Na Adega do Saraiva é tudo tão bom que é preciso resistir e recusar para se sair de lá com duas pernas para andar

Dá gosto revisitar certos restaurantes preferidos para saber se continuam bons. Há dois anos que não escrevia aqui sobre a Adega do Saraiva. Essa é a primeira coisa a dizer: o Saraiva continua a ser muito bom.

É uma alegria almoçar ou jantar lá. Claro que é um restaurante popular: oferece grandes meias doses (que dão para duas pessoas) de pratos deliciosos por preços de amigo. É mesmo preciso marcar. E marcar com grande antecedência para os fins-de-semana. Aos domingos há filas de famílias à espera de uma mesa. Não se importam; já estão habituadas. Mas para quem não gosta de esperar o melhor é marcar, ir lá almoçar ou jantar num dia de semana (que não à segunda, quando estão fechados).

Depois de lá ter estado saberá que há duas salas diferentes — uma mais soalheira e almoceira, a outra mais íntima, acolhedora e jantareira — e poderá decidir qual é a mesa de que mais gosta.

O Saraiva é um restaurante de cozinha tradicional portuguesa mas a verdade é que os pratos que lá servem são, na verdade, recriações da dona Emília Saraiva, que lá cozinha diariamente há mais de 50 anos.

A caldeirada das sextas, sábados e domingos, por exemplo, é uma caldeirada de safio, tamboril e raia com um molho leve e delicioso que é segredo da dona Emília.

A mão de vaca com grão — que é a estrela das quintas-feiras — é irresistível (nem sei onde vai buscar grão tão grande, fresco e saboroso) mas também tem uma mãozinha da dona Emília.

Acontece o mesmo com o famoso cabrito — o tempero é um segredo. Houve até uma vez que fizeram lá leitão com o tempero do cabrito e ficou formidável.

O Saraiva é uma casa de família. De uma família feliz, sábia e generosa. Já morreu o grandioso António Saraiva mas a mulher dele, a dona Emília, a filha, Maria João, e o genro, João Pedro, trabalhavam com ele há mais de 30 anos e o Saraiva sempre foi a soma de todos esses talentos e de todas essas dedicações.

As cozinheiras que trabalham com a dona Emília são todas excelentes e de longa data. É o caso da Fátima, na cozinha e, na grelha, ensinada pelo próprio António Saraiva, a Cristina, que tem o condão para grelhar que só é dado a poucos.

As empregadas são todas simpáticas e eficazes — a Catarina, a Sílvia, a Paula — mas são também personalidades. Dá gosto falar e aprender com elas.

Aos fins-de-semana aparecem, para ajudar, as duas netas de António Saraiva: a Marta, que é arquitecta, e a Madalena, que é psicóloga. O ambiente é sempre de festa. Os clientes são todos amigos da casa há muitos anos e todos se conhecem. Antigamente, quando almoçava lá sozinho, percebi que o Saraiva é uma família que abre a casa a quem lá quiser ir. Nunca me senti sozinho.

Os vinhos e o azeite são escolhidos a dedo pelo João Pedro, que compra toda a produção. São muito bons e, para o que são, pechinchas. O pão que chega quente ao meio-dia é estaladiço e profundo.

O perigo do Saraiva é sair de lá com a barriga cheia de mais. É tudo tão bom e bem servido que, para não exagerar, vai ter de rejeitar coisas muito boas, postas à sua frente.

Num sábado que lá fui as sardinhas estavam tão boas, grelhadas pela Cristina, que já tinham esgotado à uma da tarde. Nem uma pude provar: mas vi as expressões radiantes das pessoas que tiveram sorte. Às quintas-feiras é dia de peixe e é preciso chegar cedo para apanhar o peixinho desejado porque vai-se todo num instante.

Há tanta coisa boa no Saraiva que vou ter de realçar só algumas: o bife com molho da dona Emília, as saladas de alface e cebola com coentros, a canja, o arroz-doce, a fruta, o afrutadíssimo gelado de framboesas de Almoçageme feito pela Maria João. Telefone antes para saber os dias em que se fazem a canja e o arroz-doce. Acabadas de fazer são de virar os olhos.

O Saraiva é o restaurante onde se vai para comer à antiga portuguesa, com fartura, trabalheira e requinte. Só que essa maneira de cozinhar “à antiga portuguesa”, como acontece apenas nos melhores restaurantes tradicionais portugueses, só é praticada ali naquele restaurante, com aquela maravilhosa equipa que só conhece aquela maneira de trabalhar: no duro, à antiga, com sabedoria, convívio e umas risotas para aliviar.

Largo do Paquete
Lote 4, Nafarros, Sintra.
Tel.: 219 290 106. Fecha à segunda-?-feira e não tem Multibanco. ?A página no Facebook vale a pena, com fotografias honestas.