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Estudo

Comprar roupa barata fica caro ao ambiente (e não só)

Estudo da McKinsey & Co analisou a forma como a moda é consumida, o impacto desta indústria no ambiente e as novas estratégias das marcas de moda rápida.

A produção de roupa duplicou entre 2000 e 2014, os preços baixaram e as vendas aumentaram – um estudo da consultora McKinsey & Co mostra que a cultura da moda descartável, apoiada nas marcas de moda rápida, está a crescer velozmente, utilizando grandes quantidades de recursos naturais e mão-de-obra barata. “Sem melhorias na forma como as roupas são feitas, estes problemas vão crescer proporcionalmente à medida que mais roupas são produzidas”, avisa o relatório.

A redução dos custos de produção permite que as marcas de moda rápida renovem as suas colecções regularmente. De acordo com a McKinsey, o número médio de colecções produzidas por empresas de vestuário europeias por ano aumentou de dois para cinco entre 2000 e 2011 – a espanhola Zara, do grupo Inditex, tem 24 novas colecções por ano; a sueca H&M oferece 12 a 16 colecções e coloca produtos novos nas lojas semanalmente. Os consumidores compram mais (o número de peças que um consumidor compra por ano aumentou 60% entre 2000 e 2014), atraídos pelos preços baixos e pelas prateleiras cheias de produtos novos a cada semana, mas mantêm as peças muito menos tempo, descartando-as depois de sete ou oito utilizações.

A produção vai continuar a aumentar, prevê o relatório, uma vez que as classes médias de economias populosas e em desenvolvimento gastam os seus salários em roupas. Também o impacto ambiental vai ser maior. “Este sistema tem efeitos ambientais desmesurados: a produção de roupa requer, tipicamente, a utilização de muita água e químicos que emitem quantidades significativas de gases de efeito de estufa”, avalia o relatório, mencionando ainda os relatos emergentes do trabalho em fábricas. Os trabalhadores mal pagos, por vezes adolescentes, são também expostos a ambientes perigosos.

Este aumento “sugere que a maioria dos consumidores fecha os olhos ou tolera os custos ambientais e sociais da moda rápida”, mas há já algumas empresas e marcas a tentar contornar estes efeitos – em Julho, a organização não-governamental Greenpeace indicou a Inditex, a H&M e a Benetton como as empresas líderes na contribuição para um ambiente melhor, no âmbito do programa Detox 2020, que prevê que a 1 de Janeiro de 2020, as grandes companhias de vestuário tenham deixado para trás o uso de químicos tóxicos nos seus produtos. 

A McKinsey & Co sugere que a indústria do vestuário defina padrões e práticas para que as roupas sejam recicladas; um maior investimento em métodos químicos de reciclagem e no desenvolvimento de novas fibras. A consultora recomenda ainda que se incentive o consumidor a usar métodos de baixo impacto para cuidar das roupas.

O relatório destaca ainda as acções de algumas marcas com vista à sustentabilidade – a H&M, que se auto-intitula pioneira na sustentabilidade, e a Levi’s associaram-se à empresa I:CO para recolher roupa e calçado usado e reciclá-lo; a C&A divulgou o seu objectivo de comprar apenas algodão orgânico.

As marcas têm de “assumir responsabilidade”, escreve a Quartz, “assim como os consumidores, caso contrário o custo de toda a roupa barata poderá ser maior do que aquele que somos capazes de pagar”.

Em Abril, em entrevista ao Life&Style, Salomé Areias, professora de design de moda e coordenadora do projecto Fashion Revolution em Portugal, admitia que havia um interesse crescente por parte dos consumidores em relação àquilo que compram. “As pessoas querem mudar, querem ter um comportamento diferente. Preocupam-se de facto com a exploração laboral e a sustentabilidade a nível de contaminação dos rios, dos solos. Mas não têm alternativas. Isso é o maior problema.”