• Modelo no desfile Christian Siriano, com a mensagem
    Modelo no desfile Christian Siriano, com a mensagem "pessoas são pessoas" LUSA/PETER FOLEY
  • Modelo no desfile Prabal Gurung, com a mensagem
    Modelo no desfile Prabal Gurung, com a mensagem "mantenham-se despertos" LUSA/ALBA VIGARAY
  • Modelo no desfile Prabal Gurung, com a mensagem
    Modelo no desfile Prabal Gurung, com a mensagem "o futuro é feminino" LUSA/ALBA VIGARAY
  • Modelo no desfile Prabal Gurung, com a mensagem
    Modelo no desfile Prabal Gurung, com a mensagem "as raparigas só querem ter direitos fundamentais", em alusão à música Girls Just Want To Have Fun LUSA/ALBA VIGARAY
  • Modelo no desfile Public School com um boné
    Modelo no desfile Public School com um boné "fazer America Nova Iorque" LUSA/PETER FOLEY
  • Um convidado chega ao desfile Public Schoool com um sinal a dizer
    Um convidado chega ao desfile Public Schoool com um sinal a dizer "filho de emigrantes" LUSA/PETER FOLEY
  • Modelo no desfile Public School com a mensagem
    Modelo no desfile Public School com a mensagem "fazer America Nova Iorque", referindo-se ao slogan da campanha de Trump, "Make America Great Again" LUSA/PETER FOLEY

Desfiles

A passerelle virou palco político em Nova Iorque

Nos desfiles da semana de moda há mensagens políticas, colecções inspiradas no movimento feminista e músicas com carga simbólica, como "This is Not America", de Bowie.

É comum ouvir dizer que a moda reflecte aquilo que se passa na sociedade. O conceito das colecções é por vezes abstracto, mas as mensagens que muitos designers têm transmitido na semana de moda de Nova Iorque não podiam ser mais literais. Desde críticas a Trump a palavras feministas, há slogans por todo o lado nos desfiles desta temporada.

Sara Sampaio pisou a passerelle de Prabal Gurung com uma t-shirt na qual se lia “sou uma imigrante”. Entre os vários estilistas que incluíram nos desfiles mensagens de cariz político-social, Prabal destacou-se pela quantidade. No final do desfile, todas as modelos saíram com uma t-shirt diferente. Entre elas lia-se “apesar de tudo, ela persistiu” – em referência ao movimento #shepersisted, que nasceu depois de a senadora democrata Elizabeth Waren ter sido impedida de falar no senado norte-americano –, “mais fortes do que o medo” e “destruam muros”. O designer natural de Singapura foi mais além: reforçando a mensagem de diversidade, decidiu incluir também modelos plus size e apareceu no final com uma t-shirt que dizia “É assim que parece um feminista”.

 

Thank you @prabalgurung for such a powerful and inspiring show! #thisiswhatfeminismlookslike ????

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Na apresentação da marca Public School desfilaram modelos com uma versão alternativa do conhecido boné encarnado de Trump. Em vez do slogan da campanha “Make America Great Again”, tinha estampado “Make America New York”. Christian Siriano – vencedor da quarta temporada de Project Runway – destacou a frase “pessoas são pessoas”, numa t-shirt simples preta, e Alexander Wang criou um par de collants com as palavras “No after-party”.

 

That's a wrap! #PSNYFW17 #MakeAmericaNewYork

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As mensagens de protesto também se fizeram ouvir (ou ler) à volta dos desfiles. “Filho de emigrantes”, dizia um cartaz preso nas costas de um convidado. A editora da revista Vogue, Anna Wintour, e a designer Diane von Fürstenberg foram duas das figuras que prenderam na lapela pins de apoio à Planned Parenthood, uma organização que oferece serviços de saúde na área da reprodução. “A moda está com a Planned Parenthood”, lia-se no crachá cor-de-rosa.

Um objecto simbólico de unidade, a bandana branca tem aparecido também na salas dos desfiles. Já na semana passada, Tommy Hilfiger incluiu o modesto acessório nos looks da colecção que apresentou em Los Angeles, Califórnia. O desfile Calvin Klein – o primeiro com Raf Simons como director criativo da marca – não incluiu peças com frases estampadas, mas foi um dos mais carregados com mensagens políticas. Além das bandanas que distribuiu à audiência com uma nota onde se lia “Unidade, inclusão, esperança e aceitação: juntem-se a nós na Calvin Klein a usar a bandana branca”, fez questão de escrever nos comunicados acerca da colecção: “Ela reflecte o ambiente. É a junção de personagens diferentes, de diferentes indivíduos – tal como a própria América”. Durante o desfile ouvia-se a voz de Bowie, que cantava o tema This is not America.

No desfile da designer da Indonésia Anniesa Hasibuan, foram admitidas modelos com vistos, cartões de residência e imigrantes de primeira e segunda geração. A escolha das modelos e o facto de as ter vestido com hijabs tal como fez no desfile da última temporada – são uma forma de celebrar “a diversidade das pessoas americanas e a história do sonho americano”, contou Hasibuan ao Huffington Post. Foi também uma mensagem directa para o presidente Trump, como a designer fez questão de sublinhar no comunicado de imprensa.

Alguns designers optaram por interpretar a conjuntura actual de forma mais abstracta. Foi o caso do português Felipe Oliveira Baptista, director criativo da Lacoste. Em vez de slogans, foi buscar inspiração ao cosmos – a fatos espaciais e imagens do Universo. “É importante tentar imaginar as possibilidades de algo bom e novo. O que posso dizer? O que posso fazer? Isto dá mais energia para empurrar as coisas para a frente… e para resistir”, disse nos bastidores ao Financial Times.

Resta saber se estas mensagens políticas – claramente liberais e contra a administração de Trump –  terão algum impacto ou se estão apenas – roubando uma expressão americana – preaching to the choir – ou, em bom português, a "ensinar a missa ao padre".