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Consumo

A União Europeia quer que o Chanel 5 deixe de cheirar a Chanel 5

Já regulamentou o tamanho das maçãs, já proibiu os galheteiros e baniu a colher de pau. Agora, Bruxelas quer mudar a composição dos perfumes, proibindo os componentes usados para os fabricar possam provocar alergias.

Todos os perfumes serão afectados. E se há fabricantes que já começaram a reparar, subtilmente, as mudanças que ai vêm, outros estão em pânico – o que será do Chanel 5 se não cheirar a Chanel 5?

A atenção dos reguladores europeus voltou-se para os perfumes depois de a Comissão Científica, que dá assessoria às questões de segurança no consumo, ter alertado para o facto de 3% da população europeia sofrer de alergia provocada, ou que pode ser potenciada, por elementos que compõem as fragrâncias.

A nova legislação é uma certeza e deverá estar pronta para discussão na Comissão Europeia e no Parlamento Europeu em Agosto, sendo depois transformada em directivas. Vai exigir também novos rótulos e, em breve, passaremos a ver os perfumes com embalagens mais parecidas às dos medicamentos, com os componentes (passam a ser 80 de referência obrigatória, em vez de 28) e avisos sobre os efeitos alergénicos que podem ter.

Uma recomendação de 2012 limitou o uso de 12 ingredientes que as casas de perfumes dizem ser o pilar da indústria de luxo. Entre esses ingredientes estão o citral (encontrado no limão, na tangerina e na bergamota), a cumarina (extraído dos feijões tonka) e o eugenol (que existe no óleo de rosa). Desta vez, serão banidos o citral e o extracto de musgo da madeira. Os efeitos alergénicos de outros nove elementos estão a ser estudados e poderão ser acrescentados à lista.

Alguns perfumes serão mais afectados do que outros. Dois dos mais míticos, o Chanel 5 (tem uma concentração de 0,01% de citrol) e o Miss Dior, terão necessariamente que mudar.

As perfumeiras estão em contra relógio para sintetizarem aromas que levem às mesmas fragrâncias, para que o resultado final, ou seja o perfume, seja idêntico ao que os consumidores conhecem há tantas décadas. Algumas estão mais avançadas que outras.

A Hermès, a Dior e a Guerlain – todas propriedade do grupo de luxo LVMH – planearam uma estratégia a longo prazo e há muito que trabalham nela. Estão a mudar, de forma progressiva, as fórmulas dos seus perfumes, para minimizar o impacto. A lógica é: se a mudança for muito suave e espaçada no tempo, pouco se dará pela diferença.

A Chanel está, também, à procura de soluções. O Chanel 5 está no mercado há 93 anos e é o perfume mais vendido no mundo – um frasco a cada 30 segundos. Era o favorito de Marilyn Monroe, que não ia para a cama sem umas gotas dele e não consta que tivesse alergias. A marca vai arrancar com uma nova campanha de publicidade – a anterior foi protagonizada pelo actor por Brad Pitt, a que se segue tem o rosto da modelo Gisele Bündchen.

“A adaptação é um desafio, mas o talento do nosso ‘nariz’ [o perfumista] é precisamente preservar as qualidades olfactivas que identificam os nossos perfumes tendo em conta os regulamentos”, disse ao Telegraph um porta-voz da famosa marca francesa.

Apesar deste esforço de adaptação às regras europeias, as marcas protestam – e esperam-se novas contestações a partir de Agosto. As mudanças, mesmo que pouco perceptíveis, podem retrair os consumidores e levar a quebras nas vendas, sendo que as linhas de perfumes são uma das mais importantes fontes de receitas das marcas. “Se proibirem o citral, por ter elementos alergénicos, então terão de proibir o sumo de laranja. Não devemos proibir o que existe na natureza, apenas temos que saber viver com ela”, reagiu Frederic Malle da Editions de Parfums Frederic Malle, que já teve que reformular um quarto dos seus aromas devido à nova legislação europeia.

“O Chanel 5 nunca fez mal a ninguém. Estas directivas serão a morte dos perfumes”, disse à AFP Sylvie Jourdet, da Associação Francesa de Perfumes, considerando também que toda a gente sabe que os ingredientes naturais estão associados a alergias.