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Para beber uisquezinhos frescos e levezinhos no Verão basta fazer como fazem os mestres japoneses

Andava a escrever um livro sobre sushi e sashimi com o saudoso Takashi Yoshitake que trouxe a cozinha tradicional japonesa para Lisboa em 1991 e que a serviu e ensinou até morrer, de repente, em 2009. Tinha só 56 anos.

Gosto de ir aos cadernos onde eu ia escrevendo o que ele dizia e, sobretudo, explicava. Descubro sempre coisas novas, de que me tinha esquecido.

Não era só com chá ou sake que se acompanhava sushi. Yoshitake dizia que os japoneses também gostavam de beber whisky. Aliás, tradicionalmente o whisky era bebido por grupos de pessoas só às refeições.

Como é Agosto, é uma boa altura de falar das três maneiras de beber whisky que são tipicamente japonesas. Trata-se do estilo mizuwari: misturado com água.

Para poder beber whisky à refeição — ou para poder beber mais whiskies sem se ficar bêbado — os japoneses são mestres da diluição com águas minerais leves, com ou sem gás e com gelo de grande qualidade.

Um bom guia para principiantes está no japanese-whisky.com. Aí dizem que “só as pessoas japonesas, por razões culturais, continuaram a diluição para criar omizuwari e o highball em que a mistura é dois-terços água e um-terço whisky”. “A agressão na boca desaparece completamente. A água mitigou muitos aromas e o perfil de sabor mudou significativamente, sem ter desaparecido. O seu whisky tem agora a potência de uma cerveja e, servida num copo alto cheio de cubos de gelo, é ideal para acompanhar a refeição.”

Mizuwari é usado quando a diluição é feita com água sem gás e highball é usado quando é usada água com gás. A ideia de baixar o grau alcóolico do whisky até ao da cerveja é demonstrada pela moda de servir os highballs em canecas de cerveja. Felizmente este pormenor cervejeiro está em recessão.

No Japão a água gaseificada mais usada para misturar com o whisky é engarrafada pela Suntory, uma das grandes destilarias japonesas. Na Europa a mais parecida será a Perrier. A portuguesa mais parecida é a Água Castello. Na minha longa experiência são precisamente essas duas águas que se portam melhor com whiskies leves e novos.

No Japão também há a maneira de servir whisky num copo de vinho, sem gelo, com metade de whisky e metade de água mineral. Chama-se um Twice Up.

Os japoneses também são mestres a fazer e a esculpir gelo. Para beber whiskies mais velhos usam a técnica one ball. Esculpem à nossa frente uma bola de gelo transparente, feito com uma levíssima água mineral, que enche completamente o copo. Alguns deitam água primeiro, para baixar a temperatura do copo, despejando-a antes de deitar o whisky.

Outros deitam directamente o whisky. A bola é depois cuidadosamente levantada e rodada para baixar a temperatura do whisky com o mínimo de diluição.

Claro que os japoneses também bebem whisky como toda a gente. O que é excepcional é a falta de preconceitos e a capacidade para inovar, seja na apresentação mais luxuosa ou na mais prática, como poder-se comprar bom whisky mizuwari ou highball em latas. Há latas de highballs com Nikka 12 anos ou o Suntory Highball. Têm um grau alcóolico de 7 graus. Uma lata de boa cerveja é só um bocado mais barata.

Os melhores vídeos com barmen japoneses a demonstrar como se constrói um mizuwari ou highball são japoneses mas vale a pena vê-los à mesma.

Eles primeiro arrefecem lentamente o whisky com pedras de gelo especialmente cortadas para o copo alto. Depois deitam a água e, com a mesma delicadeza, mexem a bebida até estar perfeita.

É óbvio que os japoneses têm razão e que o resto do mundo, preconceituoso e reaccionário, não. A verdade é que o whisky leve, floral e novo presta-se muito bem a ser misturado com muito gelo e muita água (lisa ou gaseificada) para constituir uma bebida refrescante de baixo teor alcóolico.

Devemos aprender com eles. Eles também fazem questão de aprender connosco — e depois aperfeiçoam o que aprenderam. É altura de — pelo menos tentar — imitá-los.