Na ponta da língua
Bebidas antigas para as crianças sem fome e os adultos que só passam fome à noite
O melhor artigo sobre Horlicks foi escrita pelo sábio e avinagrado médico e ensaísta Theodore Dalrymple. É de Maio de 2014, chama-se Of Horlicks and Heroism e está disponível grátis online.
Horlicks era abertamente vendido como um indutor de sono. Hoje atribuem-se ao leite quente com que o Horlicks é feito as propriedades soníferas. Mas a verdade é que continua a ser vendido como bebida a tomar antes de dormir, já que os consumidores acreditam que garante um sono tranquilo.
Eu não posso desmenti-los. De cinco em cinco anos compro um frasco de Horlicks para me actualizar e durmo sempre melhor quando bebo uma caneca da famosa mistela.
Nos anos 1930 a publicidade da Horlicks conseguiu convencer as pessoas que havia uma coisa chamada, dramaticamente, “night starvation” — inanição ou enfraquecimento pela fome durante a noite — que fazia com que se acordasse sem energia nem concentração, passando-se o dia inteiro numa moleza que levava ao desemprego, ao abandono do lar conjugal e, implicitamente, à morte numa valeta qualquer.
Procurem-se os anúncios ilustrados na Internet: são de morrer a rir, até por terem sido tão convincentes. Cobardemente, a expressão “night starvation” aparece sempre protegida por aspas, não vá alguém lembrar-se de dizer que não tem qualquer cabimento médico. O senhor W.H.Gillespie de 26 Eccles Road, Clapham Junction, London SW11, confessa, com cara pesada e vencida pela vida: “I never imagined that ‘night starvation’ was to blame.” No canto inferior esquerdo, já repleto de Horlicks e sorridente, gaba-se: “You should see me now!”.
O anúncio consta da revista Punch de 7 de Fevereiro de 1934 e remata, com aquela falta de vergonha em usar maiúsculas que só o fascismo viria a derrotar: “HORLICK’S GUARDS AGAINST ‘NIGHT STARVATION’.
Theodore Dalrymple descobriu que o autor deste aldrabice genial foi um poeta escocês chamado Norman Cameron, trabalhando para a J.Walter Thompson em 1931. Dylan Thomas disse que Cameron era o melhor amigo dele. Escusado será dizer que ambos eram mais amigos do álcool do que um do outro e que gostavam mais de adormecer com uma garrafa de whisky do que com uma caneca de Horlick’s. Norman Cameron morreu com 48 anos, seis meses antes da morte de Dylan Thomas, com 39.
Horlick’s é feito, sobretudo, de malte de cevada e de açúcar. Tem também vitaminas e outras coisas. O sabor é igual ao do interior das bolinhas Maltesers. Quem gostar de Maltesers (eu, de braço esticado, me confesso) há-de gostar de Horlick’s.
É pena ser tão doce. É uma pena que se estende ao Ovomaltine. Foi inventado para combater a subnutrição e, mais tarde, também se vendeu como ideal para as crianças que não têm fome e — lá está — para os desportistas e intelectuais que gostavam de dormir uma noite descansada.
A fórmula original do Ovomaltine não continha açúcar e até hoje, na esclarecida república helvética onde nasceu, o Ovomaltine continua a fabricar-se e a vender-se sem açúcar. Isto faz sentido — duh! — porque assim cada um acrescenta (ou não) o açúcar que quer. Era assim também com o saudoso Vigormalte (“o reconstituinte para todas as idades”), fabricado pela Martins e Rebello e que hoje pertence à Indulac, a quem se roga que pense em relançar o Vigormalte. A Nestlé, em 2013, também relançou o Milo mas receio que o público não tenha correspondido ao corajoso gesto. E o que é feito do delicioso Suchard Express, já agora?
No resto do mundo o Ovomaltine tem açúcar — e açúcar de mais. É mesmo o segundo ingrediente da receita, logo após os 39% de malte de cevada.
Em Portugal é importada pela Nutpor, que faz parte do grupo espanhol Adam Foods. O rótulo é impreciso. Diz que “é produzido na Suíça” mas depois acrescenta “por Ovomaltine International, Andover, UK”. Tudo leva a crer, por isso, que o Ovomaltine que se compra em Portugal é fabricado no Reino Unido.
No meu tempo o Ovomaltine era mais granulado e ainda menos achocolatado. A Maria João, que era fã do Ovomaltine e cresceu nos anos 1970, diz que o antigo era muito melhor. Eu, que cresci nos anos 1960, não noto diferença — mas, como nunca gostei de Ovomaltine, a minha opinião é tão indiferente como suspeita.
No Verão, tanto o Horlick’s como o Ovomaltine podem ser bebidos muito frios e perversamente. O Horlick’s dissolve-se primeiro em água e depois em leite quente; o Ovomaltine em leite quente. Para beber imediatamente sacuda-os num shaker cheio de gelo e desfaça-se da espuma que resultar.
Pode-se acrescentar uma colher de cacau puro ou, para brindar Dylan Thomas e Norman Cameron, um copinho de jovem cognac.