guilherme marques

Gato das Botas

A garrafinha salvífica de Angostura Bitters não é só para os cocktails

Umas gotas de Angostura Bitters são necessárias a cocktails tão veneráveis como o Old Fashioned, o Manhattan, o Negroni, o Bloody Mary e o Champagne Cocktail.

A garrafinha de Angostura Bitters é indispensável em qualquer bar há mais de 150 anos. Continua a ser fabricada na ilha de Trinidad, a pátria detestada de V.S.Naipaul, segundo a fórmula original do Dr. Johann Gottlieb Siegert, o cirurgião-chefe do exército de Simão Bolivar na Venezuela.

Daqui a sete anos, em 2024, comemorará 200 anos de vida. Umas gotas de Angostura Bitters são necessárias a cocktails tão veneráveis como o Old Fashioned, o Manhattan, o Negroni, o Bloody Mary e o Champagne Cocktail.

Ultimamente, entre os bartenders dos Estados Unidos, é moda servir um shot puro de Angostura Bitters (tem 44,7 graus) em vez do costumeiro Fernet Branca ou outro licor de gosto duvidoso.

Há também cocktails em que os Bitters Angostura são o ingrediente principal, à mistura com méis, xaropes e whiskies de várias espécies.

Tudo isso são modas passageiras. Em tempos normais não é preciso desenroscar a famosa tampinha amarela. Em tempos normais uma garrafinha de 200 ml dura uma vida inteira.

Nos EUA nem sequer é preciso licença de álcool para vender os Angostura Bitters. São considerados non potable. Daí talvez a atracção dos bartenders.

Toda a gente anda a fazer bitters em casa. Não é nada difícil ou caro. Com as boas ervanárias que temos em Portugal — muitas das quais também funcionam online —, não há razão para usarmos álcool licoreiro (ou os nossos destilados com 45 graus) para extraírmos genciana, cascas secas de laranja e as dezenas de outras possibilidades botânicas que muito bem entendermos.

Há um livro maravilhoso de Brad Thomas Parsons chamado Bitters que não só explica tudo o que há a saber sobre a Angostura e os muitos concorrentes contemporâneos, como tem excelentes receitas para o fabrico caseiro.

Aproveito para recomendar também o livro mais recente dele, Amaro, sobre os licores aperitivos e digestivos italianos e franceses que têm uma componente amarga. Claro que não cobre todos os amari italianos mas apanha os principais, que não são poucos nem desinteressantes.

O livro pioneiro na exploração de deliciosas amarguras é Bitter, de Jennifer McLagan, que tem a vantagem de discutir muitas das ramificações culinárias. Em Portugal o amargo tem injustamente má fama. A palavra mais elogiosa entre nós, malogradamente, é doce. Felizmente temos gostos mais aventureiros como, por exemplo, os nossos grelos de nabo.

Os seres humanos estão gustativamente equipados para rejeitar o sabor amargo. É o sabor de muitos venenos. As plantas usam os sabores amargos (como o da cafeína) para desencorajarem quem as quer comer.

Como o nosso corpo se sente envenenado quando comemos amarguras, ele reage imediatamente. Basta beber umas gotas de sumo de limão para a boca se encher de saliva e para começar uma salvífica reacção alcalina.

Foi esta a ideia luminosa do Dr. Siegert ao criar as Angostura Bitters. A fórmula é concebida especificamente para acalmar o estômago. Com o tempo, os marinheiros descobriram que também era bom para o enjoo do mar.

Como se tomava Angostura Bitters para a indigestão foi só uma questão de tempo antes de um bêbado desenrascado se lembrar de acrescentar umas gotas a outra bebida alcóolica. E presto: é assim que aparece em bebidas anti-ressaca como o Bloody Mary e milhares de outras mistelas em que o truque é juntar álcool (“o pelo do cão que o mordeu”), sumo de limão, proteína (uma gema de ovo) e, claro está, Angostura Bitters.

As bebidas alcóolicas conseguiram assim esconder a função primordial dos Angostura Bitters. Eu, por exemplo, nunca tinha ouvido falar deles como cura estomacal. Mas é muito bom. É tiro-e-queda. Dissolvem-se oito ou dez gotas em meio copo de água gaseificada morna, bebe-se e fica-se bom. Só quando não funcionar é que se pode passar para os sais de fruto Eno.

Em 1982, o New York Times publicou uma cura para os soluços (com 88% de eficácia) em que se encharca um-oitavo de limão com Angostura Bitters e açúcar a gosto. Google “hiccups angostura New York Times” antes de passar para as versões contemporâneas, que são cópias mal disfarçadas.

É verdade. Duzentos anos depois, ainda estão por descobrir muitas aplicações da garrafinha verdadeiramente mágica de Angostura Bitters...