nelson garrido

Nunca é tarde para começar a beber aperitivos dignos desse nome como o Lillet, o Byrrh e o Punt e Mes

Porque é que Portugal, ao contrário da Espanha, da França e da Itália, não adere ao aperitivo? O hábito de beber um aperitivo antes do almoço ou do jantar é uma prova de civilização.

Tomar diariamente um aperitivo — uma bebida, algumas azeitonas, uns petiscos — é criar duas novas refeições. Vai-se a um lugar simpático onde se trocam dois dedos de conversa: um café, um bar, um hotel, uma esplanada.

Ou então, já sentado na casa ou no restaurante onde vai almoçar ou jantar, toma lentamente um aperitivo enquanto pensa no que vai comer.

A minha geração, infelizmente, estragou a oportunidade de introduzir o hábito do aperitivo. Bebíamos cocktails, gin tónicos e até whiskies antes das refeições. Achávamos que um negroni (quantidades iguais de Campari, gin e vermute tinto com uma fatia de laranja) era um aperitivo. Não é. Tem álcool — e açúcar — a mais.

Aqui ao lado, no Jerez e em Montilla, os andaluzes produzem finos e manzanillas que são uma delícia sequíssima, ideais para abrir o apetite ou acompanhar uma refeição de petiscos salgados. Os preços não poderiam ser mais convidativos — uma garrafa de Tio Pepe custa 8 euros — mas não há maneira de aprendermos.

Os espanhóis têm também cada vez mais vermutes — tantos e tão individualizados que é impossível conhecê-los todos. Os franceses e italianos têm tantos aperitivos — muitos deles antiquíssimos — que é um projecto de vida prová-los todos.

Por onde começar? É impossível começar. Comecemos por apresentar um casal encantador, Isabel e Christopher Collas, que há 10 anos criaram uma empresa, a Wine Time, para representar algumas dos melhores vinhos — e aperitivos — da França.

Visitei-os no meio de uma mudança mas responderam a todas as minhas perguntas sobre aperitivos. Comprei uma garrafa de Byrrh e outra de Lillet Blanc mas a minha experiência foi muito além da mera compra.

Tanto Isabel como Christophe são conhecedores e bons vivants. Sabem do que falam. Num mundo cheio de campanhas publicitárias, é indispensável saber em quem se confia. Por exemplo, a Wine Time representa todos os vinhos Lillet (há um Rouge, um Rosé e um Reserve Jean de Lillet) mas Christophe disse-me que o clássico é o Blanc.

O Lillet branco aparece numa aberração chamada Vesper — um cocktail horrendo, que mistura gin e vodka, inventado para James Bond por Ian Fleming. É para esquecer, tal como o dry martini feito com vodka e sacudido em vez de mexido.

O Lillet deve beber-se muito frio com uma pequena fatia de uma boa laranja. Como tem 17 graus de graduação alcóolica, também aguenta duas pedras de gelo, para manter-se frio.

O Lillet tem um sabor delicioso, mas subtil, onde se nota o quinino. É meloso e citrino, seco e doce ao mesmo tempo. Não se parece nada com qualquer vermute ou vinho generoso. Trata-se de um cocktail de vinhos brancos extremamente bem feito e original. Não concebo maneira de usar outras bebidas para tentar misturar uma cópia do Lillet Blanc. Tem mesmo de se provar. Vale mesmo a pena.

A versão anterior do Lillet chamava-se Kina Lillet e tinha, segundo os apreciadores, mais sabor a quinino. Não senti falta nenhuma mas quem gosta dos aperitivos mais quinados tem na Wine Time duas outras obras-primas: o vermute Punt e Mes e o Byrrh.

O Punt e Mes é um aperitivo clássico produzido pela excelentíssima Carpano. É espantoso por combinar muito bem a adstringência gulosa do quinino com as ervas aromáticas e os açúcares queimados do vermute de Torino. Tem uma graduação de 16 graus.

Quinino não é o nome certo para o sabor do casco da árvore Cinchona calisaya. Em Portugal, onde a Ramos Pinto continua a produzir um dos melhores aperitivos do mundo, prefere-se dizer quinado. Se gosta do sabor da água tónica mas acha que escusava de ser tão doce, então deve provar uma destas bebidas.

O Byrrh, com 18 graus, é o aperitivo mais quinado e guloso de todos. É quase intransigente. Para apreciá-lo merece ser bebido só ligeiramente fresco. Não só não precisa de mais nada como exige ficar sozinho. Para não estragar. Ou perder o apetite.

Wine Time
wine-time.biz
Tel: 213 624 606
Preços: Lillet Blanc, 19,68€; 
Byrrh, 15,99€; Punt e Mes, 10,25€.
Tel: 213 624 606
Preços: Lillet Blanc, 19,68€; 
Byrrh, 15,99€; Punt e Mes, 10,25€.