Rui Gaudencio

Para comer sempre muito bem, e nunca gastar mais de 10 euros, só há um sítio em Lisboa que nunca falha: é a Cantina do Templo Hindu

Há segredos que não se contam. Toda a gente conhece um restaurante muito barato, sempre cheio de fiéis, que é preciso guardar como um segredo, não vá rebentar pelas costuras.

Mas que se há-de fazer quando o sítio onde se come muito bem faz parte de um verdadeiro lugar de culto, neste caso o Templo Hindu de Lisboa?

Se são santas e generosas as pessoas que cozinham para nós, como é que nós temos o egoísmo de ficar calados?

Na Cantina do Templo Hindu almoça-se e magnificamente por apenas 8 euros. Isto inclui as bebidas (lassi e chai à vontade), os pães (chapatis e papas), o arroz, a salada, os pratos principais (um dhal e dois guisados) e os três maravilhosos molhos.

Caso queira acrescentar uns salgadinhos (dos quais a chamuça é só um) paga mais um euro. Se quiser sobremesas ponha mais um euro. Como não há questão de gorjetas, o mais que se pode gastar por pessoa é 10 euros.

É o que acontece ao jantar. Custa 10 euros porque já inclui os salgados e as sobremesas. Note-se que, em quatro visitas, nunca consegui arranjar espaço na barriga para salgados ou sobremesas. A comida é tão boa que é inevitável exagerarmos.

Dizem-se muitos disparates sobre a cozinha indiana. A Índia é um país gigantesco, grande de mais para generalizações idiotas. Na cantina do Templo Hindu a cozinha é gujarati. É preciso ler uns quatro ou cinco livros para ficar com uma pequena ideia das delícias desta região tão abençoada.

Não se pode dizer que seja uma cozinha vegetariana porque o termo, na cultura ocidental, pressupõe falta de carne, peixe e ovos. A cozinha gujarati é riquíssima porque nunca usou nada dessas coisas — nem precisa delas para nada.

Os pratos são deliciosos graças a séculos em cima de séculos de experimentação. Cozinham com 20 vezes mais ingredientes do que nós, preparando pratos muito mais complexos que levam muito mais tempo a apurar.

Nunca se pensa em peixe, marisco, frango ou ovos. A única coisa em que se pensa é “Ai que bom! Como é que eu consigo comer assim todos os dias?”

As pessoas do Templo Hindu recebem as visitas com naturalidade. Não há artificialismos ou cerimónias. Somos todos seres humanos. Os pratos são diferentes todos os dias mas são sempre muito bons.

É um alívio não ter de escolher. Todos dispomos do mesmo tabuleiro de alumínio de onde comemos, com uma tigela para o dhal, outra para os molhos e um copo para beber lassi ou água fresca.

O ambiente é tranquilo e descontraído. Está-se mesmo à vontade. Nunca nos sentimos intrusos ou principiantes. Se precisarmos de ajuda alguém tem a gentileza de nos ajudar. É tão simples como isso. É como se já lá fôssemos há um par de anos.

Aquilo que acontece na Cantina Hindu, como é conhecida pelos fãs, é vermo-nos livres de todos os preconceitos gastronómicos. Não vale a pena tentar trazer outras experiências culinárias. Nada é preciso para apreciar esta cozinha. Não é preciso gostar de cozinha indiana ou de “picantes” ou “caris” ou de outros estereótipos escusados. Basta gostar de comer bem. Basta gostar de sabores profundos, extremamente bem cozinhados, feitos para agradar a toda a gente. Nem sequer se concebe haver quem não possa gostar.

A primeira vez que lá fomos foi numa sexta-feira. Voltámos lá no sábado e no domingo. Na segunda-feira só não fomos porque estão fechados. É estranho, não é, como uma pessoa se habitua depressa a comer bem por pouco dinheiro?

A Cantina Hindu tem muitas outras vantagens invulgares. Tem, por exemplo, um parque de estacionamento enorme e gratuito que tem sempre lugares. Está concebido para grandes casamentos, estando assinalados os lugares para os noivos.

Também a cantina é grande e não se atrasa nem um segundo por causa disso. Sentimo-nos privilegiados porque, de facto, somos. Temos muita sorte de contar com a comunidade hindu e mais ainda por eles contarem connosco para almoçar e jantar. Bem.

Cantina da Comunidade Hindu de Portugal 
Templo Radha Krishna
Alameda Mahatma Gandhi, Telheiras, Lisboa
Tel.: 217524982
Horários: de terça a domingo, das 12h às 14h30 e das 19h30 às 21h30.