Enric Vives-Rubio

Os copos com que bebemos são complicados porque nós somos complicados. De resto, não poderia ser mais simples...

Dizem-se muitos disparates sobre copos de vinho mas o maior disparate de todos é dizer que o copo é indiferente.

Há modas para os copos também. O copo favorecido desde o famoso teste publicado pela revista Stern a 10/12/2009, onde o júri era constituído por profissionais do vinho e do vidro (incluindo Georg Riedel), é concavo e depois convexo. A maior abertura surge uns centímetros depois do pé e, a partir daí, o copo vai fechando progressivamente até chegar ao rebordo.

Chama-se este copo de tulipa mas é uma tulipa cujo fundo é em V e cujo fim é a parte mais estreita do copo. Há copos que abrem um bocadinho na parte que vai ao nariz ou à boca — estes não são aconselháveis.

Num extremo pode ter-se 20 copos para diferentes bebidas — isso faz parte do divertimento, desde que se saiba que é um divertimento e não um dever ou um atestado de sabedoria profissional.

A única coisa que devemos fazer é escolher o copo que mais gostamos de usar. Talvez o elemento mais importante seja a grossura do vidro: quanto mais fininho, maior o prazer, porque se minimiza a barreira entre os lábios e o líquido.

Começam já aqui os antiquíssimos problemas. O vidro mais fino é o mais caro. O vidro mais fino é o que mais se parte. O vidro mais fino é o mais angustiante de lavar. Podemos ler dezenas de testemunhos a dizer que o vidro moderno aguenta 1500 lavagens na máquina da louça. Mas depois aconselham que a máquina seja Míele e que se compre um cesto especial para os copos e vários outros cuidados que não são despreocupados.

Os copos mais finos são igualmente difíceis de lavar à mão, mesmo quando se tem cuidado. A melhor coisa é aceitar que se partem e considerar que o dinheiro que se pagou por eles serviu para comprar um prazer delicioso, mas efémero, como o vinho.

É importante que o copo dê prazer. Como membros do público (e não enólogos ou críticos de vinhos), é melhor um copo que elogia os vinhos do que outro concebido para mostrar os defeitos.

Os críticos de vinhos têm de provar muitos vinhos de uma só vez — e rapidamente. A experiência de beber só um vinho em casa ou num restaurante é completamente diferente. O vinho já está comprado — agora trata-se de gozá-lo.

A beleza do copo é importantíssima. Embora não se possa quantificar, os olhos também comem e, para além disso, sendo humanos, pagar mais por um copo bom e fininho predispõe-nos para apreciarmos mais o vinho que bebemos com ele. A companhia, a paisagem e o estado de espírito são mais importantes que o copo, claro, mas não é por isso que se justifica um copo qualquer.

Deve-se cheirar o copo antes de usá-lo. A nossa água tem muito cloro e os detergentes têm aromas florais e alimonados: separados ou juntos, dão cabo de qualquer líquido. Outro estraga-prazeres são os panos de limpeza. Podem ser muito bons — como o da Riedel — mas agarram os cheiros que removem e ficam com eles. Têm de estar bem lavados e secos (o mofo é omnipresente).

Os críticos de vinhos são excelentes críticos de copos por causa da experiência que têm com eles. Jancis Robinson é a mais sensata no que toca a copos. No site dela, conta que, em casa, quando o vinho é bom e não tem convidados, usa os copos Universal da Zalto. Felizmente há três artigos dela sobre copos que estão livremente acessíveis na web. Vale mesmo a pena ler o que ela diz, com a inteligência, frontalidade e humor com que sempre escreve: aqui, aqui e aqui

Em Abril deste ano, Michael Sullivan, de The Wirecutter/New York Times, fez um vídeo, com a ajuda de muitos peritos e do crítico de vinhos do jornal, Eric Asimov. Está no YouTube e chama-se Talking With The Experts: The Best Wine Glasses e avalia cerca de 80 copos num estudo admiravelmente equilibrado e justo.

Na próxima semana passarei das generalidades para copos específicos que comprei e experimentei.