Adriano Miranda

Meios de comunicação

Como ajudar os nossos filhos a entender as notícias?

Na Internet, as notícias correm depressa. Como pais, temos de perceber que os nossos filhos vão ver algumas imagens que não foram editadas.

Muito antes de trabalhar na área da cidadania digital, fui educadora sobre o Holocausto. Reunia-me diariamente com crianças em idade escolar que trabalhavam lado-a-lado com sobreviventes. O nosso objectivo era conversar com alunos do 1.º ciclo sobre acontecimentos terríveis, de maneiras que desenvolvessem a empatia e a resistência ao racismo e à xenofobia, mas sem os traumatizar desnecessariamente nem os dessensibilizar em relação a imagens violentas.

No ambiente mediático actual, deparamo-nos diariamente com problemas parecidos com os nossos filhos. Apesar de não estar preparada para ter uma conversa com o meu filho de cinco anos sobre o assunto, ele viu o vídeo de um polícia a matar a tiro Walter Scott em North Charleston, na Carolina do Norte, em 2015. A partir do momento em que o meu filho viu o vídeo, não tive escolha. Tivemos de falar sobre aquilo, de maneira a que ele conseguisse perceber apenas o suficiente.

Na Internet, as notícias correm depressa. Como pais, temos de perceber que os nossos filhos vão ver algumas imagens que não foram editadas, interpretadas nem contextualizadas. É melhor estar preparado para saber como reagir quando o momento chegar.

Hoje em dia, muitos dos que somos agora pais víamos ou líamos as notícias ao lado dos nossos próprios pais. Cada vez mais, à medida que os nossos filhos chegam à idade de ter telemóveis e contas em redes sociais – ou apenas de estar perto destes – eles vão ver notícias nos seus meios sociais. Os meios de comunicação social podem contextualizar melhor aquilo que as crianças vêm, mas actualmente existem novas plataformas de qualidade variável. Precisamos de ensinar os nossos filhos a serem consumidores inteligentes de notícias.

O ambiente mediático pode ser um lugar traiçoeiro para as crianças. Desde notícias políticas difíceis de processar a violência não editada no YouTube, estas podem ser difíceis mesmo para os adultos. Agora imagine-se como será para as crianças. Além disso, a carga de informação mediática é desconcertante, devido à profusão de novas plataformas que estão sempre ligadas, sempre a competir pela nossa atenção e que parecem multiplicar-se a cada semana que passa.

Eis algumas formas de ensinar literacia digital às crianças e de as ajudar a compreender o que estão a ver:

– Dar início à conversa. Fale com as crianças e ouça-as acerca do que andam a ler e a ver. Partilhe também o que anda a ler. Tente pôr as coisas em contexto. Sugira opiniões. No caso de crianças de todas as idades, se eles se sentirem preocupados com o que andam a ouvir ou a ler, certifique-se de que podem falar consigo sobre as notícias.

– Ser proactivo. Com os Estados Unidos a atravessarem tempos bastante tumultuosos, não deixe as crianças do 1.º ciclo ver ou ler as notícias sozinhos. Eles precisam de ajuda para processar o que estão a ver e nós precisamos de ajudar os nossos filhos a compreender ou, pelo menos, a tentar fazer sentido do que estão a ouvir e como seguir em frente.

– Ser específico. Por vezes pode parecer bom generalizar enquanto vemos as notícias com outros adultos (por exemplo, dizer que “o mundo está perdido”), mas, junto dos nossos filhos, devemos ser específicos em relação às nossas preocupações. Se estiver ansioso ou preocupado com as notícias em geral, é útil apresentar-lhes razões por que as notícias o deixam preocupado.

– Conhecer as plataformas. O YouTube não é um ambiente mediático controlado. O Snapchat e o Twitter também não o são. Se achar que o seu filho pode ter curiosidade em decapitações, homicídios cometidos pela polícia ou outro conteúdo traumático, deverá usar estas plataformas com mais aconselhamento e orientação parental.

– Denuncie os algoritmos. No caso de crianças do 3.º ciclo e do secundário, apresente-lhes o conceito da “bolha de filtro”. As nossas buscas e opções nas redes sociais alimentam algoritmos sobre as nossas preferências que aumentam a probabilidade de nos apresentarem notícias que confirmam, em vez de alargarem, a nossa visão do mundo.

– Ensinar para o cepticismo. Aconselhe-os a procurar termos como “conteúdo patrocinado” e a activar o seu lado céptico enquanto estão a ler. Acompanhe-os na análise de uma notícia falsa e mostre-lhes como ler criticamente, como identificar a parcialidade e como detectar técnicas de manipulação. Eis algumas boas sugestões para fazer isto:

  • Criar para compreender. Encoraje as crianças a partilhar as experiências deles. Os blogues são um modo acessível de o fazer. Em alternativa, talvez eles se possam envolver num jornal ou canal de televisão na escola e assim obter alguma formação em jornalismo escolar. Ajude-os a perceber a diferença entre limitar-se a partilhar imagens não editadas de uma manifestação ou de um outro evento e criar uma peça de reportagem, como faria um jornalista.
  • Dar o exemplo de limites. Nós, os pais, temos de garantir que estamos a usar as notícias de forma saudável. Se ver as notícias o perturba ao ponto de não conseguir dormir à noite, então sirva de exemplo aos seus filhos e não veja notícias antes de ir para a cama. Aqui está mais uma razão para desligar os aparelhos electrónicos – ou, pelo menos, deixá-los na mesa-de-cabeceira!
  • Não partilhar até investigar. Os rumores espalham-se depressa na Internet. Ensine as crianças a procurar a fonte e a verificar os factos antes de partilharem alguma coisa, especialmente se for algo potencialmente alarmante.

– Tomar uma medida. Se um determinado assunto for preocupante para o seu filho, considere que medidas concretas podem tomar em família. Talvez se sintam todos menos impotentes e consternados se, por exemplo, doarem casacos de Inverno a uma família de refugiados recém-chegada. Outra possibilidade: alguns pais e filhos em idade escolar estão a escrever cartas aos seus representantes políticos.

– Na dúvida entre a vontade de ser informado e o fluxo intenso dos meios de comunicação, não é realista excluí-los completamente da vida do seu filho. É não é isso que se pretende ao ensinar aos nossos filhos boa cidadania digital. Com algum acompanhamento, podemos ajudar a combater a invasão de notícias falsas com aquilo que acaba sempre por derrotar a ignorância: o conhecimento.

PÚBLICO/The Washington Post

Devorah Heitner é a fundadora do projecto Raising Digital Natives e autora de Screenwise: Helping Kids Thrive (and Survive) in Their Digital World, um guia de acompanhamento para crianças digitais. O seu currículo para alunos do 4.º ao 8.º ano chama-se Connecting Wisely in the Digital Age. Tem todo o gosto em estar a criar o seu próprio nativo digital.