Filipe Farinha/Stills

Depois de passear pelas grutas de Lagos encontra-se outro passado: o prazer de comer muito bem no Café Correia

Anseio que chegue o dia em que possa voltar a ver as grutas da Ponta da Piedade. Vai-se de Lagos num barco de pesca e os pilotos, além de eloquentes, são destemidos. Manobram os barcos conforme as marés, conseguindo insinuar-se em todas as espantosas reentrâncias.

São poucas as experiências na vida que nos enlevam. As mais bonitas são as que parecem reais, precisamente. Não suscitam sensações de magia ou de intoxicação. A beleza é tanta que ficamos comovidos de olhar para ela.

São assim as grutas de Lagos. O pulsar das ondas e da luz, dos raios do sol na água azul, parecem um coração colorido a bater no fundo do barco dançarino, enquanto as nossas bocas se abrem a ver as paisagens que não podem ser vistas de outra maneira, a não ser que se seja gaivota.

As viagens só duram uma hora e tal mas é tal a sequência de pasmos e de surpresas que não se dá pelo tempo a passar — não há momentos mortos nem intervalos que nos dêem tempo para recuperar a respiração. O espectáculo é a costa algarvia perto de Sagres, o lugar onde é mesmo verdade que o mar acaba e a terra começa, ao contrário do que se diz.

Tem-se a sensação feliz de chegar a casa, à casa onde se nasceu; à casa onde se tem a sorte de viver. E é uma casa de rocha branca à beira do mar.

Qual é a melhor hora para fazer o passeio? Depende das marés, mas uma viagem bonita é a última do dia, que começa pelas seis da tarde. Com o tempo tenciono conhecer todas as marés e todas as horas do dia porque aquilo é tão bonito que apetece ver com todas as condições diferentes de luz, de mar e de tempo.

Para continuar em beleza segue-se para Vila do Bispo para o Café Correia, o maravilhoso restaurante da família Dias Baptista: da Lilica, do José Francisco e do Sérgio. Joana Júdice, aqui na FUGAS, escreveu uma crónica fundamental para a apreciação da experiência gastronómica que lá oferecem: “Vila do Bispo, perceves ou não percebes?” 

O Café Correia está à beira de fazer 50 anos e é tal o amor dos milhares de clientes pelos pratos criados há quatro décadas pelo talentosíssimo José Francisco que a carta é praticamente a mesma desde a inauguração.

A diferença, claro, é que José Francisco tem quase uma vida de experiência a prepará-los, sempre do zero, com o maior cuidado e os melhores ingredientes.

Este zelo precisa de ser devidamente celebrado e a única maneira de celebrá-lo é respeitá-lo na prática. As coisas boas levam tempo. Os clientes precisam de aprender a esperar, a não ter pressa.

A dona Lilica faz o favor de educar as pessoas que lá chegam ?à espera de serem sentadas ?e servidas imediatamente. ?Para já ela só senta quem pode servir. Recusa-se a cortar na qualidade da comida só para despachar mais mesas. É uma atitude de generosidade e de respeito gastronómico.

Ouvem-se e lêem-se comentários a dizer que ela é malcriada e recebe mal as pessoas. Não é verdade. Ela dá-nos uma escolha. Para comer no Café Correia é preciso tempo. A refeição, apesar dos preços de amigo, é luxuosa. Está cheia do ingrediente mais luxuoso de todos: o tempo, o tempo que leva a cozinhar tudo como para ficar perfeito.

Nós, os clientes, é que temos as expectativas deturpadas pelas pressas citadinas que levam a acomodações e transigências gastronómicas. A dona Lilica, com a sabedoria da cozinha clássica, ajuda-nos a recuperar a sensatez e o vagar que levam ao prazer e à satisfação de comer bem.

O Café Correia não é um café: é um grande restaurante. Só os preços são pequenos. Os pratos são muitos e bons. Só os lugares é que são poucos. Para mais não são nada lentos: os pratos chegam nos tempos certos, sempre a aproveitar a boleia do apetite anterior.

Se as grutas de Lagos fazem ver o recorte de um Portugal que não passa, a cozinha do Café Correia mostra que em terra também se encontra o eterno.

Café Correia
Rua 1.º de Maio, 4
Vila do Bispo
Tel.: 282639127. 
Fecha aos sábados.