"Onde é que uma senhora com mais de 70 anos encontra um parceiro sexual?", pergunta a investigadora PAULO RICCA/arquivo

Preconceito

Quando o amor entre os mais velhos é marginalizado

Ainda há atitudes negativas em relação à sexualidade na terceira idade, diz especialista,

Se os mais velhos valorizam o sexo e as relações amorosas, o "erotismo no envelhecimento está fortemente ameaçado", porque a sociedade marginaliza o amor nessa idade, alerta a investigadora Ana Carvalheira do ISPA - Instituto Universitário.

"Há uma série de mitos que ainda subsistem", que faz com que as pessoas ainda tenham "atitudes muito negativas" em relação à sexualidade dos mais velhos, continua a professora e investigadora, acrescentando que essas atitudes resultam do facto de a "nossa sociedade marginalizar as sexualidades não reprodutivas" e olhar para as "pessoas mais velhas" como se já não sentissem desejo.

Na sociedade actual, "o modelo dominante da sexualidade" é o da pessoa "jovem e bonita", enquanto o envelhecimento é encarado como "um humilhante processo de desqualificação sexual, sobretudo para as mulheres".

"O nosso corpo envelhece, a pele perde elasticidade, há uma série de mudanças biológicas que acontecem no nosso corpo e um corpo velho não é facilmente erotizado", diz a investigadora, sublinhando que tanto os homens como as mulheres erotizam pessoas mais novas.

Há mentiras que se dizem como "os mais velhos não têm interesse sexual" ou "a capacidade sexual desaparece com a idade", mas os estudos demonstram o contrário, refere Ana Carvalheira, lembrando um estudo que conduziu, com uma amostra de 750 homens e mulheres portugueses com mais de 65 anos, que revelou que, para a maioria dos inquiridos, a actividade sexual tem "alguma, muita ou muitíssima importância".

Mostrou também que os homens dão mais importância ao sexo do que as mulheres, uma situação que se deve em muito a factores demográficos. "Há uma assimetria demográfica muito preocupante, porque há muito mais mulheres do que homens, há muito mais idosas do que idosos e há muito mais mulheres sem companheiro do que homens", adianta. Esta situação levanta muitos problemas. "É de uma desigualdade brutal", diz, questionando: "Onde é que uma senhora com mais de 70 anos encontra um parceiro sexual?". Até pode ser através da Internet, "mas isso é para quem tem Internet", exemplifica.

Para Ana Carvalheira, a "desqualificação sexual das pessoas mais velhas" também acontece porque "há uma perda da rede social, uma perda de poder económico e a reforma é muitas vezes vivida com dificuldade".

Contudo, salientou, a "terceira parte da vida" é "um momento 'desenvolvimental' importante, como todos os outros ao longo da vida", em que as pessoas podem "evoluir e fazer aprendizagens".

Por outro lado, "vamos viver a sexualidade no final da nossa vida da mesma maneira que a vivemos ao longo da vida". "A sexualidade no final da vida é livre da contracepção, da reprodução, do stress profissional, do cuidar dos filhos e de todas as preocupações que os filhos trazem porque já foram embora, e pode ser um período da vida muito mais tranquilo que permita a descoberta de novas vivências eróticas e uma área de satisfação", sugere.

Para Ana Carvalheira, é preciso que a sociedade perceba que "não é a idade que impede uma vivência feliz da sexualidade", mas sim as doenças, os problemas de saúde e os tratamentos para essas doenças".