Nelson Garrido

Livro

Falar de beleza é falar de saúde, alimentação, publicidade... de tudo!

A investigadora Denise Bernuzzi de Sant'Anna faz um périplo pela História da Beleza no Brasil.

Como se chama o costureiro que levou a primeira mulher negra para as passerelles? O que é uma “mulher marombada”? Em que ano foi posto à venda o primeiro creme em boião? E o que é a beleza? E a fealdade? A estas e outras questões responde História da Beleza no Brasil, da historiadora brasileira Denise Bernuzzi de Sant’Anna, especialista em História do Corpo na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo.

O conceito de beleza (e o de fealdade) não é estático e vai mudando, porque se alteram as condições materiais e sociais e é essa demonstração que torna tão cativante este livro, que é afinal sobre as mudanças históricas que inverteram o primado da alma no primado do corpo – e é aí que estamos. Por isso fazer a história da beleza é fazer a história da relação homem-mulher, falar de saúde, higiene, desporto, alimentação, de publicidade, cinema, cosmética. História da Beleza no Brasil é também a história social, cultural e política do Ocidente (EUA e Europa) e da apropriação de modelos com recriações brasileiras.

Sendo o Brasil “um dos campeões no ranking mundial de cirurgias plásticas” (p.16), o que essa prática tem subjacente é a ideia de que hoje em dia é possível ter um corpo feito à medida. A atenção dada ao corpo, à beleza, tornou-se um género de primeira necessidade, na verdade um dever, bem distante da noção oitocentista de algo supérfluo, em que os produtos de beleza eram “remédios”, só posteriormente se tornando “cosméticos”.

A evolução da linguagem na publicidade foi pois espelhando práticas sociais, modelos de comportamento e padrões morais. Exemplo claro desse fenómeno é, em finais da década de 1960 (paradoxalmente, ao tempo da ditadura no Brasil), o advento da dita “década do eu”, que trouxe a separação entre amor e sexo. A democratização da ideia de bem-estar e de auto-estima, da noção de que se tem direito à beleza conquista não só os homens, como atende a especificidades a sul do Equador, sendo esse o caso dos ditos “cabelos crespos”, também eles alvo de cuidados e do marketing. É também o momento de dar plena atenção a uma parte do corpo antes oculta, a barriga, que aqui ocupa um extenso parágrafo (p. 28), tendo a autora publicado no ano passado um artigo sobre o tema na revista Labrys, Estudos Feministas.

A actual modelação do corpo quer pelas idas (intensas) ao ginásio, quer com recurso às cirurgias alterou padrões e expandiu as balizas da beleza enquanto culto e negócio. A contracorrente das modelos magras, o Brasil tem não só as mulheres musculadas, como modelos que vestem (e difundem) o plus size. Um outro nicho que o Brasil exibe (e partilha com os EUA) é o dos (duvidosos) concursos de beleza e da cosmética infantil.

História da Beleza no Brasil inclui inúmeras ilustrações oriundas sobretudo da publicidade, além de notas de rodapé que remetem para outras fontes (impressas e online) que permitem aprofundar o tema. Num livro escrito em bom estilo e agradável de ler, permite ainda ao leitor português fazer o confronto entre os diferentes usos linguísticos para a mesma realidade (“potes”/ “boiões”, “academia”/ “ginásio”, “feiura”/ “fealdade”, por exemplo).

Denise Bernuzzi de Sant’Anna licenciou-se e fez mestrado na PUC, em São Paulo, tendo concluído o doutoramento e o pós-doutoramento em Paris, sob orientação de Michelle Perrot, historiadora francesa especialista em História das Mulheres e História da Vida Privada. Este livro, um intrincado manto de factos de finais do século XIX ao presente, resulta de uma pesquisa que a investigadora vem fazendo desde 1994.

Como complemento ao livro podem ver-se dois vídeos com a autora em entrevista ao programa Todo Seu da TV Gazeta e a fazer a apresentação da obra, editada pela editora Contexto em finais de 2014.

Ah, e o tal costureiro? Foi Paco Rabanne.