raquel esperanca

Doença

Como falar com os seus filhos sobre a sua doença grave

Ninguém conhece os filhos tão bem como os pais e deve basear-se nesse conhecimento para preparar a conversa com antecedência.

Nunca é fácil para um pai ou uma mãe contar aos filhos que tem uma doença grave, independentemente da idade das crianças. Há uma linha ténue entre assustá-las sem necessidade e enchê-las com todos os detalhes, não apenas sobre a doença, mas também sobre como ela os irá afectar a eles e a si.

Ninguém conhece os filhos tão bem como os pais e deve basear-se nesse conhecimento para preparar a conversa com antecedência. Quando falar com eles, tenha em consideração os sintomas que sente, se precisa de fazer cirurgias e quanto tempo de recuperação será necessário, já que algumas doenças são graves mas de pouca duração e outras são crónicas ou potencialmente fatais.

Tenha respostas preparadas para as perguntas mais óbvias. Se conseguir responder de maneira confiante e sem hesitação, isso irá garantir aos seus filhos de que sabe do que está a falar. Se parecer confuso ou ansioso, as crianças responderão na mesma moeda. Considere a possibilidade de incluir na conversa uma avó, tia, tio ou alguém especial nas vidas deles, para os reconfortar enquanto lhes transmite a informação.

Tive de contar aos meus filhos de 8 e 10 anos que sofria de falência hepática total e que teria de fazer diálise até que ficasse disponível um rim para transplante. Na altura, o tempo de espera na Lista Nacional de Dadores era de cinco anos, que foi exactamente o tempo que demorou até se encontrar um dador compatível e eu receber um transplante.

Estou a partilhar como abordei o assunto com os meus filhos, na esperança de dar a outras pessoas algumas ideias que possam tornar o processo mais fácil. Poderá adaptar estas sugestões de acordo com a idade dos seus filhos.

– Reserve todo o tempo livre de interrupções que for possível. As crianças reagem de maneiras diferentes e vai querer ter tempo suficiente para lidar com todas as emoções que possam surgir. Depois do jantar é boa altura, porque as crianças costumam estar mais calmas depois de comer e de se prepararem para descansar à noite.

– As crianças registam a sua energia. Se possível, espere até ter tido tempo para digerir e processar as notícias, para que consiga permanecer calmo.

– Use termos que elas compreendam. Tente não incluir demasiada terminologia médica. Também pode usar este momento para introduzir e explicar alguns termos que eles podem vir a ouvir por causa da doença.

– Deixe-os fazer perguntas. Dê respostas adequadas à idade, focando-se em cada pergunta específica. Pode ser transtornante para as crianças incluir mais detalhes do que é necessário.

– Faça-lhes perguntas: "Como é que achas que isto vai mudar as coisas cá em casa? E na escola?" Peça-lhes sugestões sobre maneiras de tornar as coisas mais fáceis, para que eles sintam que fazem parte da conversa e do processo. A inclusão é importante e ajuda a manter o fluxo do diálogo.

- Não esconda os seus sentimentos. Com certeza que não quer assustar os seus filhos, mas quer que saibam que há momentos em que pode sentir-se triste ou particularmente cansado e até momentos em que pode chorar. Deixe que eles o consolem. É importante que saibam que são participantes activos na sua vida e nada deixa uma criança mais feliz do que saber que ajudou a fazê-lo sentir-se melhor.

Eis algumas sugestões para obter ajuda fora de casa:

– Pode querer informar os professores dos seus filhos sobre as suas circunstâncias. Se preferir que os pormenores permaneçam privados, pelo menos pode ser útil transmitir-lhes que se aproxima um momento difícil, para que na escola, os professores e auxiliares possam estar atentos à prestação escolar e ao comportamento dos seus filhos.

– Se as crianças tiverem menos de 10 anos, tente organizar encontros em casa de amigos quando for possível. Isto deixa-os ter tempo para ser crianças e libertar energias e dá-lhe tempo a si para se concentrar no que precisa de fazer.

–Envolva o mais possível a família alargada e os amigos. Quanto maior for o grupo de apoio, mais fácil será tudo. Passar a noite em casa de parentes ou amigos próximos dá às crianças um tempo “especial” em que a atenção está toda centrada neles.

Vai ter muitas oportunidades de conversar com os seus filhos sobre a sua doença, mas dar-lhes a notícia é difícil. A maneira como lida com este momento irá permitir aos seus filhos compreender a situação sem que fiquem muito assustados ou perturbados. Pode haver lágrimas, pode haver birras, pode haver beijos e abraços. O mais provável é que haja uma combinação de todas estas reacções. Mas se for o mais honesto possível, se permanecer calmo e se rodear os seus filhos de amor, vai correr tudo bem.

PÚBLICO/The Washington Post