hoje. Já em 2013, o autor escreveu um texto para o The New York Times onde mostrava uma evidência que também é reconhecida por cá: as mulheres gastam mais horas em tarefas em casa do que os homens, embora também trabalhem fora do lar. Por cá, elas trabalham mais 1h30 em casa e quase tanto como eles no emprego, revelavam os últimos dados, em 2016.

Nesse texto o autor defendia que aos casais cabe desinvestir na limpeza e na arrumação da casa. "Cuidar menos é a esperança do futuro. O trabalho doméstico é talvez o único problema político no qual fazer menos e não cuidar é a solução, onde a apatia é a atitude mais progressista e sensata", escreveu então, defendendo que a solução para a desigualdade na realização das tarefas domésticas não está em varrer à vez, mas em não varrer, pura e simplesmente.

"A solução para os problemas de género na divisão das tarefas domésticas é simples: não se preocupem. Deixem as escadas sujas, não arranjem o portão do jardim, não pintem o tecto que está a descamar. Nunca façam a cama", terminava o texto. Mais de três anos depois, o autor volta à ideia da cama por fazer, agora em livro. 

“As tarefas domésticas são as tretas machistas das mulheres” escreve Marche no seu livro que, segundo o The Times tem sido muito contestado nos EUA e no Canadá e o autor tem sido apelidado de machista. Marche dá o seu caso como exemplo: é casado, tem dois filhos e a mulher faz milhares de tarefas em casa, inclusivé limpar o que ele suja e não se sente culpado por isso. "O problema é que eu não quero saber e não consigo obrigar-me a isso”, confessa ao jornal britânico.

Marche defende que a última fronteira das políticas de género deve ser encontrada na roupa suja do casal. A solução não é os homens fazerem mais. Por isso, a única maneira de atingir a paridade é as mulheres fazerem menos. “A esperança é desarrumada: eventualmente, vamos viver todos numa sujeira perfeita e igualitária”, repete agora no livro. 

O autor reconhece que esta guerra dos sexos que se vive em casa de muitas famílias se deve ao facto de as mulheres terem começado a trabalhar fora e a "cultura doméstica não se ter adaptado à realidade do mundo do trabalho" – o pós-título do seu livro diz "a verdade desarrumada sobre homens e mulheres no século XXI".

Mas Marche é de facto machista? O seu livro revela que não. Como editora, a mulher fez também a edição do livro e escreveu várias anotações porque "sentiu-se obrigada" a deixar escrito como o marido "estava enganado". Tanto no seu texto de 2013 como agora, o autor cita Simone de Beauvoir, a pensadora francesa que odiava tarefas domésticas, mas que escreveu "a mulher está condenada à lida da casa", em O Segundo Sexo. E o que o autor defende é que as mulheres não se martirizem quando chegam a casa e façam como ele: peguem numa cerveja, descontraiam e sentem-se no sofá. Ou dêem um passeio.

Contudo, uma das notas de rodapé mais furiosas escritas por Sarah Fulford é sobre este aspecto: “Quando o vejo no sofá, a trabalhar ou a relaxar, numa casa com um chão a precisar de ser varrido, camas a precisar de serem feitas e flores murchas num jarro a precisarem de ser deitadas fora, sinto duas coisas: raiva e inveja.” Acrescentando: “Sinceramente, não sei se tenho algum problema porque não consigo fazer isso, ou se é ele que tem algum problema porque consegue.”

E o marido não sabe responder-lhe. “A recusa quase total dos homens em fazer mais tarefas domésticas é um verdadeiro mistério,” escreve. Talvez esteja relacionado com o facto de a limpeza ser malvista, ao contrário do que acontece com quem ganha a vida a cozinhar. Marche sente essa pressão: “Mesmo ao apontar a lista das tarefas que fiz, sinto-me ligeiramente menos homem,” reconhece. “As minhas gónadas encolhem um bocadinho”, acrescenta.

Então, a solução está em contratar uma empregada doméstica ou um serviço de limpezas? Marche cita os pais do socialismo: "Engels achava que nos podíamos livrar das tarefas domésticas. As máquinas ou o trabalho pago iam tratar disso. Mas Marx disse que era uma ilusão. Nós construíamos o nosso ambiente. Elas nunca iam desaparecer.” E o autor concorda com Marx. Já a mulher lembra-lhe, numa das suas notas de rodapé, que quando tiveram uma ama foi "espectacular" e que nunca discutiam. 

No fundo, reconhece o próprio, ele está desiludido com os homens que não pensam nas mulheres que amam. Marche é filho de uma médica obstetra que, na década de 1970, depois de um dia de trabalho chegava a casa e aspirava as cortinas. Hoje as mulheres já não fazem isso e se perguntarmos aos homens eles saberão dizer que as mães faziam muito mais coisas do que as companheiras. Mas o que fazem é porque sentem "condicionalismos culturais", é porque sentem a pressão do que vão dizer as outras mulheres. “Não é uma questão de os homens chegarem ao nível das mulheres, é uma questão de as mulheres cederem à opinião dos homens”, conclui.