PAULO RICCA/arquivo

Um bem nunca vem só: a melhor Água das Pedras é a da garrafa mais barata e mais fresca

A Água das Pedras é um dos monumentos de Portugal. Não passo por uma garrafa sem fazer continência. Já me valeu tantas vezes que estou a pensar deixar-lhe os meus órgãos digestivos no meu testamento.

É injusto beber Água das Pedras quando se está de ressaca porque a ressaca precisa de muito mais cuidados para passar. O mais difícil de aceitar é o tempo. Esperar milagres da Água das Pedras é tipicamente português. Quando as Pedras não fazem o absurdo que delas se espera, amaldiçoam-se por “não fazer nada”.

Para já, a Água das Pedras é deliciosa. Agora que está na moda falar na mineralidade dos vinhos, é apropriado falar na frescura mineral da Água das Pedras. É uma água que sabe tão bem que os benefícios físicos vêm por acréscimo.

Agora há várias águas das Pedras com sabores. É uma moda inexplicável esta que consiste em contaminar a preciosa Água das Pedras com mistelas de framboesas, limão e ginseng. Constitui um desperdício — lá está — monumental. É como encher a Torre de Belém com vasos de sardinheira. Estraga desnecessariamente uma coisa que já é perfeita como é.

É verdade que a Água das Pedras se presta a misturas. É deliciosa uma limonada fresca (bons, desencerados e recém-apanhados limões espremidos) feita com Água das Pedras. As bolhinhas são perfeitas e o travo calcário-bicarbonatado das Pedras fica a matar.

Na mais recente edição do livro Cognac, de Nicholas Faith (que recomendo entusiasticamente), ele conta que muitos franceses bebem cognac com água Badoit. Ele próprio prefere com Perrier. Os outros “chatinhos do Cognac” dizem que a Perrier é salgada de mais. O autor, sendo da velha escola aristocrática do brandy and soda, mantém-se firme.

Já os produtores de cognac, que durante um século resistiram a promover qualquer mistura (mesmo quando, antes do triunfo dos whiskies, reinavam o brandy and soda e o fine à l’eau), andam agora a promover o cognac com água tónica (uma combinação desgraçada). Os franceses, livres como são, bebem cognac com ginger ale. Isto é, acompanham os cognacs, armagnacs e calvados com aquilo que se acrescenta aos whiskies para torná-los em long drinks.

Já experimentei Água das Pedras como mixer de whiskies e aguardentes — para juntar o útil ao agradável, por assim dizer — mas não recomendo.

O que é muito bom é beber Água das Pedras em grande quantidade enquanto se está a beber bebidas alcóolicas. Combate a desidratação e, como tal, pode aliviar a manhã seguinte.

A melhor Água das Pedras é, sensacionalmente, a mais barata. A Água das Pedras que se deve procurar, por todas as razões, é aquela de garrafa reutilizável. Identificam-se porque não têm o símbolo do caixote de lixo: estas são genuinamente recicladas porque voltam a ser enchidas. O vidro é de maior (ainda) qualidade e a data de validade tende a ser muito mais distante porque foram enchidas há pouco tempo.

São mais frescas e mais baratas: uma garrafa grande de 75cl custa à volta de 75 cêntimos. A frescura é importante porque têm mais gás (oriundo do local de captação) e estão mais vivinhas. Há até uma teoria, entre os maluquinhos da Água das Pedras (uma comunidade idiossincrática e quezilenta) que a Água das Pedras das garrafas com tara é engarrafada tal e qual sai da nascente e submetida apenas à mais leve das filtrações (para reduzir o flúor). É por isso que mais faz lembrar a Água das Pedras do remoto século XX, antes da adopção das técnicas de readsorção hoje vigentes.

Quantas vezes é que a versão mais fresca e deliciosa de uma bebida é também, de longe, a mais barata? Sim, pensando bem, muitas vezes. Mas a Água das Pedras é um caso especial. Também gosto, já agora, da nova garrafa de vidro de meio litro, ideal para uma pessoa sedenta.

A Água das Pedras é boa todo o dia mas é pena serem poucos os restaurantes com garrafas grandes de 0,75: acompanham lindamente qualquer refeição, devidamente acondicionadas num balde de frappé.

É também deliciosa depois das refeições, como digestivo. O bicarbonato de sódio é o suficiente para provocar um bom arroto (ou dois) mas o melhor, como sempre, é a maneira deliciosa como nos refresca. Tal como acontece com os coentros, há quem odeie Água das Pedras. Mas quem não odeia, adora. E é mesmo assim que deve ser.