Estudo
A traição é mais rapidamente esquecida nas relações duradouras
Um estudo revela que seguimos mais facilmente em frente, depois de uma traição, quando estamos numa relação antiga. Essa escolha está associada a uma região do cérebro responsável por respostas automáticas
Lester Burnham, o protagonista do filme Beleza Americana, está descontraído a trabalhar num franchise de hambúrgueres. Já revolucionou a sua vida: começou a correr e a fazer musculação, fuma marijuana, abandonou um emprego que odiava, guia um Pontiac Firebird de 1970 enquanto canta American Woman, deixou de receber ordens da sua mulher, atira-se à amiga da sua filha adolescente e vai morrer. Naquele momento está feliz, a virar rodelas de carne na cozinha, quando ouve num altifalante a voz da sua mulher, bem-disposta, a pedir um hambúrguer duplo. Ouve também uma voz masculina e sabe, imediatamente, da traição. Mas dirige-se até à casinha onde se entregam os menus aos clientes que chegam de carro e apanha em flagrante um homem a beijar o pescoço de Carolyn, a sua mulher.
É um dos momentos "foste apanhada" mais memoráveis do cinema das últimas décadas. A descoberta podia ser uma oportunidade de separação para Lester. Afinal, uma traição parece sempre ser uma mistura de mentira, ofensa e cinismo, dificilmente desculpável, que gera camadas de sofrimento sem fim à vista. Mas a longa relação (psicótica) de Lester e Carolyn mantém-se até ao fim da película, com direito a uma epifania. Essa aparente capacidade de perdão parece estar marcada no nosso cérebro. As pessoas com relações longas estão mais dispostas a esquecer uma traição do que quem é traído numa relação nova, mostra um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Uma quebra na confiança não se reduz às relações amorosas. Pode acontecer entre amigos, em situações profissionais ou até no jogo. Para estudar o tema, a equipa de Karen Cook, da Universidade de Stanford, na Califórnia, utilizou um modelo que pôs os participantes do estudo no mundo do jogo.
A equipa colocou cem pessoas à frente de um computador para uma sequência de 24 jogadas. O computador ofereceu em cada jogada oito dólares. Cada participante podia ficar com os oito dólares ou dá-los a um jogador B. Essa segunda opção fazia com que o dinheiro triplicasse. Depois, o jogador B tinha a oportunidade de dividir o total do seu montante em 12 dólares entre si e o outro jogador ou, pelo contrário, de ficar com o total dos 24 dólares - o que, neste contexto, seria visto como traição.
O que não era revelado é que o jogador B era, afinal, um programa informático feito para este estudo.
A equipa dividiu os cem participantes em dois lotes. Num deles, o programa informático estava concebido para ficar com os 24 dólares logo na quinta ou sexta jogada, para estudar os efeitos da traição quando a ligação entre o participante e o jogador B era recente. No outro grupo, a "traição" do jogador B só acontecia mais tarde, na 15.ª ou 16.ª jogada, quando a ligação entre eles estava cimentada.
A equipa observou depois como os dois grupos reagiam após a traição: se voltavam, ou não, a confiar no jogador B nas jogadas seguintes. "A proporção de transferência de dinheiro foi significativamente maior nas relações mais longas", lê-se no artigo. O grupo traído mais tarde voltou a confiar mais rapidamente.
Em seguida, a equipa observou que partes do cérebro ficavam activas após a quebra de confiança, usando imagens de ressonância magnética. No caso de uma traição em que a ligação era recente, o participante activava mais o córtex cingulado anterior, associado a uma maior reflexão e deliberação sobre as acções. Enquanto as quebras de confiança mais tardias provocavam com mais frequência a activação o córtex temporal lateral, ligado a respostas automáticas.
"Estas descobertas podem ser aplicadas a várias situações", defende Oliver Schilke, outro autor do estudo, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Os resultados sugerem que as pessoas podem "perdoar mais" se a quebra de confiança ocorre quando já se conhecem há algum tempo", diz ao PÚBLICO. No início das relações, a traição poderá forçar a uma aprendizagem maior sobre o outro e a uma resposta mais planeada, associada à nova desconfiança.
No caso de Lester Burnham, ele próprio esteve prestes a trair a mulher com a amiga da filha, naquilo que seria a implosão final daquele lar. Mas parou no último momento, a tempo de voltar a olhar para a família com amor e de morrer grato.