O economista Luís Quintino escreveu um livro para ajudar outros pais
O economista Luís Quintino escreveu um livro para ajudar outros pais Bárbara Marinho

Quando os pais perdem os filhos

Não é com berros que se afasta a dor

Refugiei-me na escrita para falar sobre a dor de perder o meu filho Luís, vítima de um cancro.

Foi um exercício solitário na companhia de muita gente. Senti que me afundava, que a terra me fugia. Apenas consegui atravessar este momento de agonia escrevendo e reflectindo sobre o Luís. A apresentação do livro A Geometria do Amor, publicado pela Editora Ómega será este sábado, em São João da Madeira nos Paços da Cultura às 16h.

O Luís tinha 23 anos quando morreu. Tudo começou em Dezembro de 2007 quando lhe foi diagnosticado um tumor. Coloquei o nome “meduloblastoma” na Internet e fiquei em choque, era um tumor do sistema nervoso central. “Não voltarei a fazê-lo”, pensei.

Este livro nasceu de um pedido do meu filho para que escrevesse sobre os seus dias. Desenganem-se todos quantos pensam que, após a detecção desta terrível doença, mesmo nas suas versões mais malignas, tudo são trevas e sofrimento. Não são. Cabe muita felicidade nos intervalos da morte. E o livro nasceu assim: do amor, do desespero e da violência interior que me dominava. Pouco a pouco, apercebi-me que a escrita fazia diminuir a revolta em mim; melhor, a escrita não era contra ninguém, mas sim a meu favor, do meu filho, da minha mulher e de todos quantos se viam confrontados com uma situação semelhante.

 Várias foram as recaídas, as sessões de radioterapia e quimioterapia mas a dignidade com que o Luís se comportava perante as circunstâncias mais adversas era incrível. Apesar do desastre, a vida continua! Ele continuava a planear as suas viagens, visitas a museus, convívios com amigos e planeava de forma detalhada os seus trabalhos e avaliações para o Curso de Imagem e Som, na Católica do Porto. Era apaixonado pela vida e pelo curso e nem com as suas debilidades físicas deixou de fazer voluntariado. O Luís era assim.

As ressonâncias iam dando sinais alarmantes acerca da evolução dos tumores e ele respondia-lhes com projectos. Era impossível lidar com esta situação sem o admirar. No entanto, era um jogo desigual, quanto mais o Luís se entregava à vida mais ela fugia dele.

Perante a postura do meu filho conclui que é com charme e elegância que se afasta a dor, não com berros; é com a vida que se contraria o desespero, não com restrições ou lamentações. O meu filho começava a ser notado no IPO de Lisboa pela forma serena, respeitosa e digna como se comportava perante o sofrimento indisfarçável das pessoas que o rodeavam.

Uma doença como esta produz diversos ensinamentos e o maior de todos – que tem de ser bem entendido e interiorizado –, é a imprevisibilidade. Um dia estamos bem, no outro estamos mal. Quem já viveu de perto este tipo de doença sabe que apenas se vive entre as crises, apenas se é feliz por intervalos.

Embora seja economista de profissão e adore o que faço, a poesia, a música e a fotografia são elementos constantes ao longo do livro e reflectem a minha vida. A poesia está ali para interagir comigo como o ar que respiro.

O amor é um lugar eterno e pensei que seria um excelente título para este livro. Contudo, à medida que fui escrevendo, não era capaz de me afastar da palavra “geometria”. Porquê “geometria”? Aproximar-me-ei das formas geométricas que as lágrimas traçaram no meu rosto? Será que projecto nessa palavra a forma da cicatriz que trago tão funda em mim? “Geometria” é uma palavra significante para marcar os dias de sofrimento e incerteza. Geometria também seguramente do rosto do Luís, um rosto que não quero perder. Morreu na madrugada de 17 de Novembro de 2012.

Procuro tornar o esquecimento incapaz, desejando que estas linhas possam ajudar outros em situações semelhantes.

Texto escrito na primeira pessoa a partir de uma entrevista com Luís Quintino