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Almoçar em Cascais à antiga cascaense ainda é possível, mas só no Beira-Mar

Com cada Verão que passa, a arte de almoçar em Cascais mais se perde. Os dias de praia são compridos de mais para se almoçar à pressa. Ou, mesmo que não se vá à praia, há melhor tempo para um almoço demorado ao ar livre, na esplanada de um restaurante de primeira classe, onde não se abdica de um único pormenor de óptimo serviço ou de óptima gastronomia.

O único restaurante em Cascais que continua a oferecer este luxo é o Beira-Mar que, através de um grande esforço, se recusa a adoptar os métodos industriais de caça ao turista, seja ele estrangeiro ou português.

Conheço-o desde que abriu — ainda era o meu pai a pagar as contas — e posso dizer que tratam tão bem as crianças como os adultos, os clientes antigos como os novos, as autoridades gastronómicas como os principiantes.

Em Julho consegui lá almoçar na esplanada sem ter marcado mesa — foi um imprevisto que me tinha levado a Cascais e, chegando o meio-dia e meia, deu-me uma vontade imensa de lá almoçar.

Graças ao maldito declínio da arte estival de almoçar “alfresco”, e ao facto de ser um dia de semana, havia uma mesa livre onde almoçámos o mais tradicional e familiar almoço do Beira-Mar: amêijoas à Bulhão Pato (magníficas amêijoas magnificamente feitas, como sempre), filetes de pescada com arroz de berbigão e o melhor molho tártaro do mundo, rematados pelo melhor e mais deliciosamente equilibrado cheesecake do mundo, feito em Cascais por uma pessoa cujas iniciais são SA. Depois de muitos anos, a dona Lourdes, a sábia proprietária do Beira-Mar (um dos restaurantes preferidos de outra famosa dona Maria de Lourdes), confiou-me a identidade da autora do cheesecake. Uma das melhores experiências do mundo é encomendar-lhe directamente um ou dois cheesecakes e ir a casa dela buscá-los, acabadinhos de fazer.

Já comi cheesecakes no mundo inteiro e este é o único que não é doce, gordo ou complicado de mais. Vale a pena ir ao Beira-Mar só para comer este cheesecake — e estou a falar do restaurante de Cascais e da linha do Estoril onde se come o melhor peixe, os melhores mariscos e as melhores amêijoas e que tem o mais exímio serviço desde que o Porto de Santa Maria deixou de ser o que era.

Eis então um segredo incrível: é fácil arranjar mesa para almoçar na esplanada do Beira-Mar neste mês de Julho, se for num dia de semana. Mesmo assim, é essencial marcar.

Cascais está irreconhecível, completamente turístico, a fazer lembrar a maldição de Albufeira. O Beira-Mar é um oásis de boa cozinha cascaense — tem salmonetes como só se encontram em Setúbal e que sabem grelhar como deve ser — na ponta de um deserto de aldrabices.

Apesar de estar mesmo atrás da lota de Cascais, é difícil lá chegar. É quase impossível estacionar lá perto. Eu costumo deixar no bom parque subterrâneo do Hotel Baía, a vinte passos do Beira-Mar. Mas em Agosto parece que também fica cheio.

Há uma única solução: quando telefonar para marcar a mesa aproveite para pedir a opinião dos maiores peritos de estacionamento para o Beira-Mar que existem: os próprios empregados do Beira-mar.

Pode apanhar um táxi que deixá-lo-á na própria esplanada do Beira-mar. É barato porque, na verdade, o Beira-Mar fica no centro de Cascais. Chegando de comboio é só descer a Rua Direita (a Frederico Arouca) e virar à esquerda quando chegar à loja em cujas paredes multicoloridas ainda se conseguem ler palavras escritas por Herberto Helder. Fica a uns quatro ou cinco minutos a andar calmamente.

É fácil chegar ao Beira-Mar. O que é contraproducente e insensato é querer estacionar o carro mesmo ali ao lado. Almoçar (e então jantar, com estas noites) no Beira-Mar é como tirar férias, viajando no tempo para um Verão que nunca existiu, onde ninguém tinha pressa, os empregados conheciam-nos e contavam-nos segredos sobre como e onde comer coisas boas.

É o único restaurante de Cascais de primeira qualidade. Mesmo quando havia três ou quatro outros, o Beira-Mar foi sempre o melhor. É espantoso que continue a ser tão bom, apesar de já não ter concorrência, como era quando era o melhor.

Tem uma fama injusta e maliciosa de ser um restaurante careiro. Não é verdade. A verdade é que é barato, considerando a altíssima qualidade dos ingredientes e da cozinha.

Uma dose amêijoas à Bulhão Pato (elogiadas publicamente pela grande deusa Maria de Lourdes Modesto) dá para duas pessoas e custa 19 euros. Uma dose generosa dos famosos filetes, com o arroz de berbigão e o tártaro sublime, custa a mesma coisa. Já não me lembro quanto é que custa o cheesecake mas tratando-se da melhor sobremesa do distrito de Lisboa deve custar uns cento e tal euros…

Neste mês de Julho — e durante todo o Verão e Outono — é um prazer raríssimo, antigo mas, afinal, eterno, almoçar (ou jantar) no maravilhoso Beira-Mar. É o único sítio onde se sente que se está realmente em Cascais. E come-se lá tão bem que facilmente se esquecem todas as outras qualidades que tem.

Beira-Mar
Rua das Flores, 6
Ao pé da Lota de Cascais
Tel: 214 827 380
www.restaurantebeiramar.pt