Imagem do ilustrador Pitu Saa
Imagem do ilustrador Pitu Saa DR

Livros

Não são princesas, não viveram felizes para sempre, mas são mulheres exemplares

Editora Tinta-da-China publica quatro histórias de quatro "antiprincesas" para ensinar que não é preciso ficar à espera de um príncipe para se ser feliz.

A frase "e viveram felizes para sempre" é a última da maior parte dos livros de histórias de princesas. Elas são lindas, sofrem, mas no final encontram sempre o seu príncipe encantado. No entanto, também existem as "antiprincesas", aquelas que, na vida real, lutam por uma causa, são corajosas e cujos exemplos de vida podem também ser exemplos para os nossos filhos. A editora Tinta-da-China acabou de publicar quatro livros sobre quatro mulheres reais.

Sim, a Disney também as tem, são princesas guerreiras como Mulan ou a Pocahontas, mas a autora argentina Nadia Fink agarrou em mulheres latino-americanas que são reais e que são "lutadoras, sonhadoras, com defeitos e virtudes", como diz a autora ao site chileno La Tercera.

A escolha de Nadia Fink recaiu sobre quatro mulheres: a pintora mexicana Frida Kahlo, a compositora e cantora chilena Violeta Parra, a militar boliviana de origem indígena Juana Azurduy e a escritora brasileira Clarice Lispector. Quatro mulheres latino-americanas que podem ensinar aos rapazes e raparigas que as mulheres não precisam de ficar à espera de que um "príncipe as salve, mas que têm o poder de mudar as suas próprias vidas", acrescenta a autora, que teve a ajuda dos artistas Pitu Saa e Martín Azcurra para ilustrar os seus livros.  

"As antiprincesas não são do contra só porque sim: não se resignam, e lutam para fazer valer aquilo que pensam. Como não usam tiaras, podem virar tudo de pernas para o ar e arriscar o que bem lhes apetece, por exemplo mudar o mundo", diz a contracapa de cada um dos livros. Logo no primeiro, dedicado a Frida Kahlo (1907-1954), a autora lembra que as pessoas "importantes" são aquelas que "se sujaram para crescer e se divertir, que não se deixaram ficar à espera".

No segundo livro, dedicado a Violeta Parra (1917-1967), a autora lembra que muitas mulheres quebraram os padrões da sua época, como é o caso desta compositora e cantora chilena que foi uma "princesa nómada" que andou com os filhos às costas, pelo Chile à procura da música popular do seu país. Também Juana Azurduy (1780-1862) foi uma mulher que lutou pela independência da Bolívia num tempo em que as mulheres não iam à guerra, mas ela tornou-se uma guerreira e chegou a salvar o marido, preso pelos espanhóis – "O quê?! Mas não eram os cavaleiros que salvavam as princesas?", pergunta a autora, ao narrar a história desta guerreira que deu à luz e continuava no terreno a lutar pela independência.

"E eis que chega outra antiprincesa para virar tudo de pernas para o ar, como nós gostamos", escreve Fink sobre Clarice Lispector, a "antiescritora" que "não gostava de estruturas, das coisas académicas, nem de regras, e escrevia onde e como podia: em papelinhos, guardanapos ou com a máquina de escrever no colo, enquanto os filhos corriam e ela atendia o telefone e os ajudava nos trabalhos de casa", continua.

Esta colecção, que nasceu há um ano na Argentina, chegou a todos os países da América do Sul, bem como a Espanha e a Itália. Por cá, coube à Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural de Lisboa (Egeac) fazer a proposta à editora. "A Tinta-da-China acreditou no projecto e achámos que faria todo o sentido no nosso catálogo. Sempre fomos uma editora de causas, e as antiprincesas são muito bem-vindas", diz Madalena Alfaia, da comunicação da editora.

Os livros das antiprincesas têm como objectivo combater os estereótipos de género, porque contam "a história de mulheres que tiveram vidas incríveis, que questionaram o seu papel, contornaram o que se esperava delas, foram artistas, anticonformistas", continua a responsável.

Serão só livros para meninas? A editora acredita que não: "Independentemente do género, as crianças vão gostar de os ler, e se calhar ainda mais quando souberem que é tudo verdade, e que a vida pode ser assim. A colecção das antiprincesas é sem dúvida um dos melhores exemplos para mostrarmos que as histórias não têm de ser ou para meninos ou para meninas."