Rui Gaudêncio

Estudo

Consumidores não sabem ler etiquetas dos protectores solares

De acordo com um inquérito realizado pela revista científica JAMA Dermatology, a maioria das pessoas não percebe o que está escrito na etiqueta do creme protector solar.

Investigadores da Northwestern University Feinberg School of Medicine testaram os conhecimentos sobre protecção solar de 114 pessoas que, durante o Verão de 2014, visitaram a clinica dermatológica Northerwestern Medicine.

Os participantes foram questionados sobre o seu tipo de pele, hábitos de compra e utilização de protectores solares e o entendimento da linguagem utilizada nos rótulos das embalagens coloridas dos protectores solares. Apesar de 93% ter comprado pelo menos uma embalagem de protector solar no último ano, a maioria mostrou “lacunas importantes” no seu conhecimento sobre estes cremes de protecção.

Segundo a investigação, a sigla inglesa SPF (FPS em português), que significa “Factor de Protecção Solar”, ainda causa alguma confusão aos consumidores – só 49% sabia o que significava. “As pessoas pensam que FPS é igual a tudo”, diz Roopal Kundu, dermatologista e uma das autoras do estudo. O factor de protecção solar mede a capacidade de um protector solar para filtrar os raios ultravioleta B (UVB). Um protector solar com FPS 30 significa que, tecnicamente, uma pessoa pode ficar 30 vezes mais tempo ao sol antes de ficar queimada do que uma pessoa que não usa protecção solar.

Mas o FPS mede apenas os raios UVB, não diz nada sobre a protecção dos raios UVA, acrescenta Kundu. A parte mais “confusa” dos protectores solares, é esta distinção entre UVA e UVB, explica a investigadora. “UVA está presente durante todo o dia e pode penetrar através de vidros de janelas”, esclarece – são estes raios os principais responsáveis pelo envelhecimento da pele. Tal como os raios UVB, está associada também a um risco de cancro da pele, mas ao contrário dos raios UVB, os raios UVA não causam queimaduras solares. Levam, antes, ao “escurecimento e envelhecimento porque penetram profundamente na pele e têm mais influência no colagénio”.

Só há uma maneira de saber se o protector solar oferece protecção contra estes raios UVA, nos Estados Unidos. Cada protector, seja em creme ou spray, deve ter as palavras “broad spectrum” (amplo espectro, em português). Neste estudo, apenas 34% das pessoas questionadas admitiram que estas palavras tinham influência na escolha do seu protector.

A maior parte dos ingredientes num protector solar protegem contra os raios UVB, que ocorre mais durante o Verão e é responsável pelas queimaduras, por penetrar superficialmente na pele. Kundu usa um protector solar com FPS 30 com o ingrediente activo óxido de zinco, um “ingrediente natural para protector solar que fisicamente – em vez de quimicamente – bloqueia os raios”, explica a Time. O óxido de zinco protege contra ambos os raios.

Em Portugal, os produtos têm de ter a indicação de que contêm protecção contra as radiações ultravioletas A e B. Há “vários filtros solares no mercado que têm um bom índice de protecção UVB e UVA, são pouco estáveis, pouco alergogénicos, com reduzida absorção sistémica e com um bom grau de remanescência, garantindo uma protecção razoável se correctamente aplicados (em quantidade e frequentemente”, escreve no site da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo Leonor Girão, assistente hospitalar de dermatologia no Hospital Militar de Belém, em Lisboa.

A União Europeia recomenda a proporção correcta de filtros UVA e UVB – os filtros UVA devem ser um terço da protecção solar total rotulada – e, por isso, um bom protector terá o símbolo “Recomendado pela UE” ou as siglas “UVA/UVB”.

Para um protector solar funcionar da maneira que é publicitado, Kundu frisa que é necessário aplicar o equivalente a um copo de shot nas áreas não expostas e reaplicar em todo o corpo frequentemente durante a exposição ao sol. “Queremos ser muito claros sobre as diferentes coisas que um protector solar pode realmente fazer. Muitas pessoas pensam que só por o terem aplicado, está a fazer uma data de coisas, mas isso não é necessariamente verdade”, alerta a investigadora.